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Resenhas de Livros

Pelo direito de sonhar

Resenhista: Débora Araújo, graduanda em Letras pela UFMG e representante pelo DCE das Moradias Universitárias da UFMG.

Quando cunhou o termo escrevivência,[1] Conceição Evaristo queria dar luz a uma forma de escrita, a qual ela vai descrever como escrita de dentro, que tivesse um poder intrínseco em que o porta-voz do drama literário é também uma pessoa real que poderia estar no lugar daquele que é personagem na trama. Em uma entrevista, ela resgata de um de seus escritos uma frase extremamente marcante. Ela diz: “Escrever é uma forma de sangrar, e a vida é uma sangria desatada”.[2]

De muitos modos, foi em Conceição e na sua escrevivência que eu pensei ao passar meus olhos pela primeira vez por Memória jovem: livro de memórias da Moradia Universitária da UFMG:[3] um ambicioso projeto apresentado como trabalho de conclusão de curso pela graduanda em Letras e escritora Íris Ladislau, em 2019, e publicado em 2020 pela Editora Margem, uma editora independente da qual a autora também é uma das idealizadoras.

O livro é todo artesanal, com encadernação costurada, capa dura feita de papel cartão Horlle cinza (3mm), lombada de tecido tricoline e acabamento muito bem feito, em 262 páginas. A obra é composta por relatos colhidos pessoalmente pela própria autora, através de entrevistas, retratando vivências reais de pessoas reais que, como ela, fazem ou fizeram parte do programa de moradia da Universidade Federal de Minas Gerais, mais especificamente das Moradias Universitárias Ouro Preto, situadas em Belo Horizonte. O Programa Permanente de Moradia Universitária é um projeto da UFMG que, através da Fundação Mendes Pimentel (FUMP), possibilita que alunas e alunos de todo o país, que não têm condições financeiras de se manterem em Belo Horizonte, residam, gratuitamente, nos apartamentos que compõem os três complexos de prédios situados na Avenida Fleming, no bairro Ouro Preto. O escopo do programa é garantir o direito à educação e a permanência dos alunos na Universidade Federal.

Logo no primeiro capítulo do livro, Íris introduz, de maneira narrativa, o tema do livro e explica seus métodos. A escrita é literária a todo o momento, e ela explica a opção pela modalidade neoconfessional para o registro das narrativas dos entrevistados, o que, do ponto de vista da leitura, dá um tom mais dramático e fluido – difícil, em alguns momentos, não se revoltar com os relatos, não rir, não se compadecer. É uma leitura que desperta a sensibilidade dos leitores, e também por isso ela é tão rica e representa tanto em termos de importância social.

Claro que ainda rola aquele momento em que você tá numa roda com os seus amigos e você escuta umas coisas tipo “nossa, como assim você não conhece o Louvre?”, sabe? (…) E, assim… Você fica meio sem graça, você fala: “Então, é, não conheço, não tenho dinheiro pra ir, nunca saí do país, o mais longe que eu fui é o Rio de Janeiro”. (Memória jovem, p. 226).

São muitas as vozes que compõem esse livro. O jeito de falar dos entrevistados e os delicados comentários da autora vão dando tom às experiências trágicas e até revoltantes dessas pessoas. O leitor é convidado a uma profunda reflexão sobre privilégios, ao mesmo tempo em que, às vezes, se pergunta como é que esse tipo de vivência não é mais publicizada – ao menos não na mesma medida em que são veiculadas manchetes que se referem à universidade pública como “balbúrdia” e “gasto de dinheiro público”. Esse, definitivamente, é um livro que deveria ser de leitura obrigatória a todos os críticos das cotas e também do ensino público superior.

Especialmente por estarmos vivendo um momento de fortes tensões no tocante à luta por direitos e de ataques às universidades públicas, o livro vem para mostrar histórias muitas vezes negligenciadas no cotidiano (especialmente no atual contexto político): vidas que foram transformadas pela educação ‒ e não só pela educação ‒, mas também pela garantia do acesso e da permanência nas universidades a estudantes socioeconomicamente vulneráveis através de políticas públicas de assistência estudantil, neste caso em particular, o Plano Nacional de Assistência Estudantil (Pnaes). São histórias de pessoas cujo sonho de estudar em alguns momentos pareceu inalcançável ou impraticável, e que, hoje, ainda que com percalços pelo caminho, se concretiza ou mesmo já se concretizou.

Desde os movimentos de luta por moradia em meados dos anos de 1980, ainda sob o contexto da ditadura – e aqui cito a ocupação Borges da Costa, prédio da UFMG abandonado na época e que, até 1998, foi ocupado por estudantes pobres –,[4] até hoje, muita coisa mudou para os alunos da UFMG cujas vidas são marcadas por privações de diversos tipos e por dificuldades materiais. Essa luta não termina aqui, é claro. Como Memória jovem nos deixa saber de maneira emocionante, há muitas mentes brilhantes que apenas aguardam, nos lugares menos propícios deste país, uma oportunidade para mudarem o mundo – e também suas próprias realidades.

Memória Jovem é uma leitura dramática, que nos tensiona e compele a refletir, e que faz um convite à empatia e à união na luta pela garantia de direitos, para que a educação, enfim, seja um sonho que todos possam sonhar.

Você tem acesso ao livro aqui 

[1] EVARISTO, Conceição. Da grafia-desenho de minha mãe, um dos lugares de nascimento de minha escrita. In: Alexandre, Marcos A. (org.) Representações performáticas brasileiras: teorias, práticas e suas interfaces. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2017, p. 16-21.

