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Ainda hoje, Maria Lacerda de Moura nasceria fora de seu tempo…

Ainda hoje, Maria Lacerda de Moura nasceria fora de seu tempo…

No dia 16 de maio de 1887 nasceu Maria Lacerda de Moura, na fazenda Monte Alverne em Manhuaçu-MG. Ela foi pacifista, vegetariana, escritora, oradora, educadora e, sobretudo, uma mulher à frente do seu tempo. Ainda pequena, sua família mudou-se para Barbacena, onde ela cursou a Escola Normal e, desde então, atuou em diferentes frentes educacionais, no ensino formal e informal. Casou aos 17 anos de idade e, enfrentando todas as convenções, divorciou e não teve filhos naturais, mas adotou, em 1912, Jair, um sobrinho, e Carminda, uma órfã. Na mesma época, iniciou sua carreira de professora, trabalhou para a construção de um lactário e para a criação da Liga contra o Analfabetismo em Barbacena. Durante esse período, Maria Lacerda relata, em sua autobiografia, que enfrentou problemas na sua família quando começou a publicar crônicas em jornais da cidade – típica do interior mineiro –, onde começou a perceber e se rebelar contra variadas formas de opressão e preconceitos.

Ao redor do mundo, os neofascistas se levantam das tumbas reagrupando líderes populistas que encenam diante da mídia uma falsa oposição para alimentar a fogueira da guerra econômica e, novamente, ampliar a distância entre as famílias mais ricas e poderosas da multidão faminta e doente. Maria Lacerda, uma das vozes libertárias que fez frente no combate ao nazifascismo, no início do século XX, foi contra a guerra e alertou sobre os perigos da indústria armamentista. Ela foi uma pacifista que levou muito a sério o “não matarás”, inclusive para as pessoas não humanas. O vegetarianismo vinha crescendo, sobretudo nos grupos anarquistas, e, para ela, era uma forma de resistência ao modelo econômico predatório, sanguinário e destrutivo.

Meu encontro com Maria Lacerda de Moura não aconteceu por acaso, desde muito jovem me alimento da literatura anarcofeminista. Faço minhas as palavras da historiadora Margareth Rago: “Mesmo nos países em que a literatura feminista logrou maior esplendor, escritoras do porte de Maria Lacerda não abundam” (2007, p. 266). Concordo com a autora, pois acredito que o pioneirismo da libertária brasileira esteja muito além do que os estudos mostraram, mesmo depois do aniversário de um século de sua primeira obra.

Em 2012 estive no Encontro Nacional de Direitos dos Animais, no Parque Ecológico Visão do Futuro, em Porangaba-SP, e, através da palestra do Promotor de direitos dos animais, Laerte Levai, tomei conhecimento de que as lutas da escritora eram também pela libertação animal. Veganistas e ecologistas hoje estão recuperando a trajetória de pessoas que foram pioneiras nas frentes de batalha pelo meio ambiente e pelas pessoas não humanas. Desde o momento de descoberta das conexões entre pensamentos libertário, feminista e a luta em defesa das pessoas não humanas, eu venho lendo e escrevendo sobre a obra de Maria Lacerda de Moura, que, em 2020, culminou no meu primeiro livro sobre ela, Amor & Libertação em Maria Lacerda de Moura, em que abordo a questão, sobretudo seus escritos sobre antivivissecção e vegetarianismo.

O termo que utilizo, “pessoa não humana”, foi cunhado pela primatóloga Barbara Smuts. O dicionário Michaelis online considera o termo “pessoa” como “criatura humana”, um “ser eminente ou importante”, com “caráter peculiar que dá distinção a alguém”. E vai além, diz que, na narrativa cristã, ser uma pessoa significa estar consciente de sua liberdade e responsabilidade, que são determinadas pela dimensão moral e espiritual. Já a gramática indica alguém que participa de um discurso. Por isso, entendo que utilizar “pessoa” para os animais não humanos significa transgredir um discurso criado pelo humano especista, que desconsidera todas as outras formas de vida, ou considera inferior, portanto passível de exploração.

Provavelmente Maria Lacerda tenha sido a primeira pessoa no Brasil a adentrar profundamente nos temas referentes à defesa das pessoas não humanas e a relação destas com a má distribuição de terras e a produção de alimentos em escala industrial. Ela escreveu, em 1932 (p. 233), sobre o tema: “No dia em que a mulher se dispuser a libertar-se do jugo do estômago civilizado, passar a comer frutas e legumes, a apagar o fogo doméstico que é o fogo eterno do inferno feminino na sua escravidão ao estômago do homem – nesse dia ela recomeçará a sua autoeducação física e mental e iniciará a sua verdadeira libertação humana”.

