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O Estrangulador de Boston

O Estrangulador de Boston

O true crime é um gênero em ascensão na cultura pop. Embora os seus primeiros registros sejam datados da Grã-Bretanha de 1550, as obras têm conquistado espaço em diferentes tipos de mídia nas últimas décadas. Parte do interesse vem do fato de que elas se baseiam em evidências dos crimes, contam com depoimentos de pessoas envolvidas na investigação e, quando possível, com a transcrição dos julgamentos. Dessa forma, as análises são pautadas no material coletado pelos autores e não em impressões, o que contribui para diferenciar o true crime das produções baseadas em fatos reais, nas quais existe margem para interpretação.

Em geral, narrativas têm como ponto de partida um crime que ganhou notoriedade e é comum que elas tenham sido repercutidas pela mídia. Contudo, nem sempre a abordagem é feita de modo responsável porque existe a preocupação com o espetáculo, o que contribui para aumentar a audiência. Infelizmente, nós vivemos em um país que oferece diversos exemplos deste tipo de tratamento mórbido. Talvez, o maior deles seja o caso de Eloá Cristina, visto que a apresentadora Sônia Abrão chegou a falar ao vivo com Lindemberg Alves, o sequestrador que mantinha a sua ex-namorada e uma amiga dela em cárcere privado.

Se saímos do Brasil, a morbidez permanece. Um caso popular é o de Charles Manson, que fundou um culto ao redor da sua figura em meados da década de 1960. A seita, conhecida como Família Manson, atuava na Califórnia e foi responsável pelo assassinato da atriz Sharon Tate, bem como o de outras oito pessoas. Apesar disso, os produtos jornalísticos da época passavam a impressão de glorificar a figura de Manson, tratando a organização da seita e o seu poder de persuasão como características admiráveis. Além disso, boa parte dos conteúdos ignorava porque Charles Manson coopta majoritariamente jovens do sexo feminino com problemas familiares. Não é preciso fazer muito esforço para entender os impactos de uma figura que prometia acolhimento para garotas fragilizadas, especialmente uma que se colocava na posição de messias.

Quando olhamos para as sutilezas de casos como esses, é possível começar a entender um pouco do fascínio que o true crime desperta no público feminino. Esse interesse tem sido alvo de estudos, como o da Civic Science, uma plataforma que analisa hábitos de consumo. De acordo com o levantamento, 18% dos entrevistados têm o true crime como gênero favorito no formato de podcast. O apelo é maior entre membros da Geração Z e passa por uma queda conforme a idade dos ouvintes aumenta, girando em torno de 9% na audiência com mais de 55 anos. Além disso, o estudo revela que o true crime tem mais adesão entre as mulheres: 26% das entrevistadas têm preferência por conteúdo desse estilo. Isso vai de encontro a uma matéria veiculada pelo O Globo a respeito da ascensão do gênero no Brasil. Nessa reportagem, as hosts do Modus Operandi, um podcast com milhões de ouvintes, contaram que 75% do seu público é composto por pessoas do sexo feminino. Seguindo a mesma linha, Rachel Fairburn, do All Killa No Filla, revelou à BBC que entre 80% e 85% dos seus ouvintes são mulheres.

Ambas as matérias servem para ilustrar aspectos interessantes a respeito da presença feminina no true crime e a da BBC cita cinco possíveis motivos pelos quais as mulheres gostam do gênero: medo, compaixão, fascínio pelas motivações, mistérios para solucionar e escapismo. Entre eles, o último se mostra intrigante, mas também tem uma explicação. Durante a pandemia, o Google Trends divulgou que o número de buscas da palavra “terror” triplicou, deixando claro o crescimento do gênero, que é bastante próximo do true crime. Assim, vários sites se interessaram por investigar o que motivou esse cenário e as respostas indicavam que as narrativas funcionavam como um meio de fugir de um contexto que era ainda mais assustador, uma lógica que também pode ser aplicada ao true crime.

Também é interessante comentar a respeito da compaixão, que se parece mais com empatia quando olhada com atenção. Em casos como o de Ted Bundy e Gary Ridgway (ou Green River Killer), as vítimas são do sexo feminino. Logo, as mulheres acabam se colocando no lugar delas com maior facilidade, o que também serve para ilustrar porque o medo é um incentivador do consumo de true crime: se eu posso me tornar uma vítima, é melhor saber reconhecer os sinais do que ser surpreendida. Embora esse senso de segurança seja ilusório, ele torna as mulheres mais vigilantes. Todavia, essas motivações ainda são insuficientes para explicar totalmente o interesse feminino pelo true crime, tanto do ponto de vista da produção quanto do consumo e a matéria do O Globo serve para amarrar algumas pontas soltas.

Para Carol Moreira, uma das apresentadoras do Modus Operandi, quando mulheres produzem conteúdo do gênero existe maior predisposição para compreender as vítimas sem julgá-las. De encontro a isso, a escritora Luiza Lusvarghi comenta a respeito da tendência do true crime ao sensacionalismo, algo minimizado em títulos com assinatura feminina, em especial no que se refere à exploração dos sentimentos, o que pode ser ilustrado pela série Dhamer: Um Canibal Americano. Categorizada pelas famílias das vítimas como imprudente e cruel, ela chegou a colocar em tela uma  cena na qual os atores repetem, palavra por palavra, os depoimentos do julgamento de Jeffrey Dahmer, inclusive o da irmã de um dos jovens mortos pelo serial killer. Além das famílias, a jornalista Anne E. Schwartz, que cobriu o caso em 1991, afirmou que o programa troca a  precisão pela dramaticidade e é pouco fiel aos detalhes do caso que aborda. Curiosamente, essa produção é a segunda série mais vista da Netflix, com mais de 700 milhões de horas assistidas, o que revela um apreço do público geral pela espetacularização de tragédias.

Considerando esses pontos, é possível concluir que grande parte das mulheres que ocupa um espaço na produção de conteúdo de true crime o faz por acreditar que é possível respeitar as vítimas e se ater aos fatos, deixando de lado a necessidade de inflamar o público para conseguir engajamento. E se olharmos para os números conquistados por essas produtoras, essa visão está correta. Em 2019, 11 dos 20 podcasts mais ouvidos do iTunes eram classificados como true crime e sete deles tinham apresentação feminina.

Somado a essa mudança de perspectiva, existe um componente histórico relevante. Para a escritora Patrícia Hargreaves, se não olharmos para o passado dos crimes, a tendência é que sigamos cometendo os mesmos erros. Para ilustrar, ela citou o exemplo de Ângela Diniz, uma socialite morta pelo namorado na década de 1970. Embora o caso não deixasse margem para dúvida quanto à autoria, a defesa de Doca Street aproveitou uma ideia vigente desde o Império para conseguir fazer com que o caráter da vítima fosse julgado ao invés do assassino: o crime passional em legítima defesa da honra, algo. Ainda que o Código Penal não permita mais esse tipo de abordagem, Hargreaves ressaltou que a sociedade ainda enxerga a traição como motivo plausível para o feminicídio. Ou seja, a legislação pode ter mudado, mas a mentalidade permanece a mesma.

Então, é possível afirmar que as narrativas de true crime criadas e consumidas por mulheres são muito mais sobre a sociedade e sobre todos os fatores que possibilitaram a ocorrência dos crimes. Elas são extremamente humanas e fundamentais para a memória coletiva, extrapolando bastante a abordagem padrão da mídia e se distanciando do culto à figura do assassino. Nesse sentido, um exemplo recente que merece destaque é o filme O Estrangulador de Boston (Boston Strangler, 2023), que, apesar de não ser assinado por uma diretora, é conduzido de uma forma que nos faz pensar a respeito desses novos caminhos que o gênero tem seguido depois de se tornar um território feminino.

O primeiro ponto que contribui para isso é a escolha do diretor Matt Ruskin de deixar de lado Albert DeSalvo (David Dastmalchian), o serial killer que matou mais de dez mulheres em Boston entre 1962 e 1964. Ele não recebe mais do que vinte minutos de tela, o suficiente para que a sua identidade seja revelada, bem como alguns fatos inquietantes sobre a sua confissão. Entretanto, DeSalvo não tem maior aprofundamento. Para o diretor, as figuras centrais da história são Loretta McLaughlin (Keira Knightley) e Jean Cole (Carrie Coon), as repórteres que se dedicaram à cobertura do caso. Antes mesmo que a polícia entendesse que os três primeiros crimes do Estrangulador estavam conectados, Loretta foi a responsável por identificar um padrão e apurar os fatos, que posteriormente foram divulgados no jornal Boston Record America. Porém, ainda que a repórter tenha seguido todos os passos necessários para conseguir a sua confirmação, a polícia se recusou a aceitar a teoria por um tempo, o que acabou custando mais vidas.

Assim, a perspectiva feminina serve para expor as diversas camadas de misoginia da sociedade do contexto. Isso começa pela própria redação do jornal, que mantém Loretta confinada na seção de estilo de vida mesmo que ela tenha potencial para mais. As tarefas mais complexas, quase sempre ligadas a casos criminais, são destinadas aos homens, que não parecem interessados em desafiar as normas ou incomodar as autoridades para checar os fatos. Eles estão confortáveis com respostas vagas em nome de uma espécie de camaradagem, ainda que o trabalho de um jornalista seja questionar e incomodar para chegar à verdade. Isso se torna ainda mais claro quando um policial de alto cargo vai até o Boston Record para falar com Jack Maclaine (Chris Cooper), o chefe de Loretta, e afirma que foi um golpe baixo enviar um “rabo de saia” para falar com o detetive que esteve na cena do terceiro crime. Durante esse diálogo, ele também afirma que Jack não poderia ter publicado a reportagem, uma vez que as informações foram fornecidas somente porque o oficial acreditou que conseguiria obter favores sexuais de Loretta.

Embora o machismo seja mais evidente quando pensamos na personagem de Keira Knightley, ele também afeta Jean. Ainda que ela consiga trabalhar com investigações criminais, não está mais perto do que a colega de redação de ter o respeito dos seus pares. Conforme O Estrangulador de Boston avança, conseguimos perceber que boa parte dos jornalistas acredita que Jean somente trabalha nesses casos por causa da sua aparência. A diferença entre as duas repórteres está no fato de que Jean ocupa essa posição há mais tempo e, portanto, sabe lidar com esse tipo de insinuação e com os impactos da carreira na sua vida pessoal, algo que Loretta ainda está aprendendo a administrar. Em um primeiro momento, James (Morgan Spector), o marido da personagem, apoia o seu trabalho no jornal, mas isso muda a partir do ponto em que Loretta começa a ganhar relevância com a investigação do Estrangulador. Uma vez que a foto dela aparece no Boston Record, as coisas tomam um rumo diferente, e ela passa a ser alvo de cobranças que antes não existiam, um cenário potencializado pelo crescimento do caso e do sensacionalismo midiático ao seu redor.

Todos os jornais da região queriam uma fatia das vendas geradas pelo serial killer. Porém, nem sempre havia preocupação em apurar os fatos, e diversas reportagens baseadas em boatos foram veiculadas, espalhando o pânico pelas ruas de Boston. Isso serve para confirmar que o sensacionalismo é uma parte intrínseca do true crime há muito tempo, mas também para ilustrar como as vítimas muitas vezes são ignoradas na cobertura de casos dessa natureza. De um lado, tem-se uma imprensa preocupada em vender jornais às custas da tragédia. Do outro, uma polícia que deseja livrar a própria pele e escapar do tribunal da opinião pública. Porém, ninguém parece se importar em obter justiça para as mulheres que foram mortas pelo Estrangulador. Mesmo a ideia de prendê-lo tem pouco a ver com elas e muito mais com punitivismo, com aplacar a sede de sangue da comunidade e da própria polícia, ridicularizada algumas vezes ao longo da investigação.

Assim, as cenas em que vemos Lorretta e Jean conversando com as famílias das vítimas parecem caminhar na contramão do que produções pautadas em investigações criminais normalmente fazem. Nesses diálogos, percebemos que as jornalistas têm mais interesse em oferecer alento e justiça do que em receber algum tipo de gratificação pelo seu trabalho. A sua principal motivação é manter as mulheres de Boston seguras, visto que a falta de um padrão nas escolhas de vítimas do Estrangulador serve para revelar que qualquer uma pode ser o próximo alvo, independente de idade, raça ou outros marcadores que serviriam para criar uma separação. Dessa forma, nasce um senso de coletividade e a certeza, infelizmente atual, de que as mulheres só têm umas às outras quando enfrentam um mal que toca somente o sexo feminino.

Nesse ponto, é importante tomar um pouco de distância do filme para falar a respeito de como ele foi recebido por alguns veículos de imprensa. Avaliado com 2 de 5 estrelas do The Guardian, O Estrangulador de Boston foi descrito como sem emoção dramática e tensão. O texto do jornal também afirma que diretores como Jonathan Demme ou David Fincher poderiam ter feito um trabalho melhor com este material, mas Matt Ruskin prefere se manter “do lado certo do gosto contemporâneo”. É desnecessário dizer que a crítica foi escrita por um homem, Peter Bradshaw, dada a incompreensão das ideias apresentadas e dos motivos para essa “frieza”. Além disso, somente um homem poderia acreditar que não existe tensão suficiente em ver duas mulheres enfrentando praticamente sozinhas um serial killer. E apenas um homem seria capaz de afirmar que O Estrangulador de Boston não tem elementos capazes de despertar “calafrios de medo”.

