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Quem foi Nise da Silveira?

Quem foi Nise da Silveira?

 

O mês de junho da Coluna Pachamama será dedicado à médica Nise da Silveira, cujo reconhecimento internacional não bastou para que o atual presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, aceitasse a homenagem que seria prestada a ela. A médica foi indicada para constar no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria de 2022. Segundo o governante, seu veto foi devido ao fato de não haver um “registro dos feitos da médica”.

A médica não será homenageada, já o ex-policial, Adriano Magalhães da Nóbrega, ainda que seja um dos suspeitos no envolvimento do assassinato da vereadora Marielle Franco, recebeu uma moção de louvor, em 2003, e a Medalha Tiradentes, em 2005, por indicação de Flávio Bolsonaro. Adriano foi apontado como chefe de milícia no Rio das Pedras e acusado de liderar o Escritório do Crime. Ele foi executado em fevereiro de 2020 em um sítio na cidade de Esplanada, distante 170 km de Salvador. Foi morto em uma ação conjunta da Polícia Militar da Bahia e do setor de inteligência da Polícia Civil do Rio de Janeiro. O Brasil de Bolsonaro é um país onde criminosos recebem homenagens e lideranças políticas são apagadas dos registros históricos.

Então, quem foi Nise da Silveira? Nise nasceu em Maceió, estado de Alagoas, em 1905, filha da pianista Maria Lídia da Silveira e do matemático, jornalista e educador Faustino Magalhães da Silveira. Ainda na infância, ela foi matriculada no Colégio Santíssimo Sacramento, tradicional escola de freiras para meninas. Aos 16 anos, ingressou na Faculdade de Medicina, em Salvador, Bahia, local em que foi a única mulher de sua turma em meio aos 157 colegas homens. Entre 1921 e 1926, Nise cursou medicina e foi uma das primeiras mulheres a exercer a profissão no Brasil. Sua tese defendida ao final do curso, Ensaio sobre a criminalidade da mulher no Brasil (1926), buscava traçar um perfil das mulheres que cometiam crimes, assim fazendo emergir temas ainda vistos como tabu, tais como prostituição e aborto.

Sua experiência com o autoritarismo e a crueldade dos homens das ciências médicas foi relatada por ela em ocasião de uma aula prática, quando ainda era uma jovem estudante de medicina, que ela considerou seu primeiro encontro com “o mal”. O fato aconteceu durante uma aula de parasitologia no primeiro ano de medicina. O então famoso professor Pirajá da Silva, ao entrar na sala de aula lotada, lançou a ideia de criação de um serpentário na faculdade e pediu a colaboração de toda a turma, e, ao receber seu assistente trazendo um recipiente de vidro com uma serpente, retirou-a e pediu para a jovem Nise da Silveira segurá-la, garantindo que não era uma cobra venenosa. Ao segurar a serpente e encarar o autoritário professor, ela criou um novo elo entre sua capacidade de aprendizagem e as limitações das ciências médicas tradicionalistas e misóginas. Ocasião, dentre outras, que fortaleceu seu caráter e a fez romper as barreiras de acesso às mulheres tornando-se a psiquiatra mais conceituada no tratamento humanizado de transtornos mentais do Brasil no século XX. 

Nise casou com o médico sanitarista Mário Magalhães da Silveira, não tiveram filhos e viveram juntos até o falecimento dele em 1986. Em 1927 morreu o pai de Nise, sua mãe já havia falecido e, naquele ano, junto com seu marido, mudou-se para o Rio de Janeiro para atuarem no campo da medicina. Lá, em 1933, passou em um concurso público para o Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, iniciando assim o trabalho que a tornaria um exemplo de mudança na forma invasiva e autoritária de tratamento psiquiátrico adotado na época. Por discordar dos métodos praticados nas enfermarias e se recusar a aplicar eletrochoques em pacientes, Nise foi transferida para o cargo de “terapeuta ocupacional”, atividade então menosprezada pelos médicos.

No Rio de Janeiro, ela escreveu sobre medicina no jornal A Manhã, realizou estágio na clínica do Doutor Austregésilo, considerado precursor da neurologia no Brasil, e atuou no Hospital da Praia Vermelha. Entre os anos de 1928 e 1935, envolveu-se nas atividades da Liga Anti-Imperialista do Brasil, do Comitê Feminino Contra a Guerra, em Defesa da Paz Universal, da Cultura e da Humanidade e da União Feminina do Brasil.

Nise revolucionou o ambiente hostil e torturante dos centros psiquiátricos através da terapia assistida por animais e da arte como elemento terapêutico e preferia chamar as pessoas que atendia de “clientes” ao invés de “pacientes”. A psiquiatra se destacou em seus estudos sobre o comportamento humano e o tratamento de patologias psicológicas influenciados pelas ideias de Carl Gustav Jung (1875-1961) e pelo conceito de imaginação criadora de Gaston Bachelard (1884-1962). Revolucionou a maneira de tratar os portadores de sofrimento mental utilizando técnicas artísticas como pintura, escultura e desenho. A obra de Nise da Silveira foi marcada pelo debate sobre os laços afetivos entre pessoas e animais – por ela nomeados “animais não humanos”. Foi pioneira nas práticas de adotar as relações emocionais entre clientes e animais não humanos como parte do tratamento e foi forte opositora dos tratamentos tradicionais usados naquele período: eletrochoque, drogas, que ela nomeava de “camisa de força química”, e o confinamento clínico.

Nas décadas de 1950 e 1960, Nise investiu nas relações afetivas entre os animais não humanos e os/as clientes internos para criar um elo de comunicação que havia sido rompido graças aos modelos tradicionais. Ela percebeu a facilidade com que os/as esquizofrênicos/as se vinculavam aos cães. Em seu trabalho, desenvolveu o conceito de “afeto catalisador”. Ela partiu da ideia de que é importante que o paciente conte com a presença não invasiva de co-terapeuta (o animal não humano) que irá permanecer com o/a cliente e funcionará como um apoio seguro a partir do qual ele possa se organizar psiquicamente. Após ilustrar exemplos de co-terapeutas, Nise afirmou que os animais são excelentes catalisadores, pois reúnem qualidades que os fazem muito aptos a tornarem-se ponto de referência estável no mundo externo, facilitando a retomada de contato com a realidade.

A aproximação dos internos com os animais não humanos do Centro Psiquiátrico Pedro II começou por acaso quando foi encontrada uma cadelinha abandonada e faminta no terreno do hospital. Nise pegou-a, e, percebendo a atenção de um dos internos, perguntou-lhe se gostaria de tomar conta do bichinho “com muito cuidado”. Diante da resposta afirmativa, deu o nome à cachorrinha de Caralâmpia (inspirada em uma personagem do livro A terra dos meninos pelados, de Graciliano Ramos).

Em 1952, no Rio de Janeiro, Nise fundou o Museu do Inconsciente, um centro de estudo e pesquisa, criado para abrigar o acervo de obras e a preservação dos trabalhos produzidos nos ateliês inaugurados no Centro Psiquiátrico Pedro II, valorizando-os como documentos que abriram novas possibilidades para uma compreensão mais profunda do universo interior do/a esquizofrênico/a. Dentre os artistas-clientes que criaram obras incorporadas na coleção da instituição, estão: Adelina Gomes, Carlos Pertuis, Emygdio de Barros e Octávio Inácio. O acervo alimentou a escrita de seu livro Imagens do Inconsciente, bem como de filmes e exposições, como a Mostra Brasil 500 anos. O trabalho foi reunido no Museu de Imagens do Inconsciente que ganhou projeção internacional. Alguns dos quadros foram levados para o II Congresso Internacional de Psiquiatria, em 1957, na cidade suíça de Zurique. A exposição foi inaugurada pelo próprio Carl Gustav Jung, um dos maiores nomes no estudo da psique humana, que, na ocasião, encontrou a Nise.

Entre 1983 e 1985, o cineasta Leon Hirszman realizou o filme Imagens do Inconsciente, trilogia mostrando as obras realizadas pelos internos a partir de um roteiro criado por Nise da Silveira. Depois, foram feitos muitos outros filmes documentários e biográficos. Em 2016, foi lançado o longa metragem intitulado Nise: o coração da loucura, dirigido por Roberto Berliner. O filme destacou o período que Nise atuou no Hospital Psiquiátrico e foi resultado de 13 anos de pesquisa. No mesmo ano, o espetáculo Nise da Silveira: Guerreira da Paz narrou o encontro da médica alagoana e a obra de Carl Jung. A peça foi dirigida e interpretada por Daniel Lobo com a coreografia da renomada bailarina Ana Botafogo e ficou em cartaz no Museu de Arte de São Paulo (MASP) durante uma temporada de grande sucesso.

Nise viveu em uma época de acirramento da política totalitária no Brasil e, por isso, foi presa por mais de um ano, denunciada por manter, em sua biblioteca, livros considerados subversivos. No presídio, conviveu com o escritor Graciliano Ramos, que narrou essa amizade em seu livro Memórias do Cárcere. Nise da Silveira foi presa pela primeira vez dia 20 de fevereiro de 1936, mas logo em seguida foi liberada. No dia 26 de março de 1936, foi novamente encarcerada no presídio da rua Frei Caneca na cidade do Rio de Janeiro. Foi liberada só no ano seguinte, no dia 21 de junho de 1937. O caso foi relatado no livro Sala 4: primeira prisão política feminina, que registra o encontro das “irmãs de cela”: Olga Benário, Maria Werneck, Beatriz Ryff e Valentina Leite. Em 1944, Nise foi reintegrada ao serviço público e iniciou seu trabalho no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no Engenho de Dentro, onde retomou a sua luta contra as técnicas psiquiátricas que considerava agressivas e cruéis aos pacientes.