A ciência e a tecnologia deveriam ter utilidade e proporcionar bem-estar social, em uma sociedade utópica, onde a propriedade coletiva dos meios de produção e a emancipação feminina prevalecesse, e o abandono das cidades, considerado um locus para a aplicação da ciência e da tecnologia, fosse seguido por uma integração orgânica com a natureza através do trabalho rural coletivo, eis a proposta de Maria Lacerda de Moura. A ideia de “estômago civilizado” é uma severa crítica ao modelo alimentar burguês centrado na carne e nos alimentos industrializados. Ela foi pioneira ao criticar o modelo industrial na produção de alimentos e as consequências devastadoras para as famílias de pequenas propriedades rurais. Os textos libertários de Maria Lacerda de Moura são narrativas de resistência feminista e libertária, são repletos de deslocamentos e ressignificações utópicas escritos em um momento de profunda transformação socioeconômica e estão em diálogo com um pensamento anarquista internacional que questiona a ideia de progresso prometido no processo de constituição e difusão massificada da ciência e da tecnologia.

Ela foi muito além dos seus direitos. Como mulher e como humana, ela lutou pela libertação das pessoas dos grilhões que as acorrentaram ao Estado, ao clero e às tradições. Mas, ela foi além, provavelmente, tenha sido a primeira mulher no Brasil a escrever e lutar pela libertação animal, pela libertação de Gaia ou Pachamama, nossa Mãe Terra das culturas e cultos andinos. Em muitos de seus escritos a luta antivivisseccionista soma-se ao vegetarianismo e ao trabalho na terra para produção de alimentos livres de veneno e da indústria. Nas palavras dela: “Se ninguém plantasse senão o estritamente necessário para si e para os seus filhos menores, para os velhos e para as mães e as crianças e os inválidos da sua família, ao mesmo tempo praticando o auxílio mútuo, – não se formariam ‘trusts’ de café, de açúcar, de algodão, de arroz, de trigo, de mate, de todos os gêneros de primeira necessidade, para fortuna dos reis da agricultura industrializada – que não plantam e enriquecem à custa do suor dos que plantam” (2020 [1931], p. 34).

Seus escritos sobre a crítica à agricultura industrializada e sua proposta de vegetarianismo avolumou-se depois de sua experiência em uma comunidade rural autogestionária. Em 1926 ela conheceu André Néblind, um francês desertor da Primeira Guerra Mundial, e, em 1928, ela vai viver com ele em uma comunidade agrícola em Guararema, interior de São Paulo. Vivendo na comunidade libertária, já divorciada, ela iniciou uma nova fase em sua vida, marcada por encontros com outras pessoas que compartilhavam os ideais anarquistas, revolucionários e pacifistas.

As abordagens sobre a exploração das pessoas não humanas tomam variadas formas na obra da autora mineira, são elas: a crítica à ciência e à vivissecção, a crítica à indústria da carne, à instrumentalização dos corpos humanos e não humanos e a proposta de uma alimentação vegetariana. Entre final do século XIX e início do século XX, é possível encontrar inúmeras mulheres escritoras feministas e abolicionistas que escreveram sobre o tópico: Annie Besant, Clara Barton, Matilda Joslyn Gage, Elizabeth Cady, Lou Andreas-Salomé, Alice Park, Agnes Ryan dentre outras. Maria Lacerda fez eco às mulheres de sua época e foi uma voz insurgente pelas pessoas não humanas.

Há ampla evidência de uma ligação clara entre a natureza dos experimentos com animais e da forma de opressão a que as mulheres da era vitoriana foram submetidas. A opressão feminina naquela época incluía as ideias de fragilidade e de propriedade. Os animais e as mulheres eram vistos como propriedade e sem os direitos que derivam de possuir a propriedade; é possível, assim, fazer comparação entre os dispositivos cirúrgicos utilizados em animais e o tratamento médico das mulheres, incluindo o parto e os costumeiros exames ginecológicos.

É possível analisar a visão de Maria Lacerda sobre a ciência e a tecnologia, como descrito na obra Civilização: tronco de escravos, sobretudo, no capítulo intitulado “A ciência a serviço da degenerescência humana”, em que a autora critica o modelo de apropriação do conhecimento científico e tecnológico do capitalismo. Seguindo a tradição anarquista, ela percebe a ciência e a tecnologia como potencialmente emancipadoras. Ela denuncia essa produção de conhecimento como “pervertida e prostituída”, já que “o capitalismo industrializado assume todo esse esforço científico, mesmo enquanto ainda é um embrião, de tal maneira que a energia humana é canalizada para uma única direção: a luta para a competição, a concorrência econômica, o poder econômico bélico, o nacionalismo e, fruto dos anteriores, a guerra” (2020 [1931], p. 10).