Isso porque o crítico falha em perceber que o horror do longa reside em elementos muito mais sutis do que a tradicional exploração das mortes e da figura do assassino. Conforme Loretta e Jean investigam o caso do Estrangulador, elas se deparam com diversas possibilidades de criminosos além de Albert DeSalvo. Inclusive, ainda que ele tenha confessado a autoria, alguns crimes simplesmente não poderiam ter sido cometidos por ele, que estava preso quando eles ocorreram. Assim, O Estrangulador de Boston trabalha com a ideia de que o serial killer não é uma pessoa, mas uma mentalidade misógina, algo que permanece atual quando consideramos que mais de 50 anos se passaram desde esse caso e nós convivemos com a existência de incels, red pills e outros grupos que incentivam o ódio às mulheres. Para qualquer pessoa do sexo feminino, essa ideia por si só é aterrorizante. Porém, um cinema que explora a possibilidade de que mulheres vítimas de crimes sejam tratadas com respeito ainda é algo incômodo para muitos homens.

Em partes, isso acontece porque a ideia de que filmes devem servir exclusivamente como entretenimento é muito presente na sociedade. E o interesse de alguns grupos pelo true crime, como sugeriu a BBC, está ligado à solução dos mistérios. Portanto, os elementos que despertam a curiosidade são fundamentais para uma parcela do público. Assim, quando o foco é um novo olhar sobre o gênero, especialmente um olhar centralizado em mulheres, o incômodo masculino surge porque, junto com a nova perspectiva, vem a ideia de que transformar as mortes em espetáculo visual é desrespeitoso. Logo, escolher um caminho que se desviar do sensacionalismo e traz outras possibilidades de abordagem para um caso já extensivamente explorado é algo que rende uma recepção, no mínimo, ambígua. Porém, essa reação é algo que serve para ilustrar porque as mulheres precisam continuar tomando os seus espaços nesse tipo de discussão e produção de conteúdo. Como O Estrangulador de Boston mostra com eficiência, é somente quando nós contamos as nossas próprias histórias que passamos a ser vistas como mais do que corpos violados nas tramas criadas pelo patriarcado.

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Amanda Guimarães – Graduada em Letras pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), atua há mais de 10 anos como corretora de textos e redatora e escreve sobre cultura em vários sites pela internet afora desde 2012. Obcecada por cinema de horror, gatos e música dos anos 90, curte viajar para festivais e ficar em casa rodeada de suas gatas.

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Um novo universal?

Um novo universal?

A língua que você fala envenena a glote a língua o palato os lábios. Elas dizem: a língua que você fala é feita de palavras que a matam.

                                Monique Wittig, As guerrilheiras, 1969

 

Linguagem inclusiva é diferente de linguagem neutra. De acordo com a gramática, quando existe pelo menos um elemento masculino, o gênero predominante é o masculino. As pessoas que não se identificam como homem ou mulher buscam resolver esse impasse utilizando-se de símbolos “@” ou “x” no lugar dos marcadores de gênero. Porém, a alteração na grafia (uso do “x” ou “@”) dificulta a compreensão, e muitas pessoas com deficiência visual, que utilizam programas de leituras de texto, se veem prejudicadas, tendo em vista que os softwares não conseguem ler palavras escritas neste formato modificado. Escritoras feministas, como Monique Wittig, já apontavam em seus textos a mortificação das mulheres via linguagem, como lemos na citação inicial desta reflexão.

A editora francesa Des Femmes, fundada em 1973 por Antoinette Fouque, se dedica exclusivamente a publicar obras escritas por mulheres. Na página virtual da livraria, lemos: “écrire ne sera donc jamais neutre”. A ideia central é de que a escrita não é, e jamais será, neutra, pois ela reflete as experiências de quem escreve no mundo do qual participa.

Aqui vemos o imbróglio tomar grandes dimensões. A discussão sobre linguagem não sexista já estava consolidada desde meados dos anos 1960 com vistas à inclusão das mulheres na linguagem. A atual proposta de linguagem neutra, que seria mais adequadamente definida como linguagem não binária, propõe uma mudança gramatical. A linguagem não sexista, também conhecida como linguagem inclusiva, propõe uma comunicação sem excluir ou invisibilizar nenhum grupo social. A proposta da linguagem neutra ou não binária, busca a inclusão das pessoas não binárias, e sugere algumas alterações do idioma e do uso de novas grafias de palavras tais como: tod@s, todxs, todes.

O que é a linguagem sexista então? Um conjunto de vocábulos que, sendo primariamente do gênero masculino, simboliza ambos os gêneros em situação de comunicação. Mensagens estereotipadas e discriminatórias de ambos os gêneros com base em convenções preestabelecidas pela cultura e que nada têm a ver com condicionalismos biológicos intrínsecos aos seres humanos. Foi partindo desse entendimento que a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) definiu, a partir de publicações e formas diversas de intervenção sobre o tema, algumas diretrizes para Redação sem discriminação. A linguagem sexista tem sido um objeto de estudo e intervenção tratado em diferentes níveis de governo, chegando ao âmbito das Nações Unidas através da 24ª reunião da Assembleia Geral da UNESCO, em 1978, que propôs o exame e a revisão dos registros escritos e dos discursos orais que apresentem formas de discriminação de linguagem com relação às mulheres.

 Mudanças significativas nas relações sociais e humanas começam com o uso das palavras adequadas e com mensagens não verbais que reafirmem a equidade entre os gêneros e valorizem a diversidade sociocultural, sexual e racial. Introduzir estes parâmetros nos materiais de educação é fundamental para forjar novas relações entre as pessoas.

Algumas recomendações para evitar sexismo na elaboração de materiais de educação são:

– Eliminar da linguagem todas as expressões de conteúdo desqualificador ou discriminatório, que tenham como mensagem a inferioridade das mulheres, sua ausência na vida pública e a sua definição e identidade em função do homem. Dessa forma, torna-se injustificável manter o jargão “história do homem”, “o homem moderno”, tão comuns nos livros didáticos, especialmente aqueles dedicados à história natural.  Há palavras e expressões mais interessantes como “humanidade”, “espécie humana”, “homens, mulheres cis, trans e pessoas não binárias”, que substituem esse vício com propriedade.

– Fomentar nos textos e nas ilustrações imagens de equidade, cooperação e associação entre as pessoas, as crianças e jovens de raças, etnias, idades, religiões, posições sociais diferenciadas. Eliminar aquelas que contenham conteúdos estereotipados, desqualificadores ou discriminatórios.

– Mostrar situações em que o poder e a liderança estejam distribuídos por personagens de ambos os gêneros, em que os diferentes gêneros sintam-se representados nas atitudes positivas e propositivas.

As propostas para uso de uma linguagem não sexista já são comuns em várias línguas, tais como francês, inglês, alemão e espanhol. Na América Latina, os países, em sua maioria de língua espanhola ou castelhana, criaram redes de divulgação, distribuição de manuais, postagem de poemas e textos não sexistas, chegando mesmo a organização de uma campanha para a América Latina – que tem no dia 21 de junho uma data comemorativa, dia no qual as proponentes disseminam cartazes, poemas, textos e outros documentos visando a difusão de uma ideia muito simples, assim expressa: “No alfabeto é assim: ‘A = O’.   Duas letras diferentes, iguais em importância. Na vida dos seres humanos, naturalmente deveria também ser assim: iguais em direitos humanos e respeitados em suas diferenças”.

A = O torna-se o símbolo dessa luta contra o sexismo, travada no âmbito da linguagem. Outra proposta interessante é do Mujer Palabra, um grupo autodenominado de “independente” e “autogestionado”, dedicado a trabalhos de criação, pensamento e ativismo, cujo lema é: “Se a linguagem não importa não é essa nossa revolução!”.

A reivindicação do grupo é para a adequação da linguagem aos tempos atuais, em que as mulheres nem sempre concordam silenciosamente com as violências sexistas. A linguagem é historicamente construída e como tal deve ser revisada de modo que contemple as pessoas envolvidas no discurso, seja oral ou escrito. O que nos transmite a linguagem sexista? Que o homem ou o masculino serve como medida do humano, da norma, a referência. Que as mulheres são apagadas nessa referência universal. Que as formas femininas partem sempre do masculino. Que o masculino dita as regras de concordância. Que os homens são criaturas racionais enquanto as mulheres são criaturas sexuais, emotivas e, por isso, apêndice do homem.

Em suma, a linguagem tem servido para fustigar ou excluir as pessoas não brancas, deficientes, idosas, as crianças, minorias e as mulheres cis e trans que, apesar de serem mais de metade da população mundial, continuam sendo anuladas, apagadas ou eliminadas dos discursos orais e escritos. É imperioso proceder à reescrita da gramática fazendo uma revisão da ordem das relações sociais de gênero. É importante ensinar as pessoas a falar usando uma linguagem não sexista, paritária, inclusiva e democrática.

A linguagem influencia poderosamente nas atitudes, nos comportamentos e nas percepções. E é por isso que na Argentina, e em alguns países na Europa, criam-se orientações em manuais que assegurem, na medida do possível, uma linguagem não sexista nos documentos públicos.

Um exemplo é o projeto de lei da deputada Paula Cecília Merchan, publicado em 2011 na Argentina, intitulado: Uso de linguagem não sexista na administração pública. A linguagem é uma construção cultural e histórica que tem colaborado para a violência sexista. A crença que a humanidade é composta de “homens” e que, naturalmente, as mulheres são incluídas na palavra é motivo de sexismo. Do mesmo modo que um/a palestrante se referir a uma plateia de docentes composta em sua maioria por mulheres como: “os senhores” ou “os professores” é um tratamento sexista e excludente, que parte do princípio de que as mulheres são uma segunda categoria, inclusa na categoria “homens”. Dessa forma, a contribuição feminista para o debate está em evitar o sexismo na linguagem como um passo importante para o combate às discriminações de gênero. As práticas linguísticas, prioritariamente nos espaços de administração pública, podem servir de modelo e permitir o desenvolvimento coerente com as práticas sociais que se renovam, foi assim que vários países já produziram Guias de orientação para a utilização de uma linguagem não sexista.

Iniciativas semelhantes aconteceram na Europa e na América Latina, onde os guias de orientação formam materiais pedagógicos para serem utilizados nos textos escritos e nos discursos orais dentro dos setores públicos, pois se entende que, nesses locais, a prioridade deve ser a inclusão e a garantia do exercício da cidadania. A partir disso, aponto o argumento do guia elaborado pelo Instituto Canário, nas Ilhas Canárias na Espanha: “Nos últimos 30 anos generaliza-se um amplo conhecimento sobre como utilizar uma linguagem inclusiva em todos os âmbitos, especialmente na linguagem administrativa. São publicados livros, manuais, dicionários, conclusões etc. com a finalidade de utilizar a riqueza da língua espanhola em prol da generalização da linguagem não sexista para a cidadania” (Instituto Canário de la Mujer, 2010).

A urgência dos governos em adotar manuais de orientação se faz como medida para amenizar as dificuldades de adoção de uma gramática não androcêntrica, ou menos androcêntrica que as atuais. Na linguagem sexista está presente a crença quase geral que confere poder e superioridade ao homem e se manifesta em palavras e expressões que ocultam ou desqualificam o feminino. Um dos exemplos mais marcantes é o uso da palavra homem para designar todos os seres humanos, enquanto a palavra mulher designa apenas a fêmea da espécie. Alguns dicionários ainda propõem que a palavra mulher designa alguém da espécie humana depois da puberdade ou do casamento, deixando uma lacuna quanto ao que seriam antes desses dois casos. Se não são mulheres, o que seriam então? Este é apenas um exemplo dentre tantos. Como este exemplo existem outros em que o masculino precede, oculta e domina o feminino, ou que a mulher recebe sua identidade em função da relação com o homem.

A linguagem que nós usamos traduz o grau de desenvolvimento civilizacional em que nos encontramos. Ela é o reflexo do nosso sentir e agir, além disso, ela afeta diretamente a percepção da realidade. A linguagem sexista legitima comportamentos de desigualdade, desrespeito, discriminatórios, ao omitir retira importância, reduz à inexistência grande parcela da humanidade, o que reforça e promove a violência sexista. A linguagem, ao denominar as mulheres como propriedade dos homens, sustenta uma visão patriarcalista do mundo. É preciso prever sanções para quem não respeitar o direito de todas as pessoas se verem representadas com dignidade nos textos escritos e produzidos oralmente em contextos públicos, por isso os vários manuais elaborados a partir das diretrizes propostas pela UNESCO são um passo importante para a construção de uma gramática não androcêntrica.

Esse debate está apenas começando no Brasil, e como vimos, em atraso com relação ao restante da América Latina, proponho uma revisão morfológica, além, é claro, da elaboração de manuais e guias de orientação para a utilização da linguagem não sexista nos espaços públicos, tais como escolas, centros de saúde, prefeituras etc.

Além disso, ficam alguns questionamentos: como aprender a falar/escrever sem silenciar as outras pessoas? Como não transformar o “todes” em um novo universal, que substitui o “todos” e, novamente, exclui as mulheres do discurso? Creio que o debate está apenas começando e, portanto, vale lembrar que não será alimentando velhas exclusões que se fará nascer uma nova proposta.