Em 2017, seu arquivo pessoal foi considerado Memória do Mundo pela UNESCO. O Centro Psiquiátrico Nacional do Rio de Janeiro recebeu em sua homenagem o nome de Instituto Municipal Nise da Silveira. Em 2015, foi incluída na lista das “Grandes mulheres que marcaram a história do Rio de Janeiro”. Seu legado é gigante e longínquo, suas ideias inspiraram a criação de museus educativos, centros culturais e instituições terapêuticas, no Brasil e no exterior – Museu Bispo do Rosário (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil), Centro de Estudos Nise da Silveira (Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil), Espaço Nise da Silveira (Recife, Pernambuco, Brasil), Núcleo de Atividades Expressivas Nise da Silveira, no Hospital Psiquiátrico São Pedro (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil), Associação de Convivência, Estudo e Pesquisa Nise da Silveira (Salvador, Bahia, Brasil), Centro de Estudo das Imagens do Inconsciente, Universidade do Porto (Porto, Portugal), Association Nise da Silveira: Images de l’Incoscient (Paris, França) e Museo Attivo dele Forme Inconsapevoli (Genova, Itália) – posteriormente renomeado Museoattivo Claudio Costa.

Nestas linhas, procurei elencar alguns dos grandes feitos da médica Nise da Silveira, que, segundo o atual governante do Brasil, não possui méritos suficientes para ser homenageada. Considero que ser homenageada por um presidente que faz apologia ao crime organizado, à tortura e à distribuição de armas entre civis pode até mesmo ser negativo para a obra da autora, já reconhecida internacionalmente, como vimos.

Fontes:

Itaú Cultural. Ocupação Nise da Silveira, São Paulo, 2017. Disponível em: file:///C:/Users/Patricia/Desktop/ocupacao_nise_da_silveira.pdf. Acesso em: jun. 2022.

LESSA, Patrícia. “Nise da Silveira”. In: Diccionario biográfico de las izquierdas latinoamericanas. Argentina, 2021. Disponível em: http://diccionario.cedinci.org. Acesso em: jun. 2022.

Museu de Imagens do Inconsciente. Disponível em: http://www.museuimagensdoinconsciente.org.br/#chegando. Acesso: jun. 2022.

RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1953.

SOIHET, Rachel. Mulheres e biografias: significados para a História. In: Locus, Revista de História, v. 9, n.1. p. 33-48, 2004.

WERNECK, Maria. Sala 4: primeira prisão política feminina. Rio de Janeiro: Editora CESAC, 1988.

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Patrícia Lessa – Feminista ecovegana, agricultora, mãe de pessoas não humanas, pesquisadora, educadora e escritora.

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Ainda hoje, Maria Lacerda de Moura nasceria fora de seu tempo…

Ainda hoje, Maria Lacerda de Moura nasceria fora de seu tempo…

No dia 16 de maio de 1887 nasceu Maria Lacerda de Moura, na fazenda Monte Alverne em Manhuaçu-MG. Ela foi pacifista, vegetariana, escritora, oradora, educadora e, sobretudo, uma mulher à frente do seu tempo. Ainda pequena, sua família mudou-se para Barbacena, onde ela cursou a Escola Normal e, desde então, atuou em diferentes frentes educacionais, no ensino formal e informal. Casou aos 17 anos de idade e, enfrentando todas as convenções, divorciou e não teve filhos naturais, mas adotou, em 1912, Jair, um sobrinho, e Carminda, uma órfã. Na mesma época, iniciou sua carreira de professora, trabalhou para a construção de um lactário e para a criação da Liga contra o Analfabetismo em Barbacena. Durante esse período, Maria Lacerda relata, em sua autobiografia, que enfrentou problemas na sua família quando começou a publicar crônicas em jornais da cidade – típica do interior mineiro –, onde começou a perceber e se rebelar contra variadas formas de opressão e preconceitos.

Ao redor do mundo, os neofascistas se levantam das tumbas reagrupando líderes populistas que encenam diante da mídia uma falsa oposição para alimentar a fogueira da guerra econômica e, novamente, ampliar a distância entre as famílias mais ricas e poderosas da multidão faminta e doente. Maria Lacerda, uma das vozes libertárias que fez frente no combate ao nazifascismo, no início do século XX, foi contra a guerra e alertou sobre os perigos da indústria armamentista. Ela foi uma pacifista que levou muito a sério o “não matarás”, inclusive para as pessoas não humanas. O vegetarianismo vinha crescendo, sobretudo nos grupos anarquistas, e, para ela, era uma forma de resistência ao modelo econômico predatório, sanguinário e destrutivo.

Meu encontro com Maria Lacerda de Moura não aconteceu por acaso, desde muito jovem me alimento da literatura anarcofeminista. Faço minhas as palavras da historiadora Margareth Rago: “Mesmo nos países em que a literatura feminista logrou maior esplendor, escritoras do porte de Maria Lacerda não abundam” (2007, p. 266). Concordo com a autora, pois acredito que o pioneirismo da libertária brasileira esteja muito além do que os estudos mostraram, mesmo depois do aniversário de um século de sua primeira obra.

Em 2012 estive no Encontro Nacional de Direitos dos Animais, no Parque Ecológico Visão do Futuro, em Porangaba-SP, e, através da palestra do Promotor de direitos dos animais, Laerte Levai, tomei conhecimento de que as lutas da escritora eram também pela libertação animal. Veganistas e ecologistas hoje estão recuperando a trajetória de pessoas que foram pioneiras nas frentes de batalha pelo meio ambiente e pelas pessoas não humanas. Desde o momento de descoberta das conexões entre pensamentos libertário, feminista e a luta em defesa das pessoas não humanas, eu venho lendo e escrevendo sobre a obra de Maria Lacerda de Moura, que, em 2020, culminou no meu primeiro livro sobre ela, Amor & Libertação em Maria Lacerda de Moura, em que abordo a questão, sobretudo seus escritos sobre antivivissecção e vegetarianismo.

O termo que utilizo, “pessoa não humana”, foi cunhado pela primatóloga Barbara Smuts. O dicionário Michaelis online considera o termo “pessoa” como “criatura humana”, um “ser eminente ou importante”, com “caráter peculiar que dá distinção a alguém”. E vai além, diz que, na narrativa cristã, ser uma pessoa significa estar consciente de sua liberdade e responsabilidade, que são determinadas pela dimensão moral e espiritual. Já a gramática indica alguém que participa de um discurso. Por isso, entendo que utilizar “pessoa” para os animais não humanos significa transgredir um discurso criado pelo humano especista, que desconsidera todas as outras formas de vida, ou considera inferior, portanto passível de exploração.

Provavelmente Maria Lacerda tenha sido a primeira pessoa no Brasil a adentrar profundamente nos temas referentes à defesa das pessoas não humanas e a relação destas com a má distribuição de terras e a produção de alimentos em escala industrial. Ela escreveu, em 1932 (p. 233), sobre o tema: “No dia em que a mulher se dispuser a libertar-se do jugo do estômago civilizado, passar a comer frutas e legumes, a apagar o fogo doméstico que é o fogo eterno do inferno feminino na sua escravidão ao estômago do homem – nesse dia ela recomeçará a sua autoeducação física e mental e iniciará a sua verdadeira libertação humana”.

A ciência e a tecnologia deveriam ter utilidade e proporcionar bem-estar social, em uma sociedade utópica, onde a propriedade coletiva dos meios de produção e a emancipação feminina prevalecesse, e o abandono das cidades, considerado um locus para a aplicação da ciência e da tecnologia, fosse seguido por uma integração orgânica com a natureza através do trabalho rural coletivo, eis a proposta de Maria Lacerda de Moura. A ideia de “estômago civilizado” é uma severa crítica ao modelo alimentar burguês centrado na carne e nos alimentos industrializados. Ela foi pioneira ao criticar o modelo industrial na produção de alimentos e as consequências devastadoras para as famílias de pequenas propriedades rurais. Os textos libertários de Maria Lacerda de Moura são narrativas de resistência feminista e libertária, são repletos de deslocamentos e ressignificações utópicas escritos em um momento de profunda transformação socioeconômica e estão em diálogo com um pensamento anarquista internacional que questiona a ideia de progresso prometido no processo de constituição e difusão massificada da ciência e da tecnologia.

Ela foi muito além dos seus direitos. Como mulher e como humana, ela lutou pela libertação das pessoas dos grilhões que as acorrentaram ao Estado, ao clero e às tradições. Mas, ela foi além, provavelmente, tenha sido a primeira mulher no Brasil a escrever e lutar pela libertação animal, pela libertação de Gaia ou Pachamama, nossa Mãe Terra das culturas e cultos andinos. Em muitos de seus escritos a luta antivivisseccionista soma-se ao vegetarianismo e ao trabalho na terra para produção de alimentos livres de veneno e da indústria. Nas palavras dela: “Se ninguém plantasse senão o estritamente necessário para si e para os seus filhos menores, para os velhos e para as mães e as crianças e os inválidos da sua família, ao mesmo tempo praticando o auxílio mútuo, – não se formariam ‘trusts’ de café, de açúcar, de algodão, de arroz, de trigo, de mate, de todos os gêneros de primeira necessidade, para fortuna dos reis da agricultura industrializada – que não plantam e enriquecem à custa do suor dos que plantam” (2020 [1931], p. 34).