[2] EVARISTO, Conceição. CONCEIÇÃO EVARISTO | Escrevivência. 2020. (23m17s). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=QXopKuvxevY >. Acesso em: 16 out. 2020.

[3] LADISLAU, Íris. Memória Jovem: livro de memórias da Moradia Universitária da UFMG. Belo Horizonte, MG: Margem, 2020.

[4] Conferir em: http://www.sjpmg.org.br/2016/10/coletivo-quer-resgatar-historia-da-ocupacao-estudantil-borges-da-costa/.

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Sexualidade e parto são uma coisa só

É inimaginável para a maioria das mulheres pensar nestas duas palavras juntas: PARIR e PRAZER. Por isso, mas não só (e falarei mais adiante por que), um livro com o título Pariremos com prazer é intrigante, audacioso e chama a nossa atenção. Este é o título do livro de Casilda Rodrigáñez – uma pesquisadora, escritora, bióloga e feminista espanhola -, traduzido pela primeira vez no Brasil e publicado pela Editora Luas, em fevereiro de 2020.

Este livro reúne três artigos da autora: o primeiro, e mais ampliado, tem como título o mesmo do livro; o segundo, de nome “Parto orgásmico – testemunho de mulher e explicação fisiológica”; e, por último, o terceiro, “Estender a teia – o parto é uma questão de poder”. Artigos relativamente pequenos (o livro todo tem 128 páginas), mas nem por isso incompletos, pelo contrário: trata-se de um livro cheio de informações, de dados de pesquisas sérias e importantes, de referências para a construção dos argumentos e reflexões em torno dos temas sexualidade feminina, patriarcado e sua cultura de dominação dos corpos e sexualidade das mulheres, resgate da conexão com o útero, a importância do orgasmo para o bom funcionamento do corpo, além de outros aspectos.

O início da reflexão de Casilda é o seguinte: todo órgão do corpo humano, em seu funcionamento normal, não produz dor, o coração bate todo segundo e não dói, o pulmão se movimenta com a inspiração e expiração e não produz dor, e assim segue com outros órgãos; quando manifesta uma dor, em todos os órgãos, é sinal de problema. Assim também é com o útero. Por isso, não deveríamos normalizar e suportar, como se fosse um castigo divino (Deus diz a Eva: “Parirás com dor”), as dores relacionadas ao útero: na menstruação, no ato sexual e no parto, principalmente. E mais: segundo a autora, que a experiência da mulher com este órgão, o útero, seja desconectada e dolorosa é proposital e necessária para a manutenção das estruturas de poder dentro da cultura patriarcal, cultura esta repressora, moralista, e, desde a infância, antivida.

Além disso, a autora traz o foco para algo até então não mencionado nas pesquisas sobre sexualidade, desenvolvidas principalmente por homens durante o século 19: o parto também é um momento da sexualidade da mulher. Isso porque a disposição hormonal, fisiológica do corpo da mulher quando ela está parindo é igual a quando ela está tendo um orgasmo, porém mais potencializado. Para comprovar, o livro traz gráficos, dados de pesquisas sobre a sexualidade e o funcionamento do corpo, e também sobre a atuação do corpo da mulher quando vai ter seu bebê. Por exemplo, o útero é um órgão muscular forte e flexível para suportar o peso do bebê e a gravidade, também para crescer junto com o feto; e a sua abertura, o colo do útero, que deve permanecer fechado durante a gravidez para que aquele feto esteja protegido, abre no processo do parto junto à liberação de hormônios, principalmente a ocitocina – os mesmos hormônios liberados para a concepção, num ato sexual, mas não só.

No livro a autora comenta também sobre as culturas pré-patriarcais, investigadas por estudos atuais da antropologia, em que as mulheres tinham outra relação com seus corpos, de extremo prazer, e isso era passado culturalmente umas às outras. Casilda demonstra como, ao longo da dominação patriarcal, as mulheres foram perdendo a sua conexão com seu corpo, seu útero, e as consequências disso são terríveis: úteros espasmódicos, úteros mal (ou até não) desenvolvidos, desconexão com o próprio desejo e com o prazer de ter um corpo, e a manutenção do patriarcado (que é, simplificadamente falando, a dominação total dos homens, inclusive dos corpos das mulheres, sob o princípio da violência, explícita e implícita).

Após trazer tantas informações, Casilda propõe ações para resgate da nossa conexão com o útero: 1. Através do orgasmo; 2. Buscando conhecer esse órgão, por meio de informações, estudos, experiências conscientes; e, por fim, 3. Mudando nossa relação com o útero, exaltando-o, nos aproximando mais de sua representação simbólica e rechaçando as simbologias culturais negativas em relação a ele.

Pariremos com prazer é um livro que, à medida que lemos, vamos nos conectando com essa sabedoria que há dentro de nós, pois temos a impressão de que sabemos de tudo o que ele traz, de tão honesta é a escrita e a pesquisa dessa autora, um livro que vamos lendo também com o nosso corpo: surge alegria, empolgação, revolta desejo… desejo de saber que corpo é esse que pode viver vibrando em prazer! Também promove a vontade de compartilhá-lo com todas as mulheres. Por isso mesmo, inclusive, é um livro cujo PDF foi disponibilizado gratuitamente pela editora, e o impresso segue a preço acessível (visite nossa loja). Toda mulher PRECISA ler este livro, e os homens interessados em repensar o modo machista e patriarcal que temos vivido até aqui, com certeza também se interessarão.

Pariremos com prazer

“Pariremos com prazer”

Casilda Rodrigáñez, publicado em fevereiro de 2020 pela Editora Luas Belo Horizonte/MG. Resenhista: Cecília Castro.
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