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Patriotismo e patriarcado

Patriotismo e patriarcado

O assunto abordado em setembro não poderia ser outro. Em meio as comemorações dos 200 anos de independência do Brasil, o evento social nomeado de 28º Grito dos Excluídos questionou: independência para quem? A pergunta é pertinente se pensarmos na relação de miséria que assola o país. Enquanto uma multidão de pessoas passa fome, outras tantas lutam diariamente em busca de emprego; vemos educação e saúde abandonadas pelo poder público, as taxas de feminicídio e violência contra as mulheres nos colocam entre os países mais machistas do mundo; o presidente genocida, novamente, envergonha a nação, em mais um surto machista gritando nas atividades comemorativas ao dia 7 de setembro, em Brasília: “imbrochável”. Vale ressaltar que ele, até o momento, foi o único presidente do Brasil a usar dinheiro público e o espaço de atividades do governo federal para campanha partidária e para uso pessoal.

Nas vésperas da eleição presidencial, vemos o atual presidente reproduzir inverdades sobre a situação caótica brasileira, agravada em sua gestão. As comemorações do 7 de setembro no Brasil estiveram à altura do atual governo: queda de paraquedistas militares em São Paulo, furgão entalado na marquise do Palácio da Alvorada – residência oficial do presidente da República –, propagação de fake news, surto ultramachista do presidente diante das câmeras da imprensa internacional, ameaças à democracia e violação de direitos foram algumas das notícias que nos colocaram no centro das piadas e chacotas internacionais nesta data comemorativa nacional.

O bolsonarismo, baseado na relação de ódio às mulheres, às minorias, sobretudo, às pessoas racializadas e periféricas, ódio aos povos originários, é o baluarte do patriotismo atual. Os mais ardorosos discursos de amor à pátria brasileira destoam nas cenas de culto aos símbolos norte-americanos. Curvado aos pés dos presidentes dos Estados Unidos, do atual e do anterior, o governante do Brasil implora ajuda para se manter no poder e bate continência para a bandeira azul e vermelha dos imperialistas ianques. O “véio da Havan”, como ficou nacionalmente conhecido o proprietário dessa rede de lojas, que vende produtos da China comunista, mas se diz anticomunista, ergueu réplicas da Estátua da Liberdade, que é um dos símbolos dos Estados Unidos. Ele se diz patriota e é um dos fiéis escudeiros e apoiadores do Golpe que destituiu a Presidenta Dilma Rousseff.

O patriotismo e o patriarcado estão intimamente vinculados, tendo em vista a ideia de propriedade privada e, com ela, as suas pessoas trabalhadoras, incluindo mulheres, filhas e filhos. O patriarca representa a figura do homem que lidera a família, inclusive se beneficiando do trabalho gratuito realizado pelas mulheres para os trabalhos domésticos e de cuidados das crianças, dos animais domésticos e das pessoas idosas. Com base nas relações de poder e de propriedade, o patriarca defende os interesses do Estado garantindo assim os seus privilégios. Pátria, família e propriedade são os pilares que criaram e sustentam o capitalismo.

Na obra Siwapajti (Medicina de mujer) – Memoria y teoría de mujeres, de Patricia Karina Vergara Sánchez, que terá tradução no Brasil pela Editora Luas ainda este ano, a crítica ao patriarcado está conectada na formação da família moderna, pautada na monogamia e centrada no casamento indissolúvel, que é um dos legados cristãos. Uma das formas de consolidar a sociedade patriarcal foi a ruptura dos vínculos das mulheres, de suas tradições e de seus conhecimentos ancestrais compartilhados, que foram aos poucos sendo criminalizados e apropriados pelos homens das ciências, pela tradição religiosa hegemônica e pelo pátrio poder do Estado e do Direito.