Seus escritos sobre a crítica à agricultura industrializada e sua proposta de vegetarianismo avolumou-se depois de sua experiência em uma comunidade rural autogestionária. Em 1926 ela conheceu André Néblind, um francês desertor da Primeira Guerra Mundial, e, em 1928, ela vai viver com ele em uma comunidade agrícola em Guararema, interior de São Paulo. Vivendo na comunidade libertária, já divorciada, ela iniciou uma nova fase em sua vida, marcada por encontros com outras pessoas que compartilhavam os ideais anarquistas, revolucionários e pacifistas.

As abordagens sobre a exploração das pessoas não humanas tomam variadas formas na obra da autora mineira, são elas: a crítica à ciência e à vivissecção, a crítica à indústria da carne, à instrumentalização dos corpos humanos e não humanos e a proposta de uma alimentação vegetariana. Entre final do século XIX e início do século XX, é possível encontrar inúmeras mulheres escritoras feministas e abolicionistas que escreveram sobre o tópico: Annie Besant, Clara Barton, Matilda Joslyn Gage, Elizabeth Cady, Lou Andreas-Salomé, Alice Park, Agnes Ryan dentre outras. Maria Lacerda fez eco às mulheres de sua época e foi uma voz insurgente pelas pessoas não humanas.

Há ampla evidência de uma ligação clara entre a natureza dos experimentos com animais e da forma de opressão a que as mulheres da era vitoriana foram submetidas. A opressão feminina naquela época incluía as ideias de fragilidade e de propriedade. Os animais e as mulheres eram vistos como propriedade e sem os direitos que derivam de possuir a propriedade; é possível, assim, fazer comparação entre os dispositivos cirúrgicos utilizados em animais e o tratamento médico das mulheres, incluindo o parto e os costumeiros exames ginecológicos.

É possível analisar a visão de Maria Lacerda sobre a ciência e a tecnologia, como descrito na obra Civilização: tronco de escravos, sobretudo, no capítulo intitulado “A ciência a serviço da degenerescência humana”, em que a autora critica o modelo de apropriação do conhecimento científico e tecnológico do capitalismo. Seguindo a tradição anarquista, ela percebe a ciência e a tecnologia como potencialmente emancipadoras. Ela denuncia essa produção de conhecimento como “pervertida e prostituída”, já que “o capitalismo industrializado assume todo esse esforço científico, mesmo enquanto ainda é um embrião, de tal maneira que a energia humana é canalizada para uma única direção: a luta para a competição, a concorrência econômica, o poder econômico bélico, o nacionalismo e, fruto dos anteriores, a guerra” (2020 [1931], p. 10).

Ela buscou a paz mesmo em um momento de guerras e, depois de sua morte silenciosa, um texto anônimo publicado em São Paulo, em 1945, deixou-nos uma pista sobre a magnitude de sua busca: “Um dia, desgostosa da multidão, retirou-se para Guararema e lá viveu num rancho, à beira da estrada. Mais tarde, lá mesmo, não encontrou a paz que desejava e retirou-se para o Rio de Janeiro, fixando-se num daqueles subúrbios que parecem a mil quilômetros do mundo. Estudava, como sempre. E o seu estudo foi tão profundo que ela acabou por perder contato com os homens. Penetrou pela porta estreita da metafísica, libertou-se, alcançou climas tão altos e tão diferentes que quando ela falava os homens do quarteirão sorriam” (1945, p. 6).

 Maria Lacerda faleceu no dia 20 de março de 1945, na cidade do Rio de Janeiro, aos 57 anos. Teve uma vida curta, mas muito intensa, que precisa ser lembrada, contada, reverberada. Sua experiência em Guararema pode nos dizer muito sobre a necessidade de economias solidárias, sobre o vegetarianismo e a ética com relação às outras espécies, sobre as comunidades libertárias, a vida no campo, o meio ambiente, a produção e o consumo de alimentos orgânicos, sobretudo nestes tempos de envenenamento dos nossos corpos, do nosso solo, das nossas águas e, por que não dizer, da vida planetária. Seus diversos escritos estão espalhados por aí em jornais, livros, livretos, revistas etc. à espera de outros diálogos. 

Pachamama está em chamas e os sinais da catástrofe já foram denunciados por ecofeministas, ambientalistas e ecologistas. A pandemia e todas as outras doenças criadas nos grandes cativeiros de dólar e de sangue da indústria da carne são consequências da exploração capitalista e patriarcal. Os “estômagos civilizados”, como dizia Maria Lacerda de Moura, são os estômagos que ardem pelo peso de uma alimentação industrial, regada a veneno, com o dissabor dos transgênicos, dos alimentos ultraprocessados e, sobretudo, com o peso da carne de outra pessoa, que, como nós, humanos, nasceu para viver livremente.

O respeito às pessoas não humanas pode ser o início de uma transformação na vida planetária, na relação humanidade-animalidade-plantas, para avançarmos em direção aos modos de existência mais afetivos e criativos. A empatia e o amor interespécie significa pensar que as outras formas de vidas importam, que nos modificam e que criam novas formas de convívio.

Lutemos pela libertação humana, não humana e planetária como queria Maria Lacerda de Moura!

 Sugestão de leituras:

LESSA, Patrícia. Amor & Libertação em Maria Lacerda de Moura. São Paulo: Entremares, 2020.

MOURA, Maria Lacerda [1931]. Civilização, tronco de escravos. 2. ed. LESSA, Patrícia; MAIA, Cláudia (org.). São Paulo: Entremares, 2020.

MOURA, Maria Lacerda. Amai e… não vos multipliqueis. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1932.

RAGO, Margareth. Ética, Anarquia e Revolução em Maria Lacerda de Moura. In: REIS, Daniel Aarão; FERREIRA, José (org). As esquerdas no Brasil, v.1, A formação das Tradições, 1889-1945. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, p. 262-293.

UMA ESCRITORA. Notícias diversas, O Estado de São Paulo, n. 23, a. 165, p. 6, 29 mar. 1945.


Patrícia Lessa – Feminista ecovegana, agricultora, mãe de pessoas não humanas, pesquisadora, educadora e escritora.

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Mulheres fortes e mulheres de força: para não esquecer de Sandwina

Mulheres fortes e mulheres de força: para não esquecer de Sandwina

Ao longo da história, as mulheres reivindicaram os seus direitos e foram, pouco a pouco, criando espaços, deixando suas marcas e derrubando muros para que outras pudessem avançar. No campo dos esportes não poderia ser diferente. Sou formada em Educação Física e, ainda na graduação, atuei como árbitra na Liga Pelotense de Futsal, depois de realizar o curso e prestar a seleção teórico-prática, em 1990. Foi uma época em que havia poucas mulheres na arbitragem do futebol e, sobretudo, havia muito preconceito. Recordo-me de uma partida em que atuei arbitrando o final de uma competição no ginásio de esportes do Colégio Municipal Pelotense. O jogo estava empatado, havia decidido junto à equipe de arbitragem que seria necessário fazer uma prorrogação. Na prorrogação, um dos times fez o gol que lhe daria a vitória. Foi um estrondo! As torcidas se alvoroçaram e digladiaram-se. Naquele momento, escutei todo tipo de insulto comumente dirigido às mulheres. Um deles foi que “o lugar de mulher é na cozinha”. Buenas! Confesso que sempre gostei de cozinha e não tenho nada contra ser associada ao trabalho neste local, o problema é achar que nosso local ainda está circunscrito ao reduto do lar. Enfim, permaneci mais algum tempo no trabalho de arbitragem e me envolvi em muitos esportes que, historicamente, foram considerados impróprios para as mulheres.

Muitas práticas desportivas foram e ainda são interditadas às mulheres em diferentes geografias. A invenção científica da “vulnerabilidade biológica” e da “fragilidade inata” deixou as mulheres de fora de muitos eventos desportivos. Fragilidade, vulnerabilidade e passividade são características totalmente desfavoráveis às exigências da performance atlética, em que tanto as mulheres quanto os homens devem extrapolar suas capacidades físicas. Os esportes são repletos de hierarquias, de processos longos e nem sempre justos, quando pensamos em esportes competitivos ou em esporte espetáculo, que exige disciplina, mas também, às vezes, alguns requisitos sociais para além da performance.