Ela buscou a paz mesmo em um momento de guerras e, depois de sua morte silenciosa, um texto anônimo publicado em São Paulo, em 1945, deixou-nos uma pista sobre a magnitude de sua busca: “Um dia, desgostosa da multidão, retirou-se para Guararema e lá viveu num rancho, à beira da estrada. Mais tarde, lá mesmo, não encontrou a paz que desejava e retirou-se para o Rio de Janeiro, fixando-se num daqueles subúrbios que parecem a mil quilômetros do mundo. Estudava, como sempre. E o seu estudo foi tão profundo que ela acabou por perder contato com os homens. Penetrou pela porta estreita da metafísica, libertou-se, alcançou climas tão altos e tão diferentes que quando ela falava os homens do quarteirão sorriam” (1945, p. 6).

 Maria Lacerda faleceu no dia 20 de março de 1945, na cidade do Rio de Janeiro, aos 57 anos. Teve uma vida curta, mas muito intensa, que precisa ser lembrada, contada, reverberada. Sua experiência em Guararema pode nos dizer muito sobre a necessidade de economias solidárias, sobre o vegetarianismo e a ética com relação às outras espécies, sobre as comunidades libertárias, a vida no campo, o meio ambiente, a produção e o consumo de alimentos orgânicos, sobretudo nestes tempos de envenenamento dos nossos corpos, do nosso solo, das nossas águas e, por que não dizer, da vida planetária. Seus diversos escritos estão espalhados por aí em jornais, livros, livretos, revistas etc. à espera de outros diálogos. 

Pachamama está em chamas e os sinais da catástrofe já foram denunciados por ecofeministas, ambientalistas e ecologistas. A pandemia e todas as outras doenças criadas nos grandes cativeiros de dólar e de sangue da indústria da carne são consequências da exploração capitalista e patriarcal. Os “estômagos civilizados”, como dizia Maria Lacerda de Moura, são os estômagos que ardem pelo peso de uma alimentação industrial, regada a veneno, com o dissabor dos transgênicos, dos alimentos ultraprocessados e, sobretudo, com o peso da carne de outra pessoa, que, como nós, humanos, nasceu para viver livremente.

O respeito às pessoas não humanas pode ser o início de uma transformação na vida planetária, na relação humanidade-animalidade-plantas, para avançarmos em direção aos modos de existência mais afetivos e criativos. A empatia e o amor interespécie significa pensar que as outras formas de vidas importam, que nos modificam e que criam novas formas de convívio.

Lutemos pela libertação humana, não humana e planetária como queria Maria Lacerda de Moura!

 Sugestão de leituras:

LESSA, Patrícia. Amor & Libertação em Maria Lacerda de Moura. São Paulo: Entremares, 2020.

MOURA, Maria Lacerda [1931]. Civilização, tronco de escravos. 2. ed. LESSA, Patrícia; MAIA, Cláudia (org.). São Paulo: Entremares, 2020.

MOURA, Maria Lacerda. Amai e… não vos multipliqueis. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1932.

RAGO, Margareth. Ética, Anarquia e Revolução em Maria Lacerda de Moura. In: REIS, Daniel Aarão; FERREIRA, José (org). As esquerdas no Brasil, v.1, A formação das Tradições, 1889-1945. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, p. 262-293.

UMA ESCRITORA. Notícias diversas, O Estado de São Paulo, n. 23, a. 165, p. 6, 29 mar. 1945.


Patrícia Lessa – Feminista ecovegana, agricultora, mãe de pessoas não humanas, pesquisadora, educadora e escritora.

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Mulheres fortes e mulheres de força: para não esquecer de Sandwina