As anarcofeministas foram, sem dívida, críticas ferrenhas ao patriarcado e ao patriotismo. Maria Lacerda de Moura vislumbrava transformações amplas visando não à mera conquista de certos direitos, mas a libertação total das mulheres, por isso investiu duramente contra as formas de autoritarismo expressas na família, na igreja e, sobretudo, no Estado fascista que se instalou, com suas ideologias nacionalistas e patrióticas. Sobre a questão declarou: “a minha pátria é o Universo”. Ela percebeu o patriotismo e o nacionalismo como práticas políticas militarizadas criadas para aliciar o magote humano posto a serviço do Estado.

Ela era uma pacifista e via no patriotismo uma forma de aliciar jovens para as guerras, de promover a venda de armamentos e alavancar a indústria bélica. Ela usava, em consonância com sua época, o termo “carne de canhão” para designar quem servia ao exército. Sobre isso questionou: “qual é a função do Estado senão aliciar escravos para as guerras, através do ídolo do patriotismo” (Maria Lacerda de Moura, Amai e… não vos multipliqueis, 1932, p. 135). Para ela, as mães, por amor aos seus filhos, deveriam tentar impedir o alistamento no exército.

A autora viveu entre as duas grandes guerras e fez guerra à guerra através de sua escrita corajosa e pontual. Ao final da Segunda Guerra Mundial, não existia um número exato de mortos, mas foram aproximadamente 85 milhões de pessoas, sendo que mais de 51 milhões eram civis. Dentre estes figuraram pessoas idosas, deficientes, crianças, mulheres, jovens, homens e um número incontável – pois, até o momento, invisibilizado pela historiografia – de pessoas não humanas. Além disso, sabemos que o estupro é uma das violências comuns em tempos de guerra.

Outras libertárias como Luce Fabbri e Emma Goldman também escreveram sobre o patriotismo. Para Luce Fabbri (O Caminho até o socialismo sem Estado, 2004, p. 64): “Toda nacionalização é, no fundo, uma militarização”. Emma concorda: “O patriotismo é um princípio que justifica a instrução de indivíduos que cometerão massacres em massa”, e continua: “Segundo a teoria do patriotismo, nosso globo seria dividido em pequenos territórios […]. Aqueles que têm a oportunidade de ter nascido em um território particular consideram-se mais virtuosos, mais nobres, maiores, mais inteligentes do que os que povoam os outros países. É, pois, o dever de todo o habitante desse território lutar, matar ou morrer para tentar impor sua superioridade a todos os outros” (Emma Goldman, O indivíduo, a sociedade e o Estado e outros ensaios, 2011, p. 60).

Se no início do século XX Maria Lacerda, Emma e Luce já anunciavam a relação perversa entre o patriotismo e a indústria bélica, hoje, com a militarização voltada à cena internacional, podemos ver o mundo em ruínas com a possibilidade de mais uma grande guerra financiada pela indústria bélica que hoje possui um arsenal físico e químico de destruição em massa. Um massacre perpetrado por séculos em nome da pátria, da família e da propriedade do patriarca.

É tempo de relembrarmos as vozes das anarcofeministas!

Escutemos Maria Lacerda de Moura:

[…] Gloria à Liberdade!

Não mais nos sirvamos de capatazes e escravos, lacaios do dominismo ou do servilismo da covardia do rebanho social.

A minha pátria é o meu coração.

A minha pátria é a minha Razão.

A minha pátria é o Universo.

(Maria Lacerda de Moura, Oração, 1932).

 

Após os versos e vozes do início do século XX, voltamos a pergunta inicial: independência para quem? A independência está intimamente ligada aos processos de libertação. Um país onde a educação, a alimentação, a saúde, a moradia, a terra e a dignidade são para poucas pessoas não pode se vangloriar com a independência. Que nestas eleições de 2022 o povo brasileiro consiga se desvencilhar da trupe de milicianos, golpistas e narcogovernantes que tomaram o poder à força em 2016 e, aos poucos, se reerguer da lama que afundou e continua afundando o Brasil.

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Patrícia Lessa – Feminista ecovegana, agricultora, mãe de pessoas não humanas, pesquisadora, educadora e escritora.

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