O futebol feminino no Brasil está repleto de histórias bizarras, como foi o caso do Saad (clube de futebol feminino de São Paulo) que nos anos 1990 exigia beleza e feminilidade das atletas. Em 1996, o Brasil fez sua estreia olímpica no Futebol Feminino, o que repercutiu um jogo de marketing nada coerente com os atributos exigidos pelo esporte. Alguns clubes como Fluminense, Grêmio e Corinthians seguiram as recomendações do projeto de marketing do Saad, o qual dizia que, além de competência técnica, era necessário ter beleza para entrar em campo. O critério era totalmente generizado, pois jamais seria exigido o mesmo dos homens que participavam de equipes de futebol. Deles, espera-se performance, resultado, independentemente de sua beleza ou do seu caráter, haja vista o número de atletas envolvidos em crimes tais como tráfico, estupro, falsidade ideológica e outros, mesmo assim eles seguem sendo ídolos depois de o caso ser “abafado”. Além disso, beleza é um critério totalmente frágil, pois a aparência é julgada de acordo com normas geralmente sexistas, classistas, racistas do senso comum. Uma mulher negra e lésbica passaria no crivo deste julgamento? Pois bem, as mulheres negras e lésbicas levaram o nome da seleção brasileira de futebol para todos os cantos do mundo: Marta, Formiga, Cristiane são alguns deste nomes que não podem cair no esquecimento.

Nos primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna, as mulheres não podiam competir. Sua inserção nas competições internacionais foi acontecendo de maneira gradativa, e ainda mais lenta naqueles esportes que eram socialmente considerados masculinos, tais como: as lutas, o halterofilismo, o fisiculturismo, o futebol, dentre outros. Em todas essas modalidades, entretanto, o tempo mostrou competência e talentos reconhecidos. Hoje o fisiculturismo feminino escreve sua história através da resistência que as bodybuilders empreendem em nome do esporte, crescendo gradativamente, mesmo sem incentivo financeiro e com alta carga de preconceito em relação aos corpos fortes e à musculatura delineada nas mulheres.

O fisiculturismo é um dos esportes em que as mulheres encontraram forte resistência – também as praticantes de esportes como ciclismo, halterofilismo, futebol e lutas de todo gênero carregaram o estigma de praticarem “esportes masculinos”. Em 14 de abril de 1941, o Conselho Nacional de Desportos (CND), então vigente naquele período, no Brasil, criou o Decreto Lei nº 3.199, o qual, no artigo nº 54, constava que as mulheres não poderiam praticar esportes “incompatíveis com sua natureza”. Em 1965, com a deliberação nº 7, definiram-se regras para a participação das mulheres nos esportes, não sendo permitida a elas a prática do futebol, do futsal, do futebol de praia, do polo, do halterofilismo, do baseball e das lutas de qualquer natureza. Foi somente em 1979, com a deliberação nº 10, que o decreto foi revogado. Apesar disso, é importante ressaltar que, mesmo com a lei vigorando, as mulheres participavam de treinamentos e de competições regionais, muito embora os longos períodos ditatoriais brasileiros tenham imposto regras que fomentavam um ideal de feminilidade baseado na fragilidade, docilidade e submissão das mulheres. As atletas escapavam como podiam e praticavam esportes, apesar de a lei impedir competições nacionais naquelas modalidades supracitadas.

No universo dos esportes, como em outras esferas sociais, os avanços são, muitas vezes, intercalados com retrocessos, como é o exemplo das competições femininas de musculação, que, depois de um longo tempo de evolução, as mulheres receberam um boicote: uma importante federação internacional divulgou que atletas de todas as categorias “devem reduzir a sua massa muscular em 20% do estágio individual atual”, com o argumento de perda da feminilidade. A musculação foi um dos esportes em que houve uma grande resistência quanto à participação das mulheres. Só muito tempo depois dos homens que elas puderam ser inseridas em campeonatos de halterofilismo e fisiculturismo. Além disso, a utilização da musculação nos programas de treinamento das atletas também se deu mais tarde, em função da crença de que as mulheres eram incapazes de realizar atividades que exigissem grande força física.

Uma clara distinção entre os gêneros é feita, e, nessa diferença, as mulheres levam a pior: falta de investimentos, de campeonatos e de patrocínios são alguns exemplos da desigualdade de gênero nos esportes. O exemplo do Miss Olímpia de 1987, realizado pela International Federation of Bodybuilding and Fitness (IFBB), nos Estados Unidos, é paradigmático. Cory Everson mais uma vez sagrou-se campeã e levou o prêmio de US$ 25.000. Naquele mesmo ano, Lee Haney ganhou o prêmio de US$ 55.000 pelo primeiro lugar. O prêmio masculino foi mais que o dobro do valor dado à Cory, porém o trabalho, o desgaste, os investimentos não podiam ser computados dessa forma, pois ambos fizeram um esforço heroico para chegarem ao pódio da competição de fisiculturismo mais prestigiada na segunda metade do século XX.

Muito antes de Cory Everson nascer, havia uma mulher que atravessou o oceano e rompeu as barreiras de gênero. Trata-se de Katie Brumbach. Ela nasceu em Viena, na Áustria, no dia 6 de maio de 1884, e faleceu no dia 21 de janeiro de 1952, em Nova Iorque, nos Estados Unidos. Em Viena, ela era a estrela de um espetáculo no qual desafiava homens e mulheres em um ringue. Ela era filha do casal de artes circenses Johanna e Philippe Brumbach. Desde jovem, Katie atuou com a família, e, em uma de suas exibições, seu pai oferecia um valor em dinheiro para qualquer homem da plateia que fosse capaz de derrotá-la em um combate de força conhecido como wrestling. Nos registros históricos, nota-se que nenhum homem conseguiu derrubar a jovem Katie.

Em 1910, ela media 1,82cm de altura, pesava quase 100 kg e exibia um bíceps de mais de 40 cm de diâmetro. Apresentava-se como a mulher mais forte do mundo e fez exibições em vários países na Europa e no continente americano, local para onde se transferiu, definitivamente, na década de 1920. Foi em 1902, nos Estados Unidos, que vivenciou a experiência que lhe conferiu uma mudança radical: em um pequeno clube atlético de Nova York, ela participou de um desafio de força com Eugene Sandow no qual sagrou-se vencedora ao levantar 130 kg acima de sua cabeça, enquanto o conhecido fisiculturista não conseguiu erguê-la além da altura do peito. O nome Sandwina passou a circular ao redor do mundo desde aquele dia.  Após a vitória, ela adotou o nome artístico Sandwina, tendo em vista a importância de Sandow no cenário internacional dos esportes de força.

Sandwina trabalhou durante anos, nos Estados Unidos, com o Ringling Bros e Barnum & Bailey Circus, até quase os 60 anos de idade. Apresentava-se realizando feitos como: dobrar barras de aço, levantar três ou mais homens com a força dos braços, resistir à tração de cavalos, realizar levantamento de peso com mais de 100 kg acima da cabeça. Seu recorde no levantamento de peso foi de 296 lb (libras), equivalente a 129 kg, e foi superado somente em 1987 por Karyn Marshall. Sobre a Sandwina, é possível ver um filme disponibilizado no YouTube:  https://www.youtube.com/watch?v=NP7m5JQKkMc.

Escrevi sobre a Sandwina em artigos acadêmicos e no meu livro sobre musculação intitulado Mestre Puma e Larissa Cunha: na história da musculação competitiva, publicado pela Appris em 2020. Porém, nas revistas comerciais para as quais eu escrevi, sempre foi retirada a parte do texto em que diz que Sandwina venceu Eugene Sandow. A censura, neste caso, é uma das formas de apagamento de nossas memórias, por isso fiz questão de retomar aqui, na Coluna Pachamama, a história de Sandwina e alguns aspectos da história das mulheres nos esportes. Embora a história seja sempre marcada por indícios do que se passou, sabemos que, quando se trata da história das mulheres, muitas vezes, os acontecimentos são mitificados e transformados em lendas, causos e ficção. 

Independente de você ser contra ou a favor do esporte competitivo ou do esporte espetáculo, é importante observar as marcas de gênero impressas em diferentes modalidades ao longo da história. Portanto, convido você a ler sobre a história das mulheres nos esportes e tenho certeza de que perceberá surpreendente pluralidade e diversidade de lutas que as mulheres enfrentaram em diferentes temporalidades e geografias. Contornando as marcações de gênero, as atletas imprimiram uma marca de força e de resiliência em todas as modalidades desportivas.   

As imagens de Sandwina foram retiradas do livro de Josef Švub, Historie síly, publicado na República Tcheca pela editora Svet Kulturistiky em 1997.

Outras histórias de mulheres nos esportes de força podem ser encontradas em meu artigo, escrito junto com Iasmim Santos, publicado em: http://www.crc.uem.br/departamento-de-pedagogia-dpd/koan-revista-de-educacao-e-complexidade/edicao-n-5-dez-2017/edicao-n-5-dez-2017/as-strongwomen-da-belle-epoque-e-a-quebra-do-mito-da-fragilidade-inata.


Patrícia Lessa Feminista ecovegana, agricultora, mãe de pessoas não humanas, pesquisadora, educadora e escritora.

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No altar do Santo Pênis: fuzis, caças e armas químicas

No altar do Santo Pênis: fuzis, caças e armas químicas

Em resposta aos ataques antifeministas que nós, feministas, estamos sofrendo nas redes sociais, por termos divulgado a imagem acima, que contém uma vagina e um pênis associados à origem da vida e à origem da guerra, respectivamente, é que escrevo este manifesto feminista. Começo perguntando: por que somos acusadas de transfobia ao defendermos as nossas vaginas e sermos opostas às guerras? Qual a relação dos ataques virtuais e das calúnias com relação à nova onda antifeminista? Devemos aceitar caladas, enquanto nossas corpas seguem sendo açoitadas?