Para concluir, vale lembrar que, entre a metade final do século XX e início do século XXI, a linguagem não sexista ou inclusiva esteve presente nas pautas feministas e nas organizações de direitos humanos. Nas últimas décadas, vimos surgir um debate propondo uma linguagem não binária. É muito justa e importante a reivindicação empreendida por pessoas que não se identificam como homens ou mulheres, preferindo se autodefinirem como pessoas não binárias. Porém, se faz urgente a compreensão de que mulheres cis e trans definem-se como tal e, em consequência, todas querem ser contempladas pela linguagem. Este é um ponto urgente e importantíssimo! Vencer a barreira do machismo na linguagem e nas práticas sociais do Brasil, um dos países com maior número de estupros, feminicídio e transfobia.  

Retomo a frase inicial de Wittig que diz: “a língua que você fala é feita de palavras que a matam”. Excluir as mulheres cis e trans da linguagem é uma forma de eliminar suas existências. É estranho e desrespeitoso ver feministas nomeando outras mulheres em suas assembleias, eventos ou reuniões valendo-se da linguagem não binária. Se a linguagem no masculino não representa mulheres cis e trans ou pessoas não binárias, vale dizer o mesmo para a linguagem não binária, ela não representa o conjunto de homens e mulheres cis e trans, que assim se definem. Uma forma inclusiva para contemplar uma plateia de ouvintes, com identidades múltiplas, pode ser mais gentil se falarmos: “Saudações à todas, todes e todos!”.

A nova exclusão das mulheres da linguagem estaria ocorrendo para criar um novo universal que as exclui ou seria uma forma simplista de falar menos/escrever menos fomentada pela comunicação virtual? São muitas dúvidas e muitos desafios. O certo é que mulheres cis e trans irão continuar lutando por espaço social, voz e direitos, na mesma medida que a discussão sobre a linguagem não binária deve ganhar novos contornos e um debate linguístico, social e político para além da perversa uniformização humana.

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Patrícia Lessa – Feminista ecovegana, agricultora, mãe de pessoas não humanas, pesquisadora, educadora e escritora.

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Domingo, 24 de setembro de 2023 – Lua crescente

Domingo, 24 de setembro de 2023 – Lua crescente

Após cumprir as demandas de trabalho do dia (de freela e de casa), comecei hoje a ler uma edição de cartas da Virginia Woolf e Vita Sackville-West (Editora Morro Branco, 2023), que comprei ontem numa livraria de rua em BH. Elas foram amantes apaixonadas. Tem coisa mais inspiradora do que carta de mulheres apaixonadas? Li 40 páginas e quis vir aqui escrever um pouco – há dias tenho pensado nisso, mas não fiz.

Tanta coisa aconteceu do último texto para cá… em relação ao meu trabalho como preparadora e revisora (tem aparecido muitas demandas!), ao mestrado (cursos, congressos, simpósios, apresentações, encontros, lançamentos de livros…), tudo direta ou indiretamente girando em torno da Luas e do meu ofício de trabalhar com livros e estudar sobre eles e sobre as demandas feministas. Enquanto isso, na minha cabeça fica martelando o que preciso fazer para que a Luas tenha mais visibilidade, que venda livros, mas não só… (porque, pasmem, uma editora pequena não sobrevive financeiramente de venda de livros… E, poxa, a Luas é um projeto tão legal… E importante. Me apaixono todos os dias por esse projeto.) Como fazer uma das partes que tanto sonhei/sonho com a Luas acontecer, que é ser um lugar de encontro de mulheres que escrevem, profissionais da edição e da cadeia do livro, leitoras/leitores, para espairecer as dificuldades do existir e aprimorarmos os bons encontros a partir dos livros?

Ter uma editora, lançar um livro, abrir uma livraria, montar cursos etc., tudo isso é sempre um risco. Tenho pensado muito sobre isso. Tudo na vida é sempre um risco. Por que temos tanto medo? Ou melhor, do que tenho tanto medo?

Depois de um pouco mais de três anos fora de BH, volto a morar aqui, e sei que não quero viver nesta cidade como se morasse numa qualquer, ou seja, ficar trancafiada em casa, trabalhando loucamente no computador e pensando no tanto de coisas que quero fazer, imaginando, criando, mas também lamentando estar sozinha nessa (mesmo, de fato, não estando, pois tanta mulher me apoia, apoia a Luas – somos uma coisa só…), não ter dinheiro para concretizar tudo o que minha imaginação cria com a rapidez de um falcão em voo… rs.

O curioso é que, ao mesmo tempo, pela primeira vez, tenho tomado decisões para focar cada vez mais no que quero ser e fazer com a Luas, vislumbro isso com mais claridade e calma. Com certeza tem a ver com o que trilhei até aqui, com as experiências – boas e não tão boas – que me fizeram, em alguns momentos, focar, noutros, desfocar do meu projeto editorial feminista. E isso me assusta. Tenho propensão a me perder nos desejos dos outros… empolgadamente… ingenuamente… e isso não é justo com ninguém, não é mesmo?

Eu sempre quis fazer algo que transformasse o mundo e me transformasse o tempo todo, e a Luas faz isso comigo – é como uma filha, existimos juntas. E tenho refletido, criticamente, sobre a lente com que olho tudo o que me acontece e faço acontecer – pequenas transformações não seriam conquistas maiores do que penso ser? E, juro, não é só como um mecanismo para seguir em frente. É que, de fato, temos em funcionamento uma cultura cuja base e perspectivas são muito cruel, anti-vida, principalmente para as mulheres, pessoas racializadas e pessoas não homens-cis-hétero-branco. E precisamos estar o tempo todo atentas às armadilhas que nos fazem ver que o que fazemos, desejamos, criamos, somos (ou pretendemos ser) é pouco, ou menos, ou menor, enfim…

Sob esta lua crescente, começo a semana querendo fazer planos, colocar no papel, como diz… organizar as ideias, os desejos, para materializá-los. Abrir um espaço da Luas, juntar dinheiro, criar um clube do livro, grupo de estudos, podcast… encontrar, compartilhar, trocar… mudar o mundo todo um dia… um pouco… de pouco em pouco… como dá… hoje.

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   Cecília Castro – Fundadora e diretora editorial da Editora Luas. Nasceu no norte de Minas, é feminista, ativista, apaixonada por livros, poesia e literatura.

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De A Fonte da Donzela a Bela Vingança: as contradições do rape and revenge

De A Fonte da Donzela a Bela Vingança: as contradições do rape and revenge

O rape and revenge (em tradução livre, estupro e vingança) é um subgênero do horror marcado por contradições. Embora a sua data de surgimento seja incerta, ele existe desde os anos 1950, e, até meados dos anos 2000, tais histórias eram majoritariamente contadas por homens, salvo exceções como O Mundo É o Culpado (Outrage, 1950), de Ida Lupino. Contudo, mesmo os títulos assinados por mulheres eram repletos de incongruências nesse contexto.

Em um primeiro momento, os filmes seguiam a seguinte estrutura: uma mulher era brutalizada e morta. Então, o seu pai ou marido tentava encontrar uma forma de sobreviver à tragédia enquanto começava a tramar a sua vingança. Por fim, ele encontrava os culpados pelo crime para o acerto de contas. Logo, as mulheres eram mero acessório para avançar a trama dos personagens masculinos, um tipo de tropo narrativo que se tornou conhecido como Mulher na Geladeira após a publicação da HQ #54 do Lanterna Verde, de 1994.

Isso deixa claro que o estupro era visto como uma mácula na honra do homem. Essa noção, ainda que indiretamente, vinculava o valor feminino à conduta sexual e à virgindade. Além disso, como as mulheres morriam no primeiro ato, os filmes se dedicavam a mostrar os reflexos da violência na vida de outras pessoas, algo que pode ser visto em A Fonte da Donzela (Jungfrukallan, 1960). Nesse longa, Tore (Max von Sydow) é o agente da vingança porque se torna consumido pela culpa de ter enviado a filha, Karin (Birgitta Pettersson), à igreja e feito com que ela cruzasse o caminho dos estupradores. Ingmar Bergman, o diretor, tenta estabelecer um laço de empatia entre o público e Karin usando a ideia de violação da inocência, principalmente através da criação de um contraste entre a donzela e a serva da família, Mareta (Birgitta Valberg), o que deixa implícita a ideia de que algumas mulheres merecem ser violadas.

É importante pontuar que algumas dessas contradições começaram a desaparecer a partir da década de 1970, contexto no qual o rape and revenge passou a ser associado ao cinema exploitation. O exemplo mais popular é A Vingança de Jennifer (I Spit on Your Grave, 1978), que serve tanto para apresentar uma nova forma de contar histórias quanto para expor outros problemas, todos causados pela perspectiva masculina. Nesse filme, Jennifer (Camille Keaton) é uma escritora que se isola em uma casa na floresta durante as suas férias. Desde a sua chegada, ela passa a ser observada por um grupo de homens que, posteriormente, a estupra, espanca e abandona para morrer. Porém, contrariando as expectativas, Jennifer sobrevive e começa a tramar a sua vingança.

Ao mesmo tempo em que a personagem passa a ter o poder de decidir como deseja conduzir a narrativa, o male gaze está mais presente do que nunca. Existe fetichismo na forma como a violência é filmada, sempre explorando o corpo de Jennifer e as suas reações. Em um texto do site de Roger Ebert, o crítico conta como foi assistir ao longa no cinema em 1980, e este relato serve para ilustrar os problemas presentes em A Vingança de Jennifer. De acordo com ele, embora a plateia não fosse tão grande, ela era perturbadora e extremamente verbal a respeito das suas impressões. Para Ebert, caso eles realmente acreditassem nas coisas que diziam, seriam criminosos sexuais. Como ilustração, ele cita um homem de meia-idade que, após a última cena de estupro do longa, disse que já tinha visto algumas boas, mas aquela era a melhor. Além disso, em uma sequência na qual três dos estupradores incentivam o quarto a atacar Jennifer, houve muitas risadas na plateia.

Em certa medida, esse tipo de reação aconteceu porque A Vingança de Jennifer não tem qualquer cuidado com a construção dos personagens. Eles são apenas quatro homens e uma mulher envolvidos em ataques brutais, o que leva o termo exploitation ao pé da letra. Tudo é sensacionalista e tem como único objetivo o choque – ou, como ilustrou Roger Ebert, o gozo. Além disso, é importante ressaltar que, enquanto Meir Zarchi não tem o menor problema em mostrar as violações sofridas por Jennifer, quando a vingança assume o primeiro plano e os homens passam a ocupar a posição de vítimas, a barbárie ganha contornos mais sutis. Logo, é possível concluir que o estupro surge em tela como um espetáculo visual grotesco e quase glorificado.

Apesar dos problemas evidentes, é interessante destacar que algumas estudiosas, como Carol J. Clover, autora de Men, Women and Chainsaws: Gender in Modern Horror Film, defendem que tecer análises condenatórias do rape and revenge não é algo proveitoso. Ainda que este seja um estilo que presenteia o público com numerosas inconsistências, elas são provocadas pelo olhar masculino e não pelo formato em si, algo que se prova verdadeiro quando filmes mais recentes são observados.

Atualmente, esse subgênero tem sido retomado por diretoras, o que não apaga os problemas passados, mas serve para escrever uma trajetória diferente, em especial no sentido de não explorar o sofrimento de maneira fetichizada. O primeiro título feminino do rape and revenge moderno é o francês Baise-moi (Baise-moi, 2000), de Virginie Despentes e Coralie Trinh Thi, um longa brutal que retrata duas garotas marginalizadas buscando acertar as contas contra a sociedade que as violou e humilhou. Entretanto, existem produções com direção feminina que acabam tendo mais a dizer a respeito da violência contra a mulher e da cultura do estupro, como Vingança (Revenge, 2019) e Bela Vingança (Promising Young Woman, 2021). 

Esteticamente, Vingança se aproxima bastante de filmes como Planeta Terror (Planet Terror, 2007) e Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road, 2015). Isso significa que existe pouca preocupação com o realismo. Essa escolha serve à narrativa na medida em que Jen (Matilda Lutz) não tem tempo para planejar uma retaliação porque a sobrevivência se mistura à vingança nos atos finais do longa. Portanto, ela não escolhe ir atrás dos responsáveis pelo estupro, mas sim precisa caçá-los para não ser caçada graças ao isolamento geográfico local em que está. Assim, Coralie Fargeat, a diretora, transforma a personagem quase em uma heroína de videogames, o que é divertido de assistir e contribui para que o público torça pela protagonista de Vingança. Essa escolha também representa uma quebra na forma como Jen foi construída durante a primeira meia hora do filme.

Isso porque nós a conhecemos como a amante de um milionário que foi levada por ele para um retiro de caça. Nesse primeiro momento, ela é propositalmente retratada como alguém frívolo e um pouco irritante, o que parece querer desafiar a empatia do público. É como se Matilda Lutz e Coralie Fargeat quisessem testar até onde quem assiste consegue ir sem acreditar que Jen mereceu ser estuprada. Um aspecto que ajuda a reforçar essa ideia é o fato de que a dupla abre mão por completo da ideia de violação da inocência ao optar por criar uma personagem que conhece bem a sua sexualidade e as formas de usá-la a seu favor. Então, quando o abuso acontece, ao mesmo tempo em que Vingança parece querer dizer que isso era esperado, o longa lança mão de outros recursos para nos colocar ao lado de Jen. O principal deles é a escolha de nos deixar ouvir mais do que ver durante a sequência de estupro. Assim, quando a câmera da diretora abandona o quarto para mostrar o que outro personagem masculino está fazendo, o espectador o vê aumentando o volume da televisão e se sentando para assistir, algo que serve para reforçar o pacto silencioso entre os homens quando o assunto é o estupro.