Mulheres fortes e mulheres de força: para não esquecer de Sandwina

Ao longo da história, as mulheres reivindicaram os seus direitos e foram, pouco a pouco, criando espaços, deixando suas marcas e derrubando muros para que outras pudessem avançar. No campo dos esportes não poderia ser diferente. Sou formada em Educação Física e, ainda na graduação, atuei como árbitra na Liga Pelotense de Futsal, depois de realizar o curso e prestar a seleção teórico-prática, em 1990. Foi uma época em que havia poucas mulheres na arbitragem do futebol e, sobretudo, havia muito preconceito. Recordo-me de uma partida em que atuei arbitrando o final de uma competição no ginásio de esportes do Colégio Municipal Pelotense. O jogo estava empatado, havia decidido junto à equipe de arbitragem que seria necessário fazer uma prorrogação. Na prorrogação, um dos times fez o gol que lhe daria a vitória. Foi um estrondo! As torcidas se alvoroçaram e digladiaram-se. Naquele momento, escutei todo tipo de insulto comumente dirigido às mulheres. Um deles foi que “o lugar de mulher é na cozinha”. Buenas! Confesso que sempre gostei de cozinha e não tenho nada contra ser associada ao trabalho neste local, o problema é achar que nosso local ainda está circunscrito ao reduto do lar. Enfim, permaneci mais algum tempo no trabalho de arbitragem e me envolvi em muitos esportes que, historicamente, foram considerados impróprios para as mulheres.

Muitas práticas desportivas foram e ainda são interditadas às mulheres em diferentes geografias. A invenção científica da “vulnerabilidade biológica” e da “fragilidade inata” deixou as mulheres de fora de muitos eventos desportivos. Fragilidade, vulnerabilidade e passividade são características totalmente desfavoráveis às exigências da performance atlética, em que tanto as mulheres quanto os homens devem extrapolar suas capacidades físicas. Os esportes são repletos de hierarquias, de processos longos e nem sempre justos, quando pensamos em esportes competitivos ou em esporte espetáculo, que exige disciplina, mas também, às vezes, alguns requisitos sociais para além da performance.

O futebol feminino no Brasil está repleto de histórias bizarras, como foi o caso do Saad (clube de futebol feminino de São Paulo) que nos anos 1990 exigia beleza e feminilidade das atletas. Em 1996, o Brasil fez sua estreia olímpica no Futebol Feminino, o que repercutiu um jogo de marketing nada coerente com os atributos exigidos pelo esporte. Alguns clubes como Fluminense, Grêmio e Corinthians seguiram as recomendações do projeto de marketing do Saad, o qual dizia que, além de competência técnica, era necessário ter beleza para entrar em campo. O critério era totalmente generizado, pois jamais seria exigido o mesmo dos homens que participavam de equipes de futebol. Deles, espera-se performance, resultado, independentemente de sua beleza ou do seu caráter, haja vista o número de atletas envolvidos em crimes tais como tráfico, estupro, falsidade ideológica e outros, mesmo assim eles seguem sendo ídolos depois de o caso ser “abafado”. Além disso, beleza é um critério totalmente frágil, pois a aparência é julgada de acordo com normas geralmente sexistas, classistas, racistas do senso comum. Uma mulher negra e lésbica passaria no crivo deste julgamento? Pois bem, as mulheres negras e lésbicas levaram o nome da seleção brasileira de futebol para todos os cantos do mundo: Marta, Formiga, Cristiane são alguns deste nomes que não podem cair no esquecimento.

Nos primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna, as mulheres não podiam competir. Sua inserção nas competições internacionais foi acontecendo de maneira gradativa, e ainda mais lenta naqueles esportes que eram socialmente considerados masculinos, tais como: as lutas, o halterofilismo, o fisiculturismo, o futebol, dentre outros. Em todas essas modalidades, entretanto, o tempo mostrou competência e talentos reconhecidos. Hoje o fisiculturismo feminino escreve sua história através da resistência que as bodybuilders empreendem em nome do esporte, crescendo gradativamente, mesmo sem incentivo financeiro e com alta carga de preconceito em relação aos corpos fortes e à musculatura delineada nas mulheres.

O fisiculturismo é um dos esportes em que as mulheres encontraram forte resistência – também as praticantes de esportes como ciclismo, halterofilismo, futebol e lutas de todo gênero carregaram o estigma de praticarem “esportes masculinos”. Em 14 de abril de 1941, o Conselho Nacional de Desportos (CND), então vigente naquele período, no Brasil, criou o Decreto Lei nº 3.199, o qual, no artigo nº 54, constava que as mulheres não poderiam praticar esportes “incompatíveis com sua natureza”. Em 1965, com a deliberação nº 7, definiram-se regras para a participação das mulheres nos esportes, não sendo permitida a elas a prática do futebol, do futsal, do futebol de praia, do polo, do halterofilismo, do baseball e das lutas de qualquer natureza. Foi somente em 1979, com a deliberação nº 10, que o decreto foi revogado. Apesar disso, é importante ressaltar que, mesmo com a lei vigorando, as mulheres participavam de treinamentos e de competições regionais, muito embora os longos períodos ditatoriais brasileiros tenham imposto regras que fomentavam um ideal de feminilidade baseado na fragilidade, docilidade e submissão das mulheres. As atletas escapavam como podiam e praticavam esportes, apesar de a lei impedir competições nacionais naquelas modalidades supracitadas.