Querem nos fazer acreditar que a continuidade da exploração da vagina e do útero como depósito de sêmen para gerar o filho do Homem não é um problema de gênero (homem em maiúsculo serve para identificar o homem como humanidade. O Homem da Revolução Francesa, que via razão e pretendeu substituir Deus. Ele é o filho daqueles que nos queimaram em piras, enquanto gritavam histéricos: “queimem no inferno, bruxas!” Indico o livro Ronda das Feiticeiras, da Norma Telles, publicado pela Editora Luas, para o estudo sobre o maior extermínio de mulheres na história).

O contrato sexual moderno (Carole Pateman) garantiu ao patriarca a posse das corpas das mulheres e das suas filha/e/o/s. Foi um negócio lucrativo para o patricapitalismo moderno a criação da família burguesa tradicional, garantindo ao patriarca uma mulher para copular, para trabalhar gratuitamente para ele dentro do lar sagrado e, ainda, gerar os filhos “dele” para ele usar a seu serviço.

Enquanto a mãe ficava circunscrita ao reduto do lar, as prostitutas eram usadas por ele, que pagava por mais sexo. As solteironas eram encarceradas para todo o sempre nos hospitais psiquiátricos com aval da indústria médica e farmacoquímica, então nascente. Suas corpas serviram como cobaias para o patriarca brincar de cientista e inventar modos de gerar mais lucro, fundamentados na teoria de Hipócrates, que pensava existir uma suposta perturbação no útero que criaria um distúrbio cerebral.

No final do século XIX e início do XX, foi inventada a histeria, que seria um suposto distúrbio mental das mulheres causado pelo útero. O médico francês Jean-Martin Charcot transformou o Hospital Psiquiátrico Pitié-Salpêtrière no seu laboratório, as cobaias eram as mulheres que não obedeciam ao patriarca. Elas eram transformadas em histéricas e, portanto, justificava o sequestro, a tortura, a prisão perpétua, os assassinatos em massa e a medicalização forçada, para servir ao nascente mercado da indústria farmacoquímica.

Como as solteironas, as lésbicas foram catalogadas como doentes e, também, foram usadas como cobaias da ciência moderna. As lésbicas foram classificadas pelos juristas como criminosas. Afinal é uma “aberração da natureza” não se curvar diante do altar do Santo Pênis. Por isso, o patriarca criou o estupro corretivo: o problema é que as lesbianas nunca foram comidas por um macho de verdade. O destino das lésbicas era o estupro seguido do encarceramento na cadeia ou no hospício.

A imagem divulgada é bem clara, mas já que o desenho não foi compreendido pelas pessoas que defendem o Santo Pênis, pergunto: o pênis, simbolicamente, não é uma arma de guerra? Não é com ele que os homens estupram crianças, mulheres, pessoas não humanas (termo criado por Barbara Smuts)? Explico um pouco mais: o pênis como arma de guerra é uma metáfora que indica os usos para todos os tipos de violação às corpas das mulheres com útero. Falo aqui do pênis e não do dildo ou dos similares criados pela indústria do sexo ou pela indústria médica.

A exploração patricapitalista da indústria médica e farmacoquímica das barrigas de aluguel, que rendem bilhões, é outra criação do patriarca para serem os donos das crianças que foram geradas nos úteros. Teriam úteros e vaginas as pessoas que lucram nestes vários mercados de carnes e de corpos? É importante acompanhar o caso das mulheres da Ucrânia, que agora estão aparecendo na mídia internacional por conta do início da guerra contra a Rússia. No livro da escritora mexicana Patrícia Karina Vergara Sánchez Siwapajti (Medicina de mulher): Memória e teoria de mulheres, que está em processo de produção e será lançado no Brasil pela editora Luas, a autora aborda a questão. A medicina viu nas corpas com útero mais um mercado fértil e transformou o processo de gestação num negócio lucrativo, que rende milhões aos doutores e empresários.

O serviço doméstico não remunerado ainda é uma realidade para a massa das mulheres com útero e vagina. A diferença de salários entre pessoas com vagina e pessoas com pênis ainda é discrepante, muito embora a luta feminista anarquista, libertária, marxista, sufragista tenha começado a denunciar a desigualdade entre homens e mulheres no século XIX. Explico: não se usava o termo gênero naquele momento histórico.

Os postos de decisão, os cargos políticos, no judiciário e nas várias instituições ainda são ocupados majoritariamente por pessoas com pênis. Os corpos com pênis, ao serem quem comanda a política, a polícia e o judiciário, aceitam com naturalidade que os corpos matáveis sejam majoritariamente os das mulheres negras e indígenas no Brasil. Então, não entendi as calúnias de crime de transfobia por falarmos das diferenças anatomofisiológicas que determinaram, na modernidade, que as pessoas nascidas com vagina deveriam servir ao Santo Pênis em silêncio, pois, caso haja revolta, poderão ser silenciadas, torturadas ou exterminadas. Como foi Marielle Franco no dia 18 de março de 2018. O caso não se resolve, embora tenha revelado que a execução foi encomendada pelo Escritório do Crime. Estes grupos de extermínio são todos comandados por homens com pênis.

Os ataques aéreos, realizados pelas pessoas do agronegócio, que jogam veneno nas aldeias indígenas, nos povos quilombolas e ribeirinhos, são realizados por pessoas com vagina pilotando os aviões? Quem realiza às queimadas criminosas, o desmatamento das florestas brasileiras? De quem são as megafazendas que estão invadindo outras terras para ampliar seu capital? São de pessoas com vagina ou pênis? Muitas mortes estão sendo invisibilizadas neste discurso antifeminista de luta pelo pênis. Não foi o Francis Bacon quem disse que a natureza e as mulheres deveriam ser dominadas, exploradas e torturadas? A modernidade foi construída reproduzindo o discurso de que as mulheres, as pessoas não europeias, não brancas e a natureza são selvagens que seriam controladas à luz da racionalidade do homem.

Após a Revolução Francesa, em 1789, a elaboração da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão era uma forma de garantir direitos aos homens brancos europeus heterossexuais. Mulheres, pessoas não brancas e que não nasciam com pênis não eram consideradas cidadãs dignas de terem direitos. Foi por entender que as mulheres deveriam ter direitos e serem consideradas cidadãs que Marie Gouze escreveu A Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã. A ousadia custou-lhe a vida, ela foi guilhotinada na praça da Concórdia, em Paris, no dia 3 de novembro de 1793. Mesmo usando o pseudônimo de Olympe de Gouges, ela não escapou ao destino de nascer em um corpo matável.

A palavra feminicídio foi uma longa batalha feminista para ser dicionarizada no mundo afora, e mais ainda no Brasil. Para ser contemplada pela legislação e o assassinato ser classificado como feminicídio ainda estamos na luta, pois não basta a lei estar escrita se não for efetivada. Os números apontam o aumento de mortes, mas poucas vezes o crime é classificado como feminicídio.

Quando uma mulher estuprada é humilhada pelos doutores diante do tribunal e os criminosos são blindados por pertencerem a famílias de classe privilegiada e de pele branca e são transformados em vítimas, todas as pessoas que nasceram com útero e vagina são reafirmadas como corpos estupráveis. Muitos ainda insistem em dizer que homem equivale à humanidade. E, assim, a voz das mulheres segue silenciada.

Quem criou o termo Queer foi uma feminista norte-americana. Teresa de Lauretis, nos anos 1990, ampliou o campo da Epistemologia Feminista para explicar o estranhamento e o impacto causado pela multiplicação de gênero favorecida pelos movimentos sociais na segunda década do século XX. Feministas como Oyèrónke Oyěwùmí e María Lugones escrevem que o binarismo de gênero é uma construção moderna criada para justificar o controle sobre as corpas das mulheres. Em algumas comunidades no continente Africano e em algumas tribos indígenas no continente Americano havia outros gêneros para além daqueles criados pelo homem heterossexual, branco e europeu antes das invasões dos colonizadores. Eles aqui vieram com a missão de roubar terras, dizimar povos e, como consequência, estupravam e escravizavam as mulheres não europeias que aqui viviam e as que foram sequestradas da África.

Estamos com a possibilidade de vivenciar a Terceira Guerra Mundial. As experiências do fascismo, do nazismo, do franquismo, das ditaduras impostas na América Latina não foram suficientes. Os donos do poder e os magnatas da indústria bélica querem mais sangue para aumentar o lucro. Mas, o perigo somos nós, as feministas. Novamente somos o alvo, e os nossos discursos continuam sendo distorcidos para justificar o antifeminismo, a misoginia e a continuidade da exploração de nossas corpas.

A imagem que circula nas redes sociais e pela qual nos acusam de transfobia, injustamente, é a ilustração da diferença que se faz entre nascer com um pênis ou uma vagina. Na explosão feminista, termo criado por Heloísa Buarque de Hollanda, muitas discussões sobre a questão biológica apontam para os vários sexos, para a intersexualidade, para a crítica ao binarismo de gênero e para a complexidade do corpo biológico. Na imagem, ilustra-se a ideia de que é do útero que nascemos e que os confrontos bélicos, a indústria de armas e a matança em escala mundializada são invenções do patricapitalismo, criadas por pessoas nascidas com pênis. O pênis garante um certo status social.