Então, embora Vingança seja um filme extremamente estilizado e gráfico, ele não é explorador. Na verdade, Coralie Fargeat chega a brincar com essa ideia porque o único personagem que aparece nu durante toda a projeção é Richard (Kevin Janssens), o namorado de Jen. E isso acontece depois que a protagonista conseguiu matar Stan (Vincent Colombe) e Dimitri (Guillaume Bouchède), a dupla de amigos convidada para o retiro de caça. Ou seja, Jen e o seu amante estão sozinhos em um campo de batalha nivelado. Além disso, Richard está coberto de sangue e sendo perseguido de forma implacável, algo que remete à forma como Jennifer foi caçada em boa parte do segundo ato de A Vingança de Jennifer. Logo, trata-se de uma subversão bem-vinda e de um longa que realmente devolve algum poder para as mulheres.

Sobre essa retomada, Bela Vingança propõe algumas reflexões ousadas. Na cena de abertura, vemos Cassie (Carey Mulligan) bêbada em uma boate e ela é abordada por um homem “preocupado com a sua segurança”, Jerry (Adam Brody). Ele lhe oferece uma carona para casa e no meio do caminho propõe que eles mudem a rota e vão até o apartamento dele. Quando Cassie pede para se deitar, Jerry aproveita para beijá-la forçadamente e para começar a tirar a sua roupa. O tempo todo, nós tememos pelo que vai acontecer, e, quando a protagonista “acorda” completamente sóbria para questionar o que Jerry está fazendo, somos surpreendidos. Aos poucos, descobrimos que essa encenação faz parte de um plano de vingança maior e que Cassie vem executando-o pacientemente todas as noites desde que Nina, a sua melhor amiga, tirou a própria vida depois de ser estuprada por um colega de sala.

Inicialmente, a vingança de Cassie não é algo direcionado. Ela sequer conhece os homens com quem sai à noite. Na verdade, o seu objetivo é atacar algo que está no coração da cultura do estupro: a certeza da impunidade. Então, quando ela fica magicamente sóbria e assiste a esses caras tentando defender a sua conduta ou mesmo quando planta na cabeça deles a dúvida sobre existirem outras mulheres que adotam a mesma prática, nós entendemos que a justiça que ela deseja não é somente para Nina, mas sim para qualquer mulher que se veja exposta a esses tipos de homem, especialmente àqueles que insistem em se definir como “caras legais”. O adjetivo, entretanto, parece querer dizer somente que eles não são esquisitões em um beco escuro, mas sim rapazes bonitos que abordam mulheres por se importar com o que aconteceria caso elas permanecessem vulneráveis em um espaço hostil.

Algo bastante acertado para fazer com que o público perceba que um estuprador não tem um rosto definido foi escalar atores conhecidos por interpretar “caras legais” em produtos da cultura pop recente. Por exemplo, Adam Brody se tornou querido nos anos 2000 por dar vida a Seth Cohen em The O.C; Christopher Mintz-Plasse interpretou o desajeitado McLovin de Superbad – É Hoje (Superbad, 2008); e, por fim, Max Greenfield era o adorável Schmidt, de New Girl. Todos esses personagens são marcantes o suficiente para que os seus intérpretes sejam automaticamente associados a pessoas inofensivas e de boa índole. De certa forma, isso se conecta com a ideia presente no título original do filme, que em tradução livre significa jovem promissora. Segundo Emerald Fennell, a diretora e roteirista de Bela Vingança, quando ela estava escrevendo o roteiro, a ideia de dar este nome para o filme surgiu a partir de uma manchete de jornal que se referia aos homens que cometeram um estupro como “promising young men”. Ou seja, eles eram rapazes brilhantes que teriam a vida interrompida por um “erro” caso fossem condenados. Em momento algum a matéria se perguntava a respeito da vítima, e, dessa forma, Fennell construiu toda a narrativa do filme para não deixar que nós olhássemos para outra coisa.

Ainda que Nina comece a história morta, ela é o motor da trama e tudo acontece por causa dela. Desse modo, embora algumas pessoas tenham criticado o fato de que a vingança de Cassie se torna pessoal nos atos finais do longa, na verdade, é exatamente aí que Emerald Fennell encontra espaço para deixar o seu ponto de vista claro. Para além da cena da despedida de solteiro, existem dois passos no plano de Cassie que são brutais, mas extremamente necessários por não focarem nos homens e sim nas mulheres que contribuem para que a estrutura nos transforme em vítimas diariamente.

O primeiro desses passos é o seu encontro com Madison (Alison Brie), uma amiga da faculdade que sabia que Nina estava falando a verdade, mas escolheu ignorar e não testemunhou a seu favor quando os fatos cercando o estupro foram apurados. Inclusive, durante o encontro com Cassie, Madison volta a dizer que provavelmente nada aconteceu e Nina precisava chamar a atenção por ter se arrependido do que fez na festa. Então, quando vemos essa personagem, agora bêbada e vulnerável, sendo levada para um quarto de hotel por um homem e depois assistimos à protagonista recusando as suas ligações por dias a fio, nós entendemos exatamente o que Cassie pretendia ao armar essa situação. Na verdade, pouco importa o que aconteceu entre Madison e o homem, porque o episódio é traumático pela incerteza e, claro, por tudo o que naturalmente faria com que a credibilidade feminina fosse questionada. Inclusive, é curioso como Madison parece menos propensa a confiar na índole de um homem a partir do momento que ela se torna uma vítima em potencial.

O segundo episódio está ligado à visita que Cassie fez à reitora da faculdade na qual ela, Nina e o estuprador estudaram. Primeiramente, ela finge interesse em retomar os estudos e a partir disso introduz o que aconteceu com a amiga na conversa. Então, a reitora tenta se eximir da responsabilidade pela injustiça afirmando que casos como esse precisam ser verificados com cautela para que o futuro dos rapazes não seja arruinado. Novamente, Cassie lança mão da ideia de que a dor só é compreendida quando bate à porta e mente sobre ter deixado a filha adolescente da reitora no mesmo dormitório em que Nina foi estuprada. Imediatamente, a ideia de dar o benefício da dúvida aos homens desmorona, dando lugar ao desespero para manter a menina em segurança.

Embora tudo isso possa parecer implacável, ao mesmo tempo, é compreensível. Nina tentou justiça por todas as vias legais. De um lado, encontrou advogados dispostos a destruir o seu caráter com base em fotos postadas nas redes sociais. Do outro, encontrou a indiferença da universidade pelo caso, algo que é bastante comum na realidade estadunidense e já foi abordado no documentário The Hunting Ground (2015), uma produção que não desvia os olhos de assuntos desconfortáveis, como a predisposição das instituições de ensino para acobertar casos de estupro somente para conservar a sua reputação. Portanto, em uma sociedade na qual a vítima é a última coisa na cabeça de qualquer pessoa em uma posição de poder, resta a Cassie recorrer ao terror psicológico para conseguir mostrar o óbvio.

É por isso que o desfecho de Bela Vingança, apesar do amargor, é o único final possível para um filme que quer discutir o papel da certeza da impunidade na criação de contextos que possibilitam estupros. Ainda que algumas pessoas não gostem do tom pessimista, na verdade, não existe um cenário em que uma história como essa poderia terminar bem e Cassie sabia disso desde o momento que decidiu entrar naquela cabana – daí todos os arranjos feitos pela protagonista antes de seguir adiante com o seu plano. Então, por mais que às vezes ela se pareça com uma vingadora impiedosa, na verdade, Cassie é somente uma mulher quebrada lidando com o luto e a raiva gerada por ele de uma forma extrema. Portanto, era óbvio que ela não tinha preparo para se expor àquela situação e conseguir escapar ilesa. Todos os arranjos que ela faz antes de seguir viagem para o local em que o estuprador está dando uma festa são pensados justamente porque ela sabe que existe a chance de que a história acabe ali, com mais uma mulher pagando a conta para que homens continuem vivendo as suas vidas em liberdade.

Embora filmes como Vingança e Bela Vingança adicionem novas camadas de complexidade ao rape and revenge, afastando definitivamente o subgênero do sensacionalismo das décadas anteriores, eles deixam evidente algo bastante incômodo: as mulheres só são capazes de acertar as contas através do justiçamento. Mesmo que este recurso seja muito mais cinematográfico e catártico, ele também serve para expor o fato de que o estupro é o crime perfeito porque o que está em julgamento não é uma ação que lesa outra pessoa, mas sim a conduta da vítima. Quando se fala sobre atribuir culpa e punição, casos dessa natureza se importam pouco com fatos e provas. Na verdade, o que vale é criar uma narrativa que continue servindo à ideia de que mulheres provocam e homens são incapazes de se controlar. E ainda que a tal “vítima perfeita” realmente existisse, em alguma medida ela precisaria estar preparada para ter o seu caráter arrastado na lama se quisesse fazer justiça por meio de dispositivos legais – algo que também é mostrado de modo eficaz pelo cinema em Acusados (The Accused, 1988), em Elle (Elle, 2016) e em séries como Law and Order: SVU.

Logo, o rape and revenge atualmente é um subgênero que serve para deixar claro o quanto as mulheres ainda estão vulneráveis e têm a sua liberdade cerceada por uma sociedade que insiste em tratá-las como seres de segunda classe. Portanto, apesar do seu histórico contraditório e de alguns exemplos que continuam investindo em uma violência extrema e desproposital, trata-se de um estilo de cinema com potencial para dizer muito a respeito do mundo em que vivemos e da forma como, apesar de todos os avanços, ele continua pronto para transformar mulheres em vítimas diariamente, o que, mais uma vez, confirma a fala de Carol J. Clover a respeito de não tecer análises condenatórias. Isso não significa ignorar problemas, mas sim aprender a observar criticamente produtos culturais, bem como entender que o passado das coisas pode nos dizer muito sobre o lugar que estamos atualmente.

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Amanda Guimarães – Graduada em Letras pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), atua há mais de 10 anos como corretora de textos e redatora e escreve sobre cultura em vários sites pela internet afora desde 2012. Obcecada por cinema de horror, gatos e música dos anos 90, curte viajar para festivais e ficar em casa rodeada de suas gatas.

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Domingo, 13 de agosto de 2013, 20h30 – lua minguante

Domingo, 13 de agosto de 2013, 20h30 – lua minguante

Escrevo em diário desde os 13 anos de idade, quando tudo já era intenso e eu sempre ansiosa por me expressar. Desde criança sou curiosa, comunicativa, alegre e “justiceira” – daquelas que protegia as pessoas oprimidas, inclusive eu mesma, sentando o sarrafo em quem fazia bullying comigo. Sorrio ao me lembrar disso. Trouxe essas características sobre mim para dizer que, por tudo isso, ao meu redor sempre tive pessoas para compartilhar, falar e ouvir, as experiências da vida, alguns pensamentos, impressões. Mas, em algum momento, eu entendi que tinha coisas particulares minhas que só cabiam num caderno e que ninguém pudesse saber, inclusive alguns poemas que comecei a escrever ainda bem jovem, e parei quando adulta… A vida tem dessas coisas…

Nesta Coluna/Diário, obviamente, escreverei sobre mim e meu ofício de editar livros escritos por mulheres e fazer dessa prática minha contribuição na luta feminista para mudar o mundo. Sim, é isso que as feministas, todas, queremos, mudar o mundo.

Hoje tenho 37 anos, guardo mais de 50 cadernos (além do inacabado atual) onde escrevi somente para mim mesma – hoje bem menos que ao longo dos primeiros 15 anos de escrita em diário –, escolhi fazer graduação em Letras para estudar Literatura e tomei para mim, como ofício e práxis feminista, editar livros. Sim, me tornei EDITORA. Mas não somente uma editora, me tornei uma ativista feminista no fazer editorial (outro dia escrevo sobre as especificidades disso, que inclusive é meu tema de mestrado). Fundei, em 2019, a Editora Luas, que tem um projeto editorial feminista de publicar exclusivamente textos escritos por mulheres, de trabalhar prioritariamente com elas, de, assim, contribuir para a circulação de livros contemporâneos de literatura; livros antigos, de nossas antepassadas (reeditá-los); livros de não ficção que discutem temáticas feministas; e livros para as infâncias.

Fiz toda essa apresentação, porque sei que é um diário aberto, público, e sempre preciso (e adoro!) contextualizar rs.

Mas, o que quero “desabafar” mesmo aqui, neste espaço, é um certo cansaço… Cansaço acumulado diante de tantos afazeres por ser uma editora que tem uma equipe de duas pessoas – eu e minha irmã maravilhosamente incrível, Dani, que é responsável pela parte que sou desesperadamente ignorante: administrativo, financeiro, comercial, estoque e criação das artes de divulgação. Cansaço por enfrentar solitariamente, sabendo que muitas mulheres editoras estão como eu, as dificuldades de ser uma editora independente, pequena, mas que sonha grande grande. Cansaço por ansiar tantas publicações e ter limitação de caixa, e por isso ter de adiar ou mesmo abrir mão de algum projeto ou publicação incrível. Cansaço por estar num contexto econômico tão desfavorável para vivermos minimamente bem – nós, trabalhadoras/es de modo geral, mas destaco aqui as trabalhadoras do livro – e para nossos projetos editoriais serem autossustentáveis.