É por não cultuarmos o Santo Pênis Patricapitalista que somos transfóbicas? Escrevo para entender por onde vai o debate e qual é a lógica usada para nos acusarem de crime de transfobia. Sou lesbiana, se preferirem, lésbica ou sapatão, mas já me identificava como mulher muito antes de tornar-me, tal como nos explica Sam Bourcier no livro Compreender o Feminismo, publicado pela Editora Devires, que traduzimos para o brasileiro (uso aqui a perspectiva feminista decolonial para me referir à língua que foi imposta aos povos que aqui viviam antes da colonização. Se somos do Brasil e não mais de Pindorama, falamos a língua brasileira e não a portuguesa, já que não vivemos no continente Europeu).

Como dizia, os bombardeios começaram e não sabemos quando uma guerra termina e qual será o saldo de mortes humanas e não humanas. Quantos corpos ficarão mutilados e não irão receber nenhum auxílio dos poderosos que mandaram bombardear? Protegidos por sua guarda pessoal, sob o escudo de outros homens dispostos a morrer pelo chefe, os mandantes saem ilesos na maioria dos casos. Serão necessárias quantas mortes, dois anos após a Pandemia ter levado milhões de vidas humanas? Enquanto as pessoas não negacionistas esperavam por uma vacina, a distância entre os poucos bilionários e a multidão faminta aumentou. Com a guerra, quantas pessoas irão viver na miséria e buscar refúgio nos outros países já devastados pela pandemia e pela exploração realizada pelos poucos bilionários, que aumentaram suas fortunas nestes dois anos? 

O bilionário Jeff Bezos, norte-americano, e o britânico Richard Branson aproveitaram a pandemia e a facilitação do financiamento estatal para promover uma disputa, para brincarem de astronauta e ver quem iria percorrer o espaço sideral primeiro. Enquanto isso, o povo morria doente, à mingua, pela fome ou sendo massacrado e expulso de suas terras para o agronegócio expandir seus lucros e ajudar a pagar as pesquisas sobre a invasão de outros planetas para roubar os seus recursos naturais.

Em tempos de guerra, mirar na cabeça das mulheres, que se orgulham e aprenderam a amar as suas corpas violadas ao longo dos séculos, é mais uma violência. Sou uma feminista pacifista ecovegana, me tornei vegana por empatia às outras espécies, sou contra todo o tipo de violência, seja ela física, psicológica, moral ou sexual. Portanto, nesta pequena reflexão sobre a imagem, quero dizer que a vagina e o útero nos permitiram estarmos aqui, independente do gênero, etnia ou classe social.

O pênis, no patricapitalismo, é usado como arma de guerra, tendo em vista que a indústria bélica e farmacoquímica foi uma invenção moderna, mesma época em que criaram o binarismo de gênero, hierarquizaram os gêneros, em masculino racional versus feminino sentimental. Todos os outros gêneros foram classificados como aberração. Esta foi uma invenção da ciência feita pelo homem heretossexual, branco, burguês e europeu. A Epistemologia Feminista se empenhou, desde o fim do século XIX e início do XX, na elaboração de uma crítica ao modelo científico moderno, comprometido com o capitalismo e com o industrialismo. As feministas criaram os Estudos de Gênero e a Teoria Queer para explicar que somos uma multidão complexa e não binária, que a questão política deve ser sempre pensada na interseccionalidade de gênero, etnia-raça, classe e espécie.

Não foram as pessoas com vagina que inventaram a pólvora, a bomba atômica, os gazes asfixiantes, o canhão, os caças de guerra! Não foram as pessoas com vagina que jogaram duas bombas atômicas no Japão! Não são as pessoas com vagina que lideram o ranking de estupros de crianças, mulheres e pessoas não humanas! Não são as mulheres com vagina que lideram o ranking do extermínio de mulheres (feminicídio), o extermínio de pessoas não brancas (racismo) e o extermínio de LGBTQIA+!

Já tivemos duas Guerras Mundiais, duas pandemias, estamos vivendo o problema climático e vendo-o se agravar sobre os nossos lombos marcados pelo chicote do opressor. Mas, como dizia Paulo Freire, “o sonho do oprimido é virar opressor”. No altar do Santo Pênis, as armas de destruição em massa estão novamente nas telinhas, nas telonas e nas redes sociais para divertir as mentes sádicas e doutrinadas para se contentarem em confundir conhecimento com informação. As fake news usadas pela elite brasileira para destituir a Presidenta Dilma Rouseff ajudaram a aumentar o abismo entre quem vive da informação virtual e não adentra no complexo campo do estudo e da pesquisa e quem procura fontes seguras.

Enquanto isso, a indústria bélica e a indústria farmacoquímica avança sem parar, dizimando as florestas na África, na América Latina, na Ásia, promovendo guerrilhas e extermínios em massa para que a elite empresarial gere mais lucro para os poucos bilionários. Eles sobrevoam alegremente em suas naves almejando a invasão de outros planetas para esgotarem outras fontes naturais e transformarem em royalties. Eles se escondem, covardemente, nas costas de sua guarda pretoriana contemporânea, vestida de robocop-militar, ou se acovardam escondidos em seus bunkers particulares.

Sou pacifista e não me curvo ao altar bélico do Santo Pênis! Como Ecofeminista luto para a cura planetária, independente da etnia-raça, classe, gênero ou espécie, sou contra o extermínio de pessoas promovido pelos homens brancos, héteros, europeus privilegiados. Pachamama está em chamas, queimando, fruto da ganancia promovida pelo patricapitalismo. Deveríamos nos preocupar coletivamente e trabalhar pelas soluções para a redução dos danos do aquecimento global (indico o livro de Maria Mies e Vandana Shiva, Ecofeminismo, publicado pela Editora Luas).

A imagem é um desenho que está circulando entre feministas e não feministas, entre pessoas que são contra a guerra.  A imagem não foi criada para atacar ninguém, pelo contrário, expõe um dos problemas da binarização de gênero, que é a guerra, a venda de armas a serviço dos narcogovernos, da disputa de territórios promovida pelos homens com pênis. Não sou defensora do patriotismo e nem abordo aqui qual dos lados está certou ou errado, minha pátria é o Universo, assim aprendi com Maria Lacerda de Moura e com o anarquismo pacifista.

Dadas as disputas de gênero criadas por pessoas oportunistas para nos classificar como criminosas transfóbicas, decido por mudar a minha identidade de gênero. Como a Epistemologia Feminista colaborou para a luta LGBTQIA+, para a criação das Teorias de Gênero e Queer, e para a crítica da invenção moderna da divisão social binarizada – mas isso não bastou, as mulheres seguem sendo o alvo, mesmo diante da ameaça de uma Terceira Guerra Mundial –, decido que a partir de hoje a minha identidade de gênero é FEMINISTA.


Patrícia Lessa – Feminista ecovegana, agricultora, mãe de pessoas não humanas, pesquisadora, educadora e escritora.

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O resgate histórico de obras escritas por mulheres e a importância do movimento feminista – Entrevista com Constância Lima Duarte

(Elaboração e realização: Patrícia Lessa e Andrea Conceição – entrevista realizada ao vivo via meet e transcrita depois.)

Nossa entrevistada do mês é a professora e pesquisadora Constância Lima Duarte. Ela possui graduação em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (1973), mestrado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1980), e doutorado em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (1991). Cumpriu programas de Pós-Doutorado na UFRJ e UFSC (2002-2003). Aposentada pela UFRN em 1996, ingressou como professora de Literatura Brasileira na Faculdade de Letras da UFMG em 1998, aposentando-se em 2005. Atualmente, é professora voluntária junto ao Programa de Pós-Graduação em Letras – Estudos Literários, da UFMG. Tem experiência na área de Literatura Brasileira, com ênfase nos seguintes temas: literatura de autoria feminina e crítica literária feminista. Dentre as publicações, destacam-se Nísia Floresta: vida e obra; Mulheres em Letras – Antologia; A escritura no feminino; Mulheres de Minas: lutas e conquistas; Dicionário de Escritoras Portuguesas; Dicionário de escritores mineiros; Escritoras do Rio Grande do Norte – Antologia; Imprensa feminina e feminista no Brasil, século XIX, entre outros. Atua como pesquisadora junto ao NEIA – Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Alteridade, ao Centro de Estudos Literários e Culturais, da UFMG, e coordena o Grupo de Pesquisa Letras de Minas, cadastrado no Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq. Atualmente, compõe o Conselho Editorial da Editora Luas e é uma das curadoras da nossa Coleção Precursoras (Conheça a Coleção aqui).

 

1 – Constância, em sua trajetória, vemos que exerceu trabalhos e pesquisas em diferentes regiões do Brasil e em diferentes universidades, tais como Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Universidade Católica do Rio de Janeiro, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade Federal de Santa Catarina e Universidade de São Paulo. De que forma estas experiências contribuíram para a sua formação? Os cursos de pós-doutorado na UFRJ e na UFSC trouxeram quais novidades para as suas pesquisas?

Constância Lima Duarte: Essas universidades representam, cada uma, diferentes momentos da minha vida. Como já estava dentro de mim, entranhado em mim o desejo de investigar a história das mulheres, de conhecer as pioneiras da nossa literatura e de compreender essas nuances do movimento feminista, em todas essas instituições eu desenvolvi pesquisas sobre essas temáticas. Por exemplo: sobre Nísia Floresta, no Rio Grande do Norte, comecei lá e terminei na USP. À Nísia Floresta, nossa primeira feminista, dediquei anos de pesquisa, e continuo dedicando, e também às antigas escritoras da literatura nordestina. Sobre as antigas escritoras da literatura mineira, me dedico desde quando cheguei aqui na UFMG, enfim, tenho alguns livros sobre elas. Por fim, a história do feminismo, que também sempre me interessou. Eu adoro conhecer, saber histórias daquelas loucas, utópicas mulheres antigas que enfrentaram os preconceitos de seu tempo de peito aberto, destemidas. Eu fico pensando assim, onde é que elas encontraram tanta coragem? Porque as histórias que a gente vê da Maria Lacerda de Moura, Ercilia Nogueira Cobra, anarquistas, eu estou citando anarquistas. Naquele momento escrever “Virgindade Inútil e Anti-Higiênica”. Imagina uma novela com esse nome nos anos 20? “Virgindade inútil”! É louca! É de uma utopia inimaginável. Então eu adoro saber histórias dessas mulheres. Maria Lacerda de Moura tem um livro, ela é de Barbacena, ela é mineira, ela teve jornais e tudo, ela tem um livro “Amai e… Não Vos Multipliqueis”. Imagine falar isso nos anos 20? “A mulher é uma degenerada?”, ela põe uma pergunta. O mundo cientista tinha falado que a mulher era louca e degenerada, aí ela faz uma pergunta “a mulher é uma degenerada?”, e então ela vai responder nesse livro. Então são personalidades que nós tivemos na nossa história que são incríveis, eu fico então pesquisando.

 

2 – O seu livro: Nísia Floresta: vida e obra é uma importante contribuição para o campo dos estudos feministas, das biografias e o campo da literatura de autoria feminina, como foi a recepção dele no meio acadêmico?  

Constância Lima Duarte: Nísia Floresta é uma querida, foi meu tema de tese de doutorado que defendi na USP, em 1991. Na época, eu morava em Natal e me incomodava muito ver o pouco ou nada que sabiam sobre ela. A verdade era essa. Foi isso! Eu botei na cabeça que ia pesquisar Nísia Floresta. Não havia nada em Natal, no Rio Grande do Norte, nenhum livro dela.

Na época dessa tese, nos anos de 1980, quando comecei a pesquisar a Nísia, em 1984, eu viajava e procurava sobre a Nísia Floresta. E não havia nada sobre ela. Quer dizer, havia histórias: “Dizem que publicou muitos livros”… Outro falava assim: “será que foi ela que escreveu?”, “Será que é dela?”, “Dizem que ela teve muitos amantes na Europa”. Então aquelas histórias desencontradas. É como se naquele tempo tivesse um mito em torno de Nísia, a mulher mais brilhante das nossas letras, as pessoas falavam assim. Outros diziam assim “Era uma puta erudita”. Então havia um estigma também. Porque não conheciam nada. E quando se quer ofender uma mulher, vai pela moral, né? Para pesquisar sua obra, ninguém nem sabia quantos livros ela tinha publicado. Eu fui visitando bibliotecas e acervos por todo o país. Aproveitava minhas férias e ia para Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, onde ela morou, em várias cidades e estados do país, eu fui atrás das principais bibliotecas. Encontrava o mesmo livro. Não encontrava nada mais. Depois fui à Europa, porque ela viveu a metade da sua vida na Europa. Inclusive ela morreu e foi enterrada em Rouen, no interior da França. Lá nas bibliotecas da França, em Paris, em Florença, de Roma, eu encontrei edições de Nísia Floresta escritas em inglês, em francês, em italiano, que ainda não tinham sido nem citadas nos dicionários bibliográficos brasileiros. Ninguém sabia desses livros. Então, eu fui recolhendo livros dela e sobre ela, informações sobre ela nos jornais, nas notícias, encontrei o passaporte dela em um arquivo nacional da França. Foi assim que fiquei sabendo das viagens, das datas das viagens etc. E com essas informações valiosas, eu fui escrevendo a sua biografia. Há grandes lacunas, ainda assim. Há anos em que não sei onde ela estava nem o que ela fez. Alguém vai descobrir, eu espero que descubra. E, desde então, eu me dedico a reeditar. Já reeditei alguns livros dela. E me dedico a falar dela para quem quiser ouvir. Sempre que me chamam, sempre que querem, eu vou falar de Nísia Floresta.

Nísia nasceu em 1810 e morreu em 1885. Seu primeiro livro é uma tradução de um livro inglês que estava traduzido para o francês, que ela traduz do francês para o português, chamado “Direitos das mulheres e injustiça dos homens”. É o primeiro livro em língua portuguesa que chega aqui para nós que fala em direitos das mulheres. Adoro esse título! Você pergunta como foi a recepção dele no meio acadêmico. Havia uma curiosidade, um interesse. Eu costumo dizer que é como se Nísia estivesse no inconsciente coletivo de toda a feminista. Todo mundo parece que já ouviu esse nome, a impressão que eu tenho é essa. Então há muito interesse. E hoje, o feminismo que estamos vivendo, há uma nova onda, uma grande e forte onda. Podemos falar disso depois, e é nascente, é muito grande este interesse em saber sobre Nísia Floresta, por exemplo, sobre as primeiras feministas, as primeiras que tiveram ideias feministas.

 

3 – O livro: Imprensa feminina e feminista no Brasil: século XIX nos leva a pensar muitas questões, dentre elas: no século XIX quais eram as reivindicações das mulheres na imprensa? Quais as diferentes pautas das mulheres e daquelas que se declaravam feministas?

Constância Lima Duarte: Ótima pergunta, ótima questão. Eu costumo dizer que cheguei nos periódicos da imprensa pela literatura, porque, quando eu procurava as antigas escritoras, eu encontrava os títulos dos jornais em que elas tinham publicado, pois os jornais foram o primeiro veículo de divulgação do trabalho intelectual feminino. O primeiro não foi o livro, primeiro elas publicavam nos jornais, depois aparecia o livro. Às vezes ele nem aparecia… Obras inteiras eram publicadas nos jornais ao longo de anos. Então, foi a literatura que me levou aos periódicos. Nesse sentido, eu penso que as primeiras escritoras eram todas feministas, compreende? Porque eu sempre enxerguei no gesto de uma mulher publicar, tornar público um pensamento, uma opinião sobre qualquer coisa nos séculos XVIII e XIX, quando isso não era permitido, um gesto feminista. Achar: eu posso! Eu quero! Ir contra todos e tudo. Eu já parto por aí. As primeiras escritoras, só por terem sido escritoras, eram feministas, porque eu gosto de pensar no feminismo sempre no sentido bem amplo. Antes de ser um movimento organizado, articulado em grupos, visando à construção de um mundo que a igualdade de gênero seja uma realidade. Antes disso, o feminismo surgiu através de iniciativas individuais. E era um projeto feminista. Junta duas mocinhas, duas amigas, duas irmãs e vão formar um jornal para defender as mulheres, isso é feminismo, não é? Isso é feminismo. Então, eu cheguei nos jornais procurando as mulheres. Quer ver um exemplo de escritora, no século XIX, Emília Freitas. É uma cearense, bárbara, gosto muito dela. Ela tem um romance chamado A Rainha do Ignoto. Ignoto é o desconhecido. A rainha do desconhecido. O enredo é a história de uma sociedade de mulheres, e essa rainha traz as mulheres espancadas, sofridas, maltratadas para sua terra, é uma terra que ninguém vê, é uma sociedade escondida, desenvolta, e a função dessas mulheres é resgatar outras mulheres que estão em situação de opressão. Quer mais feminismo que isso? Não existe a palavra feminista, mas o romance é isso. A Emília Freitas, no livro, retrata as mulheres, aquela sociedade – uma era general, a outra era advogada, a outra era engenheira, a outra era médica, estavam em todas as funções – em que elas podiam tudo. Tudo que não existia no mundo real ela constrói no mundo ficcional, fictício.

Você pergunta quais eram as reivindicações das mulheres na imprensa. A primeira bandeira que está desde Nísia Floresta, em 1830, até no final do século XIX, é a educação. A luta pela educação feminina, para abrir escolas de meninas, para mudar e melhorar o ensino delas. Primeiro para abrir escolas primárias. Conseguem escolas primárias, em 1827, por meio da lei que autoriza a abertura de escolas para meninas nas vilas mais populosas: Salvador, Vila Rica, Recife, Olinda, Rio de Janeiro e outras. E essas escritoras, essas jornalistas, elas pleiteavam, elas ficavam em cima, querendo o melhor ensino, porque as escolas, quando foi permitido o ensino e a abertura de escolas para meninas, eram escolas que privilegiavam o ensino doméstico, a função doméstica; o futuro da menina era para ser dona de casa. Era um verniz de cultura que as meninas tinham: bordar, algumas palavrinhas de francês, para falar nos salões, pois eram meninas da elite, tocar piano para agradar, cantar, desenhar e ler, soletrar alguma coisa. Então, é engraçado isso, você observa, nas décadas de jornais, primeiro: abrir escolas para meninas, permitir que as meninas estudassem o primário. Logo começam a pleitear o ensino secundário. E muitas dessas jornalistas tinham escolas. Nísia Floresta teve uma escola em sua casa e depois um colégio, o colégio Augusto, no Rio de Janeiro, que tinha o primário e o secundário. Ensinavam línguas estrangeiras. Então foi assim: primário, secundário e universidade. Nos anos 70, 80, começam as mulheres a falar em permitir que as moças, as jovens, fossem para as universidades, as faculdades, porque isso não podia, na verdade.