Me sinto muito muito cansada… de ter de cuidar da Luas em tantas frentes sozinha e pegar muitos freelas, prestar serviço para outras editoras, porque a Luas não se sustenta ainda, muito menos a mim… Outro dia escrevo aqui tudo que faço… hoje me sinto tão cansada que só de lembrar já cansei mais…

Ao mesmo tempo, ainda tenho muitos sonhos dentro de mim… parafraseando o poeta meu irmão gemini, o Pessoa… E sou uma eterna entusiasta de que devemos executar nossos sonhos, desejos, por mais difícil que pareça. Acho mesmo que toda pessoa que queira fazer livros, abrir uma editora, deva fazer, principalmente se for uma mulher…

Li algo muito bonito e forte hoje, da María Lugones, e vou reproduzir aqui – hoje escreverei pouco, outro dia, em que estiver menos cansada, escrevo mais – para finalizar o dia de hoje com esperança:

“Não se resiste sozinha à colonialidade do gênero. Resiste-se a ela desde dentro, de uma forma de compreender o mundo e de viver nele que é compartilhada e que pode compreender os atos de alguém, permitindo assim o reconhecimento. Comunidades, mais que indivíduos, tornam possível o fazer; alguém faz com mais alguém, não em isolamento individualista. O passar de boca em boca, de mão em mão práticas, valores, crenças, ontologias, tempoespaços e cosmologias vividas constituem uma pessoa” (Lugones, María. Rumo a um feminismo descolonial).

Um dia de cada vez, sempre e todo dia. Continuarei. Continuemos.

Avante, hermanas!

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   Cecília Castro – Fundadora e diretora editorial da Editora Luas. Nasceu no norte de Minas, é feminista, ativista, apaixonada por livros, poesia e literatura.

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Driblando o preconceito

Driblando o preconceito

O esporte é uma das instituições mais poderosas. Os clubes, as federações, confederações possuem um forte instrumento a seu favor: o marketing esportivo. Fortunas são movimentas no mundo, e sua estreita relação com o universo do ilícito é pouco comentado. No Brasil, o sonho em tornar-se um jogador de futebol da seleção é alimentado desde tenra idade nos meninos, graças ao marketing esportivo, de tempos em tempos são criados ídolos, independente de suas competências técnicas ou mesmo características morais. O importante é existir um ídolo, um símbolo onde se apegar para alimentar a crença de que o amanhã poderá ser melhor. Muitos destes grandes nomes do futebol brasileiro estiveram envolvidos em escândalos com drogas, pedofilia e estupro de vulneráveis.

O esporte de rendimento é uma das instituições onde o preconceito sexual é enraizado. Apesar do fanatismo nacionalista pelo futebol, quando podemos ter o privilégio de ver uma partida feminina dos clubes brasileiros? O futebol é um ótimo exemplo para fomentarmos uma discussão sobre as mulheres cisgênero nos esportes. Vale lembrar dos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, quando a seleção feminina fez sua estreia. Foi um arraso, vitória após vitória, as atletas do Brasil conseguiram chegar à quarta colocação. Mesmo assim, fica a pergunta: o que aconteceu com aquelas jogadoras depois de uma estreia que as deixou perto das melhores do mundo? Suas histórias terminaram de um modo bem diferente daquela dos ídolos masculinos. Muitas nem sequer tiveram seus contratos refeitos nos clubes nacionais. A grande surpresa foi que clubes “famosos”, como Fluminense, Grêmio e Corinthians, seguiram as recomendações do projeto de Marketing do Saad (clube de futebol feminino de São Paulo), que dizia que, além de competência técnica, é necessário ter beleza para entrar em campo. Como o conceito de beleza para os homens (cis/hétero) é bastante questionável, podemos imaginar qual foi o destino das nossas craques lésbicas e de todas aquelas que fogem ao padrão heteronormativo.

Podemos dizer que isso faz parte de uma tradição de vigilância sobre o corpo e o comportamento das mulheres, de um imaginário coletivo no qual a passividade, o sacrifício, a submissão e a maternidade seriam dons privilegiados das mulheres. As duas primeiras publicações da Escola Militar de Educação Física (1930 e 1932) do Rio de Janeiro, sobre as mulheres na educação física, eram muito claras neste sentido: as mulheres têm a missão de fortalecimento nacional através da procriação, por isso não deveriam realizar atividade de força, pois as atividades físicas deveriam, sim, trabalhar a “bacia” e fazer a “correção das formas”, no popular, hoje, deixá-las “gostosas”. É interessante observar, por exemplo, que a dança (vista no senso comum como atividade feminina) era indicada com sérias restrições nestas publicações, pois poderia mobilizar “paixões, energia sexual, impulsos eróticos e a lascívia”.

Ignorância e preconceito à parte, as mulheres persistiram, mas veio a legislação. Em 1941, o Conselho Nacional de Desportos (CND) cria o decreto Lei 3.199, que no artigo nº 54 dizia que as mulheres não poderiam praticar esportes incompatíveis com sua natureza e, na deliberação 7, dizia que não seria permitida a prática de futebol, futsal, futebol de praia, pólo, halterofilismo, baseball e lutas de qualquer natureza. Essa aberração vigorou até 1975 e teve uma revisão insignificante em 1965, quando definiu o que poderia e o que não poderia ser jogado.

Enquanto isso, as escolas alemãs de educação física para Mulheres, em 1930, tinham o seguinte lema: “Uma garota para cada esporte e um esporte para cada garota”, elas já brigavam com as americanas que pregavam o jogo pelo jogo. Do outro lado do mundo, no Japão, em 1926, já se realizava a primeira Conferência da Kodokan (primeiro dojô, ginásio para prática de judô, inaugurado em 1882) de Judô Feminino. E, muito antes disso, as mulheres das famílias de samurais estudavam o Nagitana (luta com espada) e o Kyudo (arco e flecha), bem como mulheres que se desenvolveram na tradição do Jujitsu (no popular Jiu Jitsu). Podemos ainda tomar como exemplo Rusty Kanokogi, pioneira no judô feminino, cujo esforço se deve o primeiro campeonato Mundial de Judô para mulheres em Nova York, em 1980. Sua história marca as dificuldades pelas quais muitas mulheres atletas tiveram que superar. Em 1955, a muito custo, ela conseguiu entrar no dojô local e teve que treinar com 40 homens, muitos dos quais tombaram no tatame. Ela entrou para a história do judô, dentre muitos feitos, por participar de campeonatos contra homens e sair vitoriosa. Incansável, Kanokogi processou o Comite Olímpico do EUA e o USJudô Inc., por excluir as mulheres do Nacional Sports Festival em 1981, alegando discriminação sexual.

A questão é que os argumentos machistas sempre foram contraditórios, tentaram excluir as mulheres em função de uma suposta fragilidade física, intolerância à dor e dom da procriação, sem pensar que o próprio ato de parir envolve força, coragem e muita dor. Mas o importante é que as mulheres resistiram, tiveram seus nomes marcados nos momentos de maior alegria para quem realmente gosta de esportes, afinal quem não se lembra do quarteto que arrebentou corações, Marta, Paula, Janete e Hortência, esta que até recebeu o título de rainha do basquete? Em 1994, no Mundial de Basquete da Austrália, a seleção feminina nos proporcionou a alegria de vê-las desfilar em nossas cidades brasileiras carregando no peito uma medalha de ouro. Hortência, que com apenas 1,74 de altura, muita garra, tendo de 10 a 12 horas de treino diário, permaneceu imune aos podres jogos da instituição desportiva, de domínio, ainda, quase exclusivamente masculino.

Poderia ainda falar das Ligas e Federações de Juízes, da qual fiz parte e, como muitas companheiras, tive que trabalhar completamente só num universo dominado por homens, quando aos 20 anos de idade fui aprovada no concurso da Liga Pelotense de Futsal, em Pelotas R.S., assumindo a cadeira e o peso de estar entre as primeiras mulheres a ingressar nessa instituição. Como muitas companheiras, compartilho a ideia de que a distribuição de jogos, de categorias e de trabalho em campo é desigual, injusta e acarreta uma diferença salarial substancial. Assim é com o Comitê Olímpico Internacional, com os “grandes clubes”, com as Confederações.

Em 2010, realizei uma pesquisa documental na Biblioteca Nacional (BN) do Rio de Janeiro e encontrei matérias sobre os testes de sexo, realizados pelo Comite Olímpico Internacional. Eram testes obrigatórios para as mulheres poderem participar dos jogos e garantirem a sua “carteira rosa”, ou seja, a prova definitiva de que eram mulheres. Os testes começaram nos jogos de 1968 e se prolongaram por oito edições, até os anos 2000. Eram testes invasivos, nos quais uma comitiva de médicos, todos homens, vasculhavam e fotografaram as genitálias das atletas. Encontrei matérias que relatam que algumas fotos vazaram na imprensa e levaram muitas atletas a desistirem da carreira após tamanha humilhação pública. Um dos textos sobre a pesquisa pode ser encontrado na Revista de História da BN e também no meu site: https://patricialessa.com.br/artigos/.

Em 2023, tivemos, pela primeira vez no Brasil, a oportunidade de assistir em rede nacional a Copa do Mundo Feminina. O governo federal, pela primeira vez na história, decretou ponto facultativo nos dias que a seleção brasileira jogou. Foi algo inédito no Brasil, apesar de ser bem comum em muitos países, onde o machismo e o ódio às mulheres não são tão escancarados como nas terras brasileiras. Infelizmente, foi a última Copa do Mundo na qual a jogadora número 10, Marta, participou. Felizmente, para as mulheres, tivemos a honra de acompanhar uma carreira de glórias, de ética e de muita luta. Marta, mulher nordestina, lésbica, teve que sair do Brasil, hoje é atleta do Orlando Pride, nos Estados Unidos. No Brasil ainda é difícil para as mulheres viver do esporte, mesmo no futebol.

Mesmo com as barreiras impostas pela misoginia, Marta é recorde entre mulheres e homens, sendo eleita seis vezes a melhor do mundo, com 119 gols pela seleção brasileira. Número que a define como a maior goleadora entre mulheres e homens. Pelé fez 77 e vem logo depois. Além disso, ela ficou conhecida pela campanha contra as marcas de tênis. Ela cobre com uma fita a marca a fim de mostrar que a desigualdade no patrocínio entre mulheres e homens é imensa e, portanto, deve ser exposta publicamente.

Futebol, SK8, bodyboard, ciclismo, equitação, basquete, corrida, atletismo, halterofilismo, fisiculturismo, boxe, esgrima de espada e de sabre dentre muitos outros esportes, alguns deles até poucos anos “contraindicados” para o “sexo frágil”, são hoje praticados por mulheres que não se dobram às injustiças sociais e, com muitas dificuldades, falta de patrocínio, assédio moral e sexual dentre outras questões, levantam todos os dias com garra e força e transformam o mundo dos esportes de rendimento em um cenário renovado com a sua presença. No mês da visibilidade lésbica, vamos saudar as atletas, lesbianas ou não, que estão dando uma lição de força e resiliência dentro de um universo muitas vezes hostil.  

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Patrícia Lessa – Feminista ecovegana, agricultora, mãe de pessoas não humanas, pesquisadora, educadora e escritora.

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Conversa suave, de Joyce Chopra

Conversa suave, de Joyce Chopra

As histórias sobre amadurecimento (ou coming-of-age), em geral, possuem enredos bastante simples: em um recorte curto da vida dos protagonistas, eles passam por momentos transformadores que contribuem para a sua saída da adolescência e entrada na vida adulta.

Assim, os eventos retratados não costumam ser grandiosos e as narrativas pertencentes a esse estilo de cinema priorizam aspectos psicológicos. Então, processos internos têm tanta importância quanto o que vemos em tela, de modo que o coming-of-age exige investimento emocional por parte do espectador.

Na década de 1980, esse “gênero” se tornou popular pelas mãos de John Hughes, responsável por clássicos como Clube dos Cinco, Curtindo a Vida Adoidado e Gatinhas e Gatões. De uma forma bem-humorada, o diretor se valia do universo de adolescentes para estudá-los e fazia isso de um modo que a sua produção fosse acessível para os jovens, que eram o seu público-alvo. Essa escolha rendia tanto sequências engraçadas, como Ferris Bueller (Matthew Broderick) levantando a multidão com Twist and Shout em um desfile, quanto momentos de muita sinceridade, como a cena em que os personagens de Clube dos Cinco conseguem se enxergar para além dos estereótipos que assumem nos corredores da escola.

Apesar de Hughes ter sido o grande destaque mainstream do coming-of-age oitentista, o estilo de cinema também foi um terreno bastante frutífero para a produção cinematográfica feminina, visto que essa década marcou o começo da carreira de diretoras como Amy Heckerling (Picardias Estudantis), Penny Marshall (Quero Ser Grande), Susan Siedelman (Smithereens), Martha Coolidge (Sonhos Rebeldes) e Joyce Chopra, que assina uma das maiores pérolas do estilo quando se fala sobre retratos de garotas adolescentes: Conversa Suave (Smooth Talk, 1985), filme que passou anos esquecido e foi resgatado em 2020 após um relançamento em festivais e mídia física.

Baseado no conto Where Are You Going, Where Have You Been?, de Joyce Carol Oates, Conversa Suave nos coloca como observadores da rotina de Connie (Laura Dern), uma garota de 15 anos que mora com a sua família em uma casa de fazenda no subúrbio. Durante as suas férias de verão, ela faz uma série de atividades comuns com as suas amigas e evita ao máximo o ambiente doméstico, tanto pelo tédio quanto por sua relação conflituosa com Katherine (Mary Kay Place), a sua mãe.