 

4 – Você possui trabalhos e pesquisas dedicadas à emancipação feminina. Sobre isso, gostaríamos de perguntar: De que forma você acredita que a autoria feminina confere legitimidade frente ao processo de emancipação feminina?

Constância Lima Duarte: Eu penso que a autoria feminina é um dos mais importantes passos para dar legitimidade à emancipação. As mulheres podem escrever, concorrer a prêmios, pleitear reconhecimento nas academias literárias, e por aí vai. Então, eu considero a autoria feminina absolutamente necessária, fundamental para legitimar essa emancipação.

 

5 – Você acredita que as mulheres continuam sendo invisibilizadas na historiografia? Caso afirmativo, o que atribui a isso?

Constância Lima Duarte: Veja, se pensarmos em termos acadêmicos, eu estou pensando na minha área, a literatura, até bem pouco tempo, as disciplinas dos cursos de Letras estavam pautadas pelo cânone, que é majoritariamente masculino e branco. As poucas escritoras que estudadas, eram sempre as mesmas, que de certa forma também já estavam canonizadas – Clarice Lispector, Cecília Meireles, Lygia Fagundes Teles, e só. Raramente incluíam em disciplinas outros nomes como Raquel de Queiroz, Gilka Machado (uma anarquista), Hilda Hilst (outra anarquista). Porém, nos últimos anos, houve uma renovação do corpo docente da universidade. Todo curso é se renovou! Saíram os antigos e chegaram novas cabeças, jovens professores. E acredito que aconteceu em todas as áreas. A partir daí temos notícias de que muitas escritoras contemporâneas se tornaram objetos de cursos, de disciplinas, porque começaram a entrar nas aulas. Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus, Maria Firmina dos Reis estão em alta nesse momento, e todas as três são negras, o que significa uma abertura inédita aos estudos literários, entende? É uma renovação revolucionária. O feminismo negro, por exemplo, tem suas pautas específicas. A mulher negra mais que nunca, porque está correndo atrás de um prejuízo. Ficou sem voz por muito tempo e de repente tem que falar tudo, fazer tudo. Veja, é esta questão: esse novo feminismo também entrou na universidade e provocou mudanças, virou tema de teses, dissertações, monografias. Conceição Evaristo está em alta, Carolina Maria de Jesus também. Maria Firmina, a primeira escritora brasileira, ficou absolutamente esquecida por décadas, muitas décadas, e de repente descobrem que foi a primeira mulher escritora negra a falar em abolição em nosso país. Poxa, não existe nenhuma história literária falando disso. Agora, isso está sendo dito em sala, compreende?

 

6 – Em 2020 vimos muitas iniciativas voltadas para a visibilidade da voz das mulheres nas artes. Como a criação de editoras e de livrarias voltadas para a escrita das mulheres pode contribuir para a valorização de suas vozes?

Constância Lima Duarte: Eu penso que a criação de tantas editoras de mulheres voltadas especialmente para esse nicho da literatura de autoria feminina é da maior importância, porque vai ampliar, de forma inédita, a produção das mulheres. Vai permitir um alcance, uma distribuição que ainda não temos como avaliar, mas eu acredito no potencial dessas “pequenas”, entre aspas, “pequenas editoras”, porque elas se somam. A Luas publica aqui, mas, agora com a internet, vende para qualquer lugar, outra em São Paulo. E assim elas vão se somando. Eessas editoras, no momento pequenas, vão se tornar gigantes, porque o nicho, o tema com que elas trabalham, a produção de autoria feminina, é tudo muito amplo e está absolutamente em alta. Eu acho que é excelente.

 

7 – A Editora Luas está anunciando o primeiro volume do livro: Memorial do Memoricídio, organizado por você e que sairá ainda em 2022, nos parece uma iniciativa bastante ousada. Poderia falar um pouco do projeto?

 Constância Lima Duarte: Claro! É um projeto que nasce do coração. É um projeto que pretende contribuir para divulgar escritoras que são pouco conhecidas, apesar das contribuições que deram em vida, apesar da produção intelectual que tiveram. É aquele conceito do memoricídio, porque (estou falando na minha área, da literatura), se você pega qualquer grande história da literatura brasileira, parece que não existe mulheres no século XVII, XVIII e XIX, só homens. Só os homens escreveram. Sim, era outra vida que as mulheres levavam, claro, mas, existiram as escritoras. Algumas, apesar de tudo e todos, apesar das limitações, do preconceito, algumas romperam esse preconceito, esse círculo vicioso em que estavam. “Mulher só tem que casar”, “mulher não tem que aprender a ler e escrever” etc. etc., e publicaram. Publicaram romances, contos, novelas, peças de teatro. Só que suas obras desapareceram, e quando eu falo de memoricídio, quer dizer, as mulheres sofreram, essas primeiras escritoras foram apagadas da história, foram apagadas da memória oficial, não entraram em livros nenhum, em dicionário nenhum. Se você olha nos grandes historiadores, parece que a  participação da mulher na literatura começou nos anos 1930. Os primeiros nomes que aparecem, em todos os livros, é Raquel de Queiroz, na ficção, e Cecília Meirelles, na poesia. De repente, eles não tinham mais como não ver, sabe? Estavam ali. As mulheres estavam publicando. Então, a partir dali começam a falar em mulheres. Poucas. Bem poucas. Mas começam ali.

Então, essa ideia do memorial, assim como o nome quer dizer, que é um monumento, é fazer um monumento. Eu acho que para quem é escritor/a, o melhor monumento é um livro. Foi isso que eu pensei com a Cecília, da Luas. Então, o Memorial do Memoricídio. O título é meu, eu gostei, porque a ideia é esta: eu convidei algumas colegas, fiz uma seleção de escritoras, de nomes de escritoras bárbaras, todas elas ótimas. Então, cada pesquisadora fez pequenas biografias de escritoras brasileiras, completamente, ou praticamente, desconhecidas da historiografia literária. Eu estou feliz com essa publicação. Eu acho que vai ser uma contribuição. Vão aparecer nomes ali que muita gente nunca ouviu falar e vai ficar surpreso/a. Como o exemplo que eu citei, da Emília Freitas, escritora fantástica, uma obra incrível que ninguém fala, que ninguém estuda. Então é isso, a ideia desse livro é ousada, eu concordo, eu acho também. Vai sair o primeiro volume do Memorial do Memoricídio, com quarenta escritoras, todas do século XIX para trás, e o volume dois está já sendo produzido também.

Então é isso, a ideia do projeto é contribuir para divulgar escritoras que não são conhecidas, ou praticamente desconhecidas, mas que merecem estar na história, porque também produziram. Também deram uma contribuição intelectual. Eu costumo falar com meus alunos e alunas que parece que a literatura brasileira só tem um lado. E é o lado que só homens escreveram, só homens brancos, sabe? Mas e as mulheres? Que história da literatura é essa? Cadê essas mulheres? Então, é o outro lado da literatura que a gente tenta mostrar.

                                                           Obrigada, Constância!

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Selo infantil: Lunitas

No ano de 2021, apesar de um contexto difícil para todo o mundo, e com constante aumento da gravidade das consequências da pandemia no Brasil, com esse governo atual genocida, seguimos com flor e garra nossos projetos e sonhos, com cuidado, zelo e apoio de muitas mulheres. Fomos gestando a ideia de trazer um selo infantil, afinal, uma editora preocupada com as mulheres se preocupa também com as crianças.

A Lunitas é um selo infantil feminista, que vai trazer livros com temáticas de valorização das diferenças, da diversidade, do feminino e do masculino, sob a perspectiva da empatia, do cuidado, do amor, da responsabilidade, do afeto; da valorização das emoções e de todos os sentires, da vida de todos os seres da natureza (humanos e não humanos), sob uma perspectiva matrística e ecofeminista.

São muitos os desafios de trazer a diversidade das temáticas necessárias para mudarmos as relações em nossa sociedade, mas acreditamos no fazer coletivo, encontrando e unindo as mulheres, acreditamos na potência transmutadora das experiências com a arte e os livros, nas transformações em nós, pessoas adultas, para mudar as relações com nossas crianças, estabelecermos outro tipo de relação e promover momentos especiais diversos, principalmente de boas leituras, e, assim, seguirmos trilhando caminhos para um mundo diferente: em que as mulheres e as crianças são respeitadas, amadas e não violentadas.

O livro que inaugura a Lunitas é o “Sua primeira casa”*, da Rafaela Kalaffa,  que aborda sobre um lugar comum a todas/os nós, um lugar escuro e quentinho, de onde todas/os viemos, onde foi a nossa primeira casa: o útero! A autora nos embala num canto de retorno, nos permitindo um olhar natural para o nosso corpo, com toda a sua sabedoria e força de se transformar para gerar outra(s) vida(s). É uma viagem para o lugar que primeiro nos nutriu.

Acesse o livro aqui.

Para conhecer todos os livros do selo Lunitas, clique aqui.

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