Dessa forma, os dois primeiros atos de Conversa Suave se dedicam à construção da imagem de Connie nos espaços pelos quais ela transita. Ao lado de Jill (Sara Inglis) e Laura (Margaret Welsh), a menina vaga pelo shopping da cidade demonstrando autoconfiança, usa roupas que ressaltam os seus atributos físicos e está sempre prestando atenção nos garotos ao redor, bem como tentando encontrar situações nas quais possa se colocar em contato com eles.

Entre sequências em lojas e conversas na fila do cinema, o que mais chama a atenção são os momentos nos quais a protagonista aparece no dinner à beira da estrada. Nesse ambiente, ela flerta abertamente e, por vezes, aceita deixar o local na companhia de algum rapaz. Porém, não é difícil perceber que Connie está apenas replicando um comportamento que aprendeu em revistas femininas: o seu rosto parece concentrado demais e os seus gestos cuidadosamente calculados. Além disso, uma vez que a possibilidade de um contato íntimo se torna tangível, a personagem acaba abandonando os seus encontros sem maiores explicações. Logo, é possível notar que as suas idas ao dinner têm muito mais a ver com um desejo de ser apreciada do que com um interesse por sexo.

Isso pode ser corroborado pela cena na qual ela volta sozinha para casa. Nela, Connie está caminhando por uma estrada escura e praticamente deserta quando acaba chamando a atenção de um grupo de jovens que está passando de carro. Nesse momento, a garota se irrita pela forma como é abordada, visto que acredita existir um contraste entre ouvir cantadas sendo gritadas aos quatro ventos e ditas na forma de uma conversa suave. Ainda que os dois “modus operandi” partam do mesmo tipo de ideia e tenham a mesma motivação, Connie não é capaz de perceber essa sutileza devido à sua inexperiência. Então, para ela, os garotos com quem flerta estão lhe oferecendo afeto e atribuindo importância à sua presença; enquanto os que passam de carro estão somente avaliando-a pela sua aparência, algo que não faz com que ela se sinta vista.

Vale comentar também que essa necessidade de ser apreciada tem ligação direta com a dinâmica familiar da personagem, em particular com a sua relação com a mãe, que favorece abertamente June (Elizabeth Berrige), a filha mais velha. O clima de hostilidade e incompreensão é estabelecido ainda na primeira cena em que vemos Katherine e Connie interagindo: a menina está no seu quarto ouvindo música e se preparando para sair com as amigas quando a mãe entra, olha para ela e diz que só enxerga “devaneios inúteis”. Além disso, Connie é constantemente cobrada em assuntos relativos à reforma da casa da família, em especial sobre a sua incapacidade de ajudar a acelerar o processo. Embora esses diálogos sirvam para acentuar a sobrecarga materna, visto que o pai está constantemente ausente devido ao seu trabalho, a mesma cobrança não recai sobre June, o que demonstra que Katherine apenas não sabe acessar a sua filha mais nova e prefere assumir um tom condenatório diante da sua necessidade de se encontrar enquanto sujeito.

Outro ponto interessante sobre as sequências nas quais Connie aparece convivendo com a sua família é a forma como a sua postura muda drasticamente. Com os ombros arqueados e os braços entrelaçados ao redor do corpo, ela parece deslocada e incomodada. Além disso, está constantemente voltada para dentro de si mesma e não se parece em nada com a garota extrovertida que assistimos nas demais sequências. A única coisa que Connie conserva é o seu senso de rebeldia, visto que ela se recusa a participar de atividades como o churrasco de vizinhos que o seu pai estava ajudando a organizar. E é exatamente essa recusa que abre espaço para que Conversa Suave se transforme em um thriller psicológico no seu último ato.

A mudança de tom acontece por meio da introdução de Arnold Friend (Treat Williams) na história. Ele é um homem mais velho, na casa dos 30 anos, que tem acompanhado Connie à distância. Conforme o diálogo entre os dois avança, é notável que Arnold já observou o bastante para colher elementos que pudesse usar para intimidar a menina e convencê-la a dar um passeio de carro com ele. Friend assume um comportamento predatório desde o seu primeiro momento em cena, e, mesmo se deixamos de lado a linguagem corporal, o principal elemento que denuncia as suas intenções, é curioso notar como o que ele diz pra Connie não se difere tanto do que os garotos do dinner dizem. Inclusive, o tom suave também está presente, mas no caso de Arnold ele serve para esconder a ameaça velada e o fato de que ele não está disposto a aceitar um “não” como resposta.

Os elementos discursivos e as atuações são fundamentais para que a apreensão cresça na última meia hora de Conversa Suave e quando eles se somam à ambientação, tanto pelo isolamento da casa de fazenda quanto pela fragilidade da porta de tela que separa Connie e Arnold, quem assiste se vê tão encurralado quanto a protagonista. Para além da construção da tensão, tudo isso serve também para justificar o uso de dois terços do filme para a construção de identidade de Connie. Na reta final do longa, embora ela esteja sendo lida por Friend como uma garota de “espírito livre”, ela está ocupando um espaço no qual pode deixar de lado a sua imagem cuidadosamente construída e ser o que é: uma menina de 15 anos que está procurando afeto nas pessoas erradas através das ferramentas erradas. E uma vez que não existe ninguém para impressionar ou mesmo o desejo de impressionar, Connie está vulnerável e não há nada que ela possa fazer para se esquivar da atenção indesejada.

Ainda que Joyce Chopra escolha, acertadamente, não mostrar o que acontece entre os personagens depois que eles partem para o passeio de carro, as sequências finais de Conversa Suave nos dão elementos suficientes para concluir, seja pela expressão no rosto de Connie ou por sua tentativa de resgatar momentos da sua infância através da música. Depois de voltar para casa, ela está acompanhada de sua irmã no quarto. Então, assume comportamento frágil e coloca para tocar uma canção que as duas costumavam ouvir com a mãe. A trilha sonora, bem diferente do pop rock que Connie escuta quando está sozinha, nos faz perceber que algo mudou internamente e, de repente, é como se ela não tivesse mais pressa de ser percebida como uma mulher porque, na verdade, a sua busca dizia muito mais respeito à carência afetiva do que a vontade de assumir um papel de adulta.

É bastante comum que os coming-of-age protagonizados por meninas façam esse tipo de caminho porque o crescimento das personagens não está ligado somente a uma experiência transformadora, mas à percepção de que adentrar o universo de mulheres adultas é algo muito mais complexo do que explorar possibilidades, estejam elas ligadas ao campo afetivo ou não. É também aprender a estar em constante estado de alerta e ciente de que o mundo não foi pensado para que a sua liberdade seja exercida sem ressalvas. E, principalmente, é saber navegar por essas questões sem se deixar paralisar. Portanto, o desejo de Connie por um retorno à infância encontra ecos nesses pontos, que infelizmente chegaram até ela de uma maneira violenta, mas que teriam lhe alcançado de qualquer outra forma – e isso é algo que o coming-of- age das últimas duas décadas demonstra com clareza por meio de títulos que vão do horror de It – A Coisa (It, 2017) ao desconforto de Oitava Série (Eight Grade, 2018).

Então, o que separa Conversa Suave de outras histórias sobre amadurecimento é o entendimento das implicações de crescer sendo uma garota em um mundo que sequer oferece opções saudáveis de inspiração. Joyce Chopra consegue colocar essas discussões nas entrelinhas do seu filme sem se esquivar de temas difíceis ou tratá-los de maneira panfletária e verborrágica, o que seria um equívoco em uma arte que é, antes de tudo, imagem. Através dessas escolhas, a diretora demonstra entendimento não só de Connie, mas de uma geração que cresceu em um período histórico turbulento e marcado por diversas mudanças coletivas de mentalidade que impactaram significativamente a maneira de sujeitos jovens de se colocarem no mundo e, claro, à forma como o mundo respondia a essas novas formas de existir.

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Amanda Guimarães – Graduada em Letras pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), atua há mais de 10 anos como corretora de textos e redatora e escreve sobre cultura em vários sites pela internet afora desde 2012. Obcecada por cinema de horror, gatos e música dos anos 90, curte viajar para festivais e ficar em casa rodeada de suas gatas.

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Por que marchamos?

Por que marchamos?

 

“Esse é o resumo da nossa chegância. Mulherizar e indigenizar. Somos mulheres bioma, mulheres terra, água. Somos mulheres ancestrais.”

Célia Xakriabá

 

As mulheres, cis e trans, formam multidões marchando pelas ruas ao redor do mundo e adentrando nos espaços virtuais com muita criatividade, arte e ativismo social. As reivindicações são pontualmente localizadas ao sabor do tempo e da geografia. Nem todas se definem como feministas, mas, certamente, as feministas e/ou transfeministas ocupam lugares de destaque no agenciamento, na preparação e produção destes megaeventos sociais. Suas agendas são múltiplas: lutas por direitos, contra o feminicídio, contra o racismo, pela ecologia, pelos direitos dos povos indígenas, contra o estupro, pró-aborto legal etc.

Um ótimo exemplo foi a multidão que tomou as ruas de Buenos Aires, na Argentina, no dia 4 de junho de 2018, reivindicando mudanças na legislação que regulamentava a prática do aborto. Seu símbolo era o lenço verde e as vozes entoavam: “aborto legal no hospital!”. O lenço é emblemático naquele país. Lembremo-nos das Madres de la Plaza de Mayo (Mães da Praça de Maio). Elas formaram um agrupamento de mães em busca de seus filhos e filhas assassinados/as ou desaparecidos/as, no período entre 1976 e 1983, pelo terrorismo de Estado perpetrado na ditadura militar. O movimento começou silenciosamente, pois falar e protestar era arriscado. Foi então que as mães adotaram os lenços brancos como forma de se identificarem e se encontrarem clandestinamente para fugir da repressão, para trocarem informações e levarem suas demandas para a imprensa internacional. As mulheres de lenços verdes, assim como as mães de lenços brancos, escreveram um novo capítulo na história. Em dezembro de 2020, foi aprovada a lei de interrupção voluntária da gravidez nos hospitais da Argentina.

Muitos séculos antes das reivindicações na Argentina uma marcha além-mar marcou a história mundial. Cito a Marcha das Mulheres sobre Versalhes, realizada nos dias 5 e 6 de outubro de 1789. Aproximadamente 7 mil mulheres iniciaram o movimento no rumo do Palácio de Versalhes. Elas reivindicaram alimento para a população e mudanças constitucionais. A Revolução Francesa já estava em curso. O povo vivia na miséria e passava fome enquanto a nobreza e o clero ostentavam luxos absurdos. A notícia de um banquete em comemoração pela chegada de uma infantaria, que prometia proteger o rei Luís XVI e a rainha Maria Antonieta, causou revolta popular especialmente entre as mulheres que não tinham pão para alimentar as suas famílias. Cerca de 20 mil pessoas aportaram nos portões do palácio exigindo mudanças sociais e alimento para o povo.

Anne-Josèphe Théroigne de Méricourt (1762-1817) foi uma das lideranças do movimento. Ela era uma campesina que havia participado da Tomada da Bastilha e, mais adiante, estaria na ocupação do Palácio das Tulherias. Seus discursos arrancavam aplausos da multidão. Ela dizia que era preciso levar “o padeiro, a padeira e o pequeno aprendiz” até Paris, fazendo referencia ao rei, a rainha e ao delfim. A ocupação em Versalhes foi sangrenta. Conta-se que aproximadamente 2 mil guardas tiveram as cabeças arrancadas e fincadas nos arredores do palácio. O rei, temeroso, assinou a afamada Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Alguns anos depois, em 1791, Olympe de Gouges (1748-1793), pseudônimo de Marie Gouze, escreveu a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã. A declaração rendeu-lhe a morte na guilhotina e só foi, parcialmente, agregada a legislação nos anos 1980 – período marcado como a década dos direitos das mulheres, sobretudo, com o início das Conferências Mundiais da Mulher alavancas pela Organização das Nações Unidas (ONU). Muito se sabe sobre a Revolução Francesa, as cabeças dos nobres rolaram e a burguesia tornou-se uma classe de prestígio. No entanto, poucas pessoas sabem sobre a Marcha das Mulheres sobre Versalhes e o papel das lideranças femininas na insurreição e, em consequência, a abertura das portas para inclusão das mulheres como dignas de direitos.

Como havia escrito no início, cada lugar e temporalidade carrega suas bandeiras de luta. No dia 3 de abril de 2011 em Toronto, no Canadá, aconteceu uma manifestação transnacional a SlutWalk – divulgada no Brasil como Marcha das Vadias (MdsV). É importante recordar que as Marchas das Vadias tomaram as ruas do mundo depois de um estupro em que a vítima foi acusada pelo policial que a atendeu. Quando o agente judicial questionou sobre qual roupa ela estava vestindo no dia da violência sexual que havia sofrido, ele, automaticamente, a responsabilizou de seduzir o criminoso. A violência machista é reforçada e reafirmada no questionamento que se faz à vítima sobre suas roupas, local e horário de circulação na tentativa de demarcar o espaço público como local não apropriado para as mulheres, local perigoso, local de exclusiva circulação para os machos sedentos por sexo e sangue.

A MdsV sucedeu em um período de renovação nas ações marcadas pelos artivismos feministas, nestes os corpos das mulheres são territórios de paz e de luta social, tendo em vista que buscam o respeito e reivindicam direitos. A arte, o ativismo feminista e a educação libertária nos permitem, assim, entender que a construção de um mundo melhor passa pela pluralidade das vozes sociais, pela rebeldia como ato político e por práticas de resistência que podem ecoar rapidamente via redes sociais. 

A MdsV para Margareth Rago, em sua obra A Aventura de contar-se: feminismos, escrita de si e invenções da subjetividade, “traz algumas novidades no modo de expressão da rebeldia e da contestação, caracterizando-se pela irreverência, pelo deboche e pela ironia. Se a caricatura da antiga feminista construía uma figura séria, sisuda e nada erotizada, essas jovens entram com outras cores, outros sons e outros artefatos, teatralizando e carnavalizando o mundo público”.

Um artivismo posterior, com a marca de uma geração que faz sua arte circular de forma veloz pelas redes sociais, causando impacto ao redor do mundo, foi a ocupação das ruas proposta pelas feministas do Coletivo Las Tesis, do Chile. No dia 25 de novembro de 2019, elas ocuparam as ruas e os espaços virtuais com a performance Un violador en tu camino. Mulheres cis e trans, nos dias que seguiram, ocuparam as ruas e praças na América Latina, em Paris, Nova Iorque, Madri, em muitas cidades brasileiras, dentre outros tantos sítios geopolíticos e virtuais. Com uma sequência de dança sincronizada e simples, com uma venda preta nos olhos, ao som de tambores, elas cantavam, entoando a frase “o estuprador é você!”. O artivismo feminista tornou-se, em poucos dias, uma ode contra o feminicídio, deixando a mensagem feminista novamente nas ruas e na web: “a culpa não é minha, nem de onde eu estava e nem de como me vestia”.

No Brasil a realidade social das mulheres é muito complexa. Lemos no site da Sempreviva Organização Feminista (SOF): “Uma mulher é morta a cada nove horas durante a pandemia no Brasil”. A Revista Afirmativa apresentou, em 2021, alguns dados alarmantes: 74,7% das vítimas de feminicídio têm entre 18 e 44 anos; 61,8% são mulheres negras; 81,5% são assassinadas pelos companheiros ou ex-companheiros; 8,3% são mortas por familiares e em 55,1% dos casos o assassino usa arma branca. Segundo o Observatório do Terceiro Setor, o Brasil ocupa o 2º lugar no ranking mundial de exploração sexual de crianças. Por ano são registrados mais de 500 mil casos de exploração sexual de crianças e de adolescentes. São mais de 1.369 casos por dia. Estima-se que somente 10% deles sejam notificados.

Devemos lembrar que o Brasil é um território coronelista e latifundiário, nas mega fazendas de sangue e de veneno existe toda ordem de barbárie: exploração sexual de crianças, trabalho análogo ao escravo, safaris clandestinos, narcotráfico etc. Segundo a Agência Patrícia Galvão, estima-se que somente 10% dos casos de estupro sejam registrados. A subnotificação ocorre por vários fatores, dentre eles: os estupradores são homens conhecidos, o criminoso ameaça a vítima e sua família de morte, a vergonha de ter o corpo violado etc. Levando o percentual em conta, seria em torno de 822 a 1.370 estupros por dia no Brasil. Importante registrar que, após o Golpe de Estado que destituiu a Presidenta Dilma Roussef e preparou a tomada do poder pelo narcogoverno, pela bancada ruralista e pela bancada evangélica, a violência sexual contra mulheres e crianças aumentou vertiginosamente. A liberação de armas de fogo foi o estopim para o aumento de assassinatos e favoreceu o narcotráfico. Violências fomentadas pelo ex-presidente Jair Messias Bolsonaro. A relação de sua família com a morte de Marielle Franco ainda não foi esclarecida, muito embora alguns livros apontem a relação, como, por exemplo, Mataram Marielle: como o assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes escancarou o submundo do crime carioca, de Chico Otavio e Vera Araújo.

Voltando para as marchas, destaco a Marcha Internacional Mundo de Mulheres por Direitos realizada em Florianópolis, Santa Catarina. Entre os dias 30 de julho a 4 de agosto de 2017, aconteceu o 13º Congresso Mundo de Mulheres (MM) e o 11º Seminário Internacional Fazendo Gênero no campus da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A temática do evento foi “Transformações, Conexões, Deslocamentos”. O MM foi realizado pela primeira vez na América do Sul. No quarto dia de evento, aconteceu a marcha que reuniu mais de 10 mil pessoas no centro de Florianópolis reivindicando direitos. Havia gente de todos os cantos do mundo levando as suas bandeiras de luta, suas artes, cores e sons para as ruas da capital da Ilha da Magia. Ao final do percurso, houve uma roda de dança circular com mulheres indígenas, que ritualizaram o momento cantando, dançando e queimando incenso. Quero destacar que Marielle Franco estava marchando entre nós. Quem é da luta não foge da caminhada!

E, por fim, quero contar do encontro de duas grandes marchas de mulheres que aconteceu em 2019. Trata-se da 6ª Marcha das Margaridas e da 1ª Marcha das Mulheres Indígenas.  Do dia 9 a 13 de agosto, as mulheres indígenas reuniram diferentes povos em torno da temática: “Território: nosso corpo, nosso espírito”. E nos dias 13 e 14, a Marcha das Margaridas caminhou em luta e sororidade, reunindo as mulheres do campo, da floresta, das águas, as indígenas e as quilombolas. Seu tema foi “Margaridas na luta por um Brasil com Soberania Popular, Democracia, Justiça, Igualdade e Livre de Violência”. As ruas da capital federal foram tomadas por mais de 100 mil pessoas durante cerca de 4 quilômetros, houve uma concentração na Esplanada dos Ministérios com diversas atividades. A imagem que ilustra este texto é deste encontro sublime e marcante na história deste país.

Em 2023, a Marcha das Margaridas será realizada em Brasília nos dias 15 e 16 de agosto e terá como lema a reconstrução do Brasil. Estima-se que serão mais de 150 mil pessoas reivindicando e lutando por um país mais justo e igualitário, com redução da violência e alimento para todas as bocas. As mulheres caminham irmanadas há séculos em todos os rincões do planeta, buscando por justiça social, direitos e pela abolição do feminicídio, da pedofilia e do estupro. Espera-se que os homens cis/hétero evoluam e consigam entender que somos multidão e não vamos parar de andar na direção de um mundo melhor. Retomando a frase inicial de Célia Xakriabá, vamos mulherizar o Brasil com a nossa chegância honrando as nossas ancestrais. Respondendo à questão do título: marchamos pelas irmãs que lutaram por nós, marchamos pelas que lutam pela vida, pelas nossas vidas, marchamos pelas que virão.

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Patrícia Lessa – Feminista ecovegana, agricultora, mãe de pessoas não humanas, pesquisadora, educadora e escritora.

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Antropornografia na obra de Carol Adams

Antropornografia na obra de Carol Adams

Mesmo se estivermos famintas, não somos pobres de experiência.

Gloria Anzaldúa

Uma das mais importantes autoras que estuda a relação do sexismo e do especismo é a feminista vegana Carol Adams. Ela cunhou o termo “antropornografia”, que significa mostrar animais pedindo para serem comidos. As relações entre mulher e natureza têm raízes na filosofia humanista e recebe grande apoio das ciências modernas, principalmente da psicanálise. Ecofeministas como Bila Sorb, Vandana Shiva e Maria Mies apontam que existe uma íntima ligação entre o paradigma humanista e a cultura patriarcal, discussão também presente na obra de várias feministas, dentre elas de Donna Haraway. Essa ligação manifesta-se na obsessão pela dominação e controle tanto sobre as mulheres quanto sobre a natureza e todas as outras espécies.

Por especismo se entende a ideia de promover a espécie humana como superior a todas as outras e, além disso, deliberar sobre todas as outras. Incluindo o direito sobre a vida e a liberdade. É a ideologia que justifica a exploração de uma espécie sobre as demais. Essa terminologia é assim expressa nos Cadernos Antiespecismo (Les Cahiers Antispécistes: Rèflexion et action pour l´égalité animale), criados na década de 1990 na França:

O especismo é para a espécie o que o racismo e o sexismo são respectivamente para a raça e para o sexo: a vontade de não levar em conta (ou de levar menos em conta) os interesses de alguns para o benefício de outros, alegando diferenças reais ou imaginárias, mas sempre desprovidas de conexão lógica com aquilo que elas são consideradas. Na prática, o especismo é a ideologia que justifica e impõe a exploração e o uso dos animais pelos humanos com meios que não seriam aceitos se as vítimas fossem humanas.

Um dos marcos das mudanças em relação ao tratamento dado aos animais foi a promulgação da Declaração Universal de Direitos dos Animais pela UNESCO em 15 de outubro de 1978, em Paris. O patriarcado influenciou nossas ideias mais fundamentais sobre a natureza humana. Nessa relação as mulheres estariam mais próximas dos animais, por isso são, na nossa cultura, associadas a nomes como vaca, galinha, égua, potranca, cachorra.

Para Carol Adams, as pessoas que comem animais estão se beneficiando de um relacionamento dominante/subordinado. Nossa cultura encoraja a invisibilidade das estruturas físicas, permitindo assim uma completa negação da individualidade animal, até que isso não seja visto como subordinação. A carne é percebida como a razão ontológica para a existência dos animais, indica que eles existem para serem comidos. Para proposta ética de cuidado feminista, uma das coisas de que precisamos é questionar a ordem da racionalidade ocidental norteada por desdobramentos filosóficos e científicos misóginos. Por isso é necessário problematizar o tema nos quadros de uma epistemologia feminista, como propõe a bióloga e feminista vegana. Não vamos quebrar paradigmas usando teorias que negam e invisibilizam as mulheres e os animais, por isso trabalhamos com as teorias feministas contemporâneas. É preciso questionar a objetividade dos paradigmas dominantes que coisificam mulheres e animais.

Conforme Adams, a antropornografia é um dos alicerces do patriarcado. Assim é que para essa autora comer carne exercita as representações de dominação/subordinação. A carne é a reinscrição do poder masculino em cada refeição. Se carne é um símbolo de dominância masculina, então a presença da carne proclama o desempoderamento das mulheres. Na capa do seu livro As políticas sexuais da carne há uma ilustração que apareceu originalmente em uma toalha de praia em 1969, mostrando uma mulher dividida em cortes de “carne” como a imagem dos cortes da carne de vaca, onde se lia o subtítulo “Qual é o seu corte?”. Seu livro analisa imagens publicitárias em que os animais abatidos para o consumo humano são representados como “felizes” em sua condição de alimento para a espécie humana. Outras imagens de alimentos derivados de carne associam o corpo feminino como comida.

Outra importante estudiosa na área é Naama Harel, da Universidade de Israel. Segundo a autora, o mito de que os homens “necessitam” da proteína derivada da carne coloca-os à frente da problemática da exploração animal e das questões ambientais, como a devastação das florestas para a criação de gado.

Adams concorda que a fonte desse mito reside numa progressão da importância dada do papel do gênero masculino na produção de alimentos. Ambas concordam que, quanto mais uma sociedade dependia de recursos alimentares vegetarianos, mais efetiva era a importância do papel econômico das mulheres. Para ambas, a carne representa um poder simbólico. A caça sempre foi um problema comum entre os homens, tanto que ainda hoje é considerado um hobby para os homens endinheirados que pagam fortunas para os safáris de caça aos elefantes e outras espécies em vias de extinção. Por outro lado, a caça, também, representa a dominação dos homens sobre as mulheres.

Naama Harel argumenta que os homens falam, representam e tratam as mulheres como caça e assim realizam metaforicamente a dominação. A própria terminologia representa uma ordem hierarquizada, ordenada sequencialmente assim: homens, mulheres e, por último, animais. Nessa ordem, os homens assumem um duplo significado, como os membros da espécie humana e como os membros do gênero masculino. Enquanto categoria, ela é vista como oposta aos membros da espécie feminina e aos animais, colocando-os em aproximação. Assim: “(1) homens ≠ mulheres, (2) homens ≠ animais, (3) mulheres = animais”.

Ela nos indica algumas metáforas, o sexo não raras vezes é denominado de prazeres da carne, luxúrias da carne, fome sexual. Quando um homem procura uma mulher para uma noite, ele é visto como o caçador, sua arma é o falo, símbolo da masculinidade e da virilidade. Se a mulher se dá facilmente, então ela é a presa fácil. Por isso, muitos eventos em que o corpo feminino é destaque são nomeados de mercado de carnes, açougue. A antropornografia indica que mulheres e animais estão na base da economia que é movida pela indústria do sexo, pelo mercado de carnes e de corpos.

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Patrícia Lessa – Feminista ecovegana, agricultora, mãe de pessoas não humanas, pesquisadora, educadora e escritora.

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MANIFESTO FEMINISTA PELA VIDA

MANIFESTO FEMINISTA PELA VIDA

Em fevereiro de 2022, quando a guerra entre a Rússia e a Ucrânia começou, alguns grupos e feministas independentes fizeram circular a arte de Laura Árbol que retrata a imagem de um corpo de mulher cis, associada à origem da vida, e de um homem cis, associada à origem da guerra. A imagem nos remete aos famosos quadros A origem do mundo (1866)de Gustave Courbet e A origem da guerra (1989), da artista francesa Orlan. Ela expõe o desconforto das artistas contemporâneas que adentram o espaço do museu como objeto do olhar masculino e, vai além, utiliza o pênis como metáfora de arma de guerra. A imagem não é mera reprodução binária, mas faz alusão à materialidade dos corpos cis e suas conexões com a vida e a morte.

Quando a imagem circulou nas redes sociais, vimos uma avalanche de ataques antifeministas. Após um ano de guerra na Europa, é importante retomarmos a análise para pensar como estamos lidando com a escalada de violência e qual a relação entre a liberação de armas e o avanço do feminicídio, do estupro e do extermínio em massa.

Começo perguntando: por que defendermos as nossas vaginas e sermos opostas às guerras causa tanto desconforto? Qual a relação dos ataques virtuais ao conteúdo da imagem que circulou com relação à nova onda antifeminista? Devemos aceitar caladas, enquanto nossos corpos são açoitados? Mulheres cis e trans são mortas e violadas todos os dias no Brasil, no entanto ainda é mais chocante dizer que a vagina está associada à vida do que olhar os altos índices de feminicídio e de transfobia. É importante ressaltar que algumas mulheres trans, por opção ou falta de opção, não fazem a cirurgia de redesignação, mas, já são percebidas e vivenciam a experiência de ser mulher em um mundo misógino. Neste caso, podem ainda serem acusadas de recusa em adotar hábitos consolidados pela masculinidade tóxica.

Querem nos fazer acreditar que a continuidade da exploração da vagina e do útero como depósito de sêmen para gerar o filho do Homem cis não é um problema de gênero (homem em maiúsculo serve para identificar o homem como humanidade). O Homem da Revolução Francesa, que, via razão, pretendeu substituir Deus. Ele é o filho daqueles que nos queimaram em piras, enquanto gritavam histéricos: queimem no inferno bruxas! Indico o livro Ronda das Feiticeiras, da Norma Telles, para o estudo sobre um dos maiores extermínios de mulheres na história.

Para Carole Pateman o contrato sexual moderno garantiu ao patriarca a posse dos corpos das mulheres e das suas filha/o/s. Foi um negócio lucrativo para o patricapitalismo moderno a criação da família burguesa tradicional, garantindo ao patriarca uma mulher para copular, para trabalhar gratuitamente para ele dentro do lar sagrado e, ainda, gerar a/o/s filha/o/s “dele” para ele usar a seu serviço.

Enquanto a mãe ficava circunscrita ao reduto do lar, as prostitutas eram usadas por ele, que pagava por mais sexo. As solteironas eram encarceradas para todo o sempre nos hospitais psiquiátricos com aval da indústria médica e farmacoquímica, então nascente. Seus corpos serviram como cobaias para o patriarca brincar de cientista e inventar modos de gerar mais lucro, fundamentados na teoria de Hipócrates, que pensava existir uma suposta perturbação no útero que criaria um distúrbio cerebral.

No final do século XIX e início do XX, foi inventada a histeria, que seria um suposto distúrbio mental das mulheres causado pelo útero. O médico francês Jean-Martin Charcot transformou o Hospital Psiquiátrico Pitié-Salpêtrière no seu laboratório, as cobaias eram as mulheres que não obedeciam ao patriarca. Elas eram transformadas em histéricas, e, portanto, justificava o sequestro, a tortura, a prisão perpétua, os assassinatos em massa ou a medicalização forçada, para servir ao nascente mercado da indústria farmacoquímica.

Como as solteironas, as lésbicas foram catalogadas como doentes e também foram usadas como cobaias da ciência moderna. As lésbicas foram classificadas pelos juristas como criminosas. Afinal, é uma “aberração da natureza” não se curvar diante do altar do Santo Pênis. Por isso, o patriarca criou o estupro corretivo, já que o problema era que as lesbianas nunca foram “comidas” por um macho de verdade. O destino das lésbicas seria o estupro seguido do encarceramento na cadeia ou no hospício.

As mulheres trans ainda são acusadas de serem foragidas da masculinidade, da virilidade e, portanto, da supremacia masculinista, por conta disso são relegadas a toda sorte de discriminação, violência e perseguição. A transfobia é um desafio a ser enfrentado no Brasil, um dos países que mais mata e violenta as pessoas transexuais e travestis.

A imagem é bem clara, mas já que o desenho não foi compreendido pelas pessoas que defendem o Santo Pênis, pergunto: o pênis, simbolicamente, não é uma arma de guerra? Não é com ele que os homens estupram crianças, mulheres, pessoas não humanas (termo criado por Barbara Smuts)? Explico um pouco mais: o pênis como arma de guerra é uma metáfora que indica os usos para todos os tipos de violação aos corpos vulneráveis. Falo aqui do pênis e não do dildo ou dos similares criados pela indústria do sexo ou pela indústria médica.

A exploração patricapitalista da indústria médica e farmacoquímica das barrigas de aluguel, que rendem bilhões é outra criação do patriarca para serem os donos das crianças que foram geradas nos úteros. Teriam úteros e vaginas as pessoas que lucram nestes vários mercados de carnes e de corpos? No livro da escritora mexicana Patrícia Karina Vergara Sánchez Siwapajti (Medicina de mulher): Memória e teoria de mulheres, lançado no Brasil pela Editora Luas, a autora aborda a questão. A medicina viu nos corpos com útero mais um mercado fértil e transformou o processo de gestação em um negócio lucrativo, que rende milhões aos doutores e empresários.

O serviço doméstico não remunerado ainda é uma realidade para a massa das mulheres com útero e vagina. A diferença de salários entre homens e mulheres ainda é discrepante, muito embora a luta feminista anarquista, libertária, marxista, sufragista tenha começado a denunciar a desigualdade entre homens e mulheres no século XIX. Explico: não se usava o termo gênero naquele momento histórico.

Os postos de decisão, os cargos políticos, no judiciário e nas várias instituições ainda são ocupados majoritariamente por homens cis. Esses corpos cis com pênis, ao serem quem comanda a política, a polícia e o judiciário, aceitam com naturalidade que os corpos matáveis sejam, majoritariamente, os das mulheres – cis, trans, negras e indígenas no Brasil.

Os ataques aéreos, realizados pelas pessoas do agronegócio, que jogam veneno nas aldeias indígenas, nos povos quilombolas e ribeirinhos, são realizados por mulheres pilotando os aviões? Quem realiza às queimadas criminosas, o desmatamento das florestas brasileiras? De quem são as megafazendas que estão invadindo outras terras para ampliar seu capital? Muitas mortes estão sendo invisibilizadas nesse discurso antifeminista de luta pelo pênis. Não foi o Francis Bacon quem disse que a natureza e as mulheres deveriam ser dominadas, exploradas e torturadas? A modernidade foi construída reproduzindo o discurso de que as mulheres, as pessoas não europeias, não brancas e a natureza são selvagens que seriam controladas à luz da racionalidade do homem cis, branco, da elite.

Após a Revolução Francesa, em 1789, a elaboração da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão era uma forma de garantir direitos aos homens brancos europeus heterossexuais. Pessoas não brancas e que não nasciam com pênis não eram consideradas cidadãs dignas de terem direitos. Foi por entender que as mulheres deveriam ter direitos e serem consideradas cidadãs que Marie Gouze escreveu A Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã. A ousadia custou-lhe a vida, ela foi guilhotinada na praça da Concórdia, em Paris, no dia 3 de novembro de 1793. Mesmo usando o pseudônimo de Olympe de Gouges, ela não escapou ao destino de nascer em um corpo matável.

A palavra feminicídio foi uma longa batalha feminista para ser dicionarizada no mundo à fora e, mais ainda, no Brasil. Para ser contemplada pela legislação e o assassinato ser classificado como feminicídio, ainda estamos na luta, pois não basta a lei estar escrita se não for efetivada. Os números apontam o aumento de mortes, mas poucas vezes o crime é classificado como feminicídio.

Quando uma mulher cis estuprada é humilhada pelos doutores diante do tribunal e os criminosos são blindados por pertencerem a famílias de classe privilegiada e de pele branca e são transformados em vítimas, todas as pessoas que nasceram com útero e vagina são reafirmadas como corpos estupráveis. Muitos ainda insistem em dizer que homem cis equivale à humanidade. E assim, a voz das mulheres segue silenciada.

Quem criou a teoria queer foi uma feminista norte-americana. Teresa de Lauretis, nos anos 1990, ampliou o campo da Epistemologia Feminista para explicar o estranhamento e o impacto causado pela multiplicação de gênero favorecida pelos movimentos sociais na segunda década do século XX. Feministas como Oyèrónke Oyěwùmí e María Lugones escrevem que o binarismo de gênero é uma construção moderna criada para justificar o controle sobre os corpos das mulheres. Em algumas comunidades no continente Africano e em algumas tribos indígenas no continente Americano, havia outros gêneros para além daqueles criados pelo homem heterossexual, branco e europeu antes das invasões dos colonizadores. Eles aqui vieram com a missão de roubar terras, dizimar povos, e, como consequência, estupravam e escravizaram as mulheres cis não europeias que aqui viviam e as que foram sequestradas da África.

Estamos com a possibilidade de vivenciar a Terceira Guerra Mundial. As experiências do fascismo, do nazismo, do franquismo, das ditaduras impostas na América Latina não foram suficientes. Os donos do poder, os magnatas da indústria bélica querem mais sangue para aumentar o lucro. Mas, o perigo somos nós, as feministas. Novamente somos o alvo e os nossos discursos continuam sendo distorcidos para justificar o antifeminismo, a misoginia e a continuidade da exploração de nossos corpos.

Em tempos de guerra, mirar na cabeça das mulheres, que se orgulham e aprenderam a amar seus corpos, é mais uma violência. Sou uma feminista pacifista ecovegana, me tornei vegana por empatia às outras espécies, sou contra todo o tipo de violência, seja ela física, psicológica, moral, patrimonial, sexual. Portanto, nesta pequena reflexão sobre a imagem, quero dizer que a vagina e o útero nos permitiram estarmos aqui, independente do gênero, etnia ou classe social.

O pênis, no patricapitalismo, é usado como arma de guerra, tendo em vista que a indústria bélica e farmacoquímica foi uma invenção moderna, mesma época em que criaram o binarismo de gênero, hierarquizaram os gêneros, em masculino racional versus feminino sentimental. Todos os outros gêneros foram classificados como aberração. Esta foi uma invenção da ciência feita pelo homem heretossexual, branco, burguês e europeu. A epistemologia feminista se empenhou, desde o fim do século XIX e início do XX, na elaboração de uma crítica ao modelo científico moderno, comprometido com o capitalismo e com o industrialismo. As feministas criaram os Estudos de Gênero e a Teoria Queer para explicar que somos uma multidão complexa e não binária, a questão política deve ser sempre pensada na interseccionalidade de gênero, etnia-raça, classe e espécie.

Não foram as mulheres cis e trans que inventaram a pólvora, a bomba atômica, armas químicas, o canhão, os caças de guerra! Não foram mulheres que jogaram duas bombas atômicas no Japão! Não são as mulheres que lideram o ranking de estupros de crianças, de mulheres, de pessoas não humanas! Não são as mulheres que lideram o ranking do extermínio de mulheres (feminicídio), o extermínio de pessoas não brancas (racismo), o extermínio de pessoas LGBTI+!

Já tivemos duas Guerras Mundiais, duas pandemias, estamos vivendo o problema climático e vendo ele se agravar sobre os nossos lombos marcados pelo chicote do opressor. Mas, como dizia Paulo Freire, “o sonho do oprimido é virar opressor”. No altar do Santo Pênis, as armas de destruição em massa estão novamente nas telinhas, nas telonas e nas redes sociais para divertir as mentes sádicas e doutrinadas para se contentarem em confundir conhecimento com informação.

Enquanto isso, a indústria bélica e a indústria farmacoquímica avançam sem parar, dizimando as florestas na África, na América Latina, na Ásia, promovendo guerras e extermínios em massa para que a elite empresarial gere mais lucro para os poucos bilionários. Eles sobrevoam alegremente em suas naves, almejando a invasão de outros planetas para esgotarem outras fontes naturais e transformarem em royalties. Eles se escondem, covardemente, nas costas de sua guarda pretoriana contemporânea vestida de robocop-militar ou se acovardam escondidos em seus bunkers particulares.

Sou pacifista e não me curvo ao altar bélico do Santo Pênis! Como ecofeminista, luto para a cura planetária, independente da etnia-raça, classe, gênero ou espécie, sou contra o extermínio de pessoas promovido pelos homens brancos, cis, privilegiados. Pachamama está em chamas, queimando, fruto da ganancia promovida pelo patricapitalismo. Deveríamos nos preocupar coletivamente e trabalhar pelas soluções e redução dos danos da “emergência climática”, termo adotado desde 2019, inspirado nas proposições de Greta Thunberg.

A imagem não foi criada para atacar ninguém, pelo contrário, expõe um dos problemas da binarização de gênero, que é a guerra, a venda de armas a serviço dos narcogovernos, das disputas de territórios promovidas, majoritariamente, pelos homens cis. Não sou defensora do patriotismo e nem abordo aqui qual dos lados está certo ou errado, minha pátria é o Universo, assim aprendi com Maria Lacerda de Moura e com o anarquismo pacifista. Como a Epistemologia Feminista colaborou para a luta LGBTI+, para a criação das Teorias de Gênero e Queer e para a crítica da invenção moderna da divisão social binarizada, mas isso não bastou, as mulheres seguem sendo o alvo, mesmo diante da ameaça de uma Terceira Guerra Mundial. Por tudo isso, decido que a partir de hoje a minha identidade de gênero é feminista.

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Patrícia Lessa – Feminista ecovegana, agricultora, mãe de pessoas não humanas, pesquisadora, educadora e escritora.

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