No universo dos esportes, como em outras esferas sociais, os avanços são, muitas vezes, intercalados com retrocessos, como é o exemplo das competições femininas de musculação, que, depois de um longo tempo de evolução, as mulheres receberam um boicote: uma importante federação internacional divulgou que atletas de todas as categorias “devem reduzir a sua massa muscular em 20% do estágio individual atual”, com o argumento de perda da feminilidade. A musculação foi um dos esportes em que houve uma grande resistência quanto à participação das mulheres. Só muito tempo depois dos homens que elas puderam ser inseridas em campeonatos de halterofilismo e fisiculturismo. Além disso, a utilização da musculação nos programas de treinamento das atletas também se deu mais tarde, em função da crença de que as mulheres eram incapazes de realizar atividades que exigissem grande força física.

Uma clara distinção entre os gêneros é feita, e, nessa diferença, as mulheres levam a pior: falta de investimentos, de campeonatos e de patrocínios são alguns exemplos da desigualdade de gênero nos esportes. O exemplo do Miss Olímpia de 1987, realizado pela International Federation of Bodybuilding and Fitness (IFBB), nos Estados Unidos, é paradigmático. Cory Everson mais uma vez sagrou-se campeã e levou o prêmio de US$ 25.000. Naquele mesmo ano, Lee Haney ganhou o prêmio de US$ 55.000 pelo primeiro lugar. O prêmio masculino foi mais que o dobro do valor dado à Cory, porém o trabalho, o desgaste, os investimentos não podiam ser computados dessa forma, pois ambos fizeram um esforço heroico para chegarem ao pódio da competição de fisiculturismo mais prestigiada na segunda metade do século XX.

Muito antes de Cory Everson nascer, havia uma mulher que atravessou o oceano e rompeu as barreiras de gênero. Trata-se de Katie Brumbach. Ela nasceu em Viena, na Áustria, no dia 6 de maio de 1884, e faleceu no dia 21 de janeiro de 1952, em Nova Iorque, nos Estados Unidos. Em Viena, ela era a estrela de um espetáculo no qual desafiava homens e mulheres em um ringue. Ela era filha do casal de artes circenses Johanna e Philippe Brumbach. Desde jovem, Katie atuou com a família, e, em uma de suas exibições, seu pai oferecia um valor em dinheiro para qualquer homem da plateia que fosse capaz de derrotá-la em um combate de força conhecido como wrestling. Nos registros históricos, nota-se que nenhum homem conseguiu derrubar a jovem Katie.

Em 1910, ela media 1,82cm de altura, pesava quase 100 kg e exibia um bíceps de mais de 40 cm de diâmetro. Apresentava-se como a mulher mais forte do mundo e fez exibições em vários países na Europa e no continente americano, local para onde se transferiu, definitivamente, na década de 1920. Foi em 1902, nos Estados Unidos, que vivenciou a experiência que lhe conferiu uma mudança radical: em um pequeno clube atlético de Nova York, ela participou de um desafio de força com Eugene Sandow no qual sagrou-se vencedora ao levantar 130 kg acima de sua cabeça, enquanto o conhecido fisiculturista não conseguiu erguê-la além da altura do peito. O nome Sandwina passou a circular ao redor do mundo desde aquele dia.  Após a vitória, ela adotou o nome artístico Sandwina, tendo em vista a importância de Sandow no cenário internacional dos esportes de força.

Sandwina trabalhou durante anos, nos Estados Unidos, com o Ringling Bros e Barnum & Bailey Circus, até quase os 60 anos de idade. Apresentava-se realizando feitos como: dobrar barras de aço, levantar três ou mais homens com a força dos braços, resistir à tração de cavalos, realizar levantamento de peso com mais de 100 kg acima da cabeça. Seu recorde no levantamento de peso foi de 296 lb (libras), equivalente a 129 kg, e foi superado somente em 1987 por Karyn Marshall. Sobre a Sandwina, é possível ver um filme disponibilizado no YouTube:  https://www.youtube.com/watch?v=NP7m5JQKkMc.

Escrevi sobre a Sandwina em artigos acadêmicos e no meu livro sobre musculação intitulado Mestre Puma e Larissa Cunha: na história da musculação competitiva, publicado pela Appris em 2020. Porém, nas revistas comerciais para as quais eu escrevi, sempre foi retirada a parte do texto em que diz que Sandwina venceu Eugene Sandow. A censura, neste caso, é uma das formas de apagamento de nossas memórias, por isso fiz questão de retomar aqui, na Coluna Pachamama, a história de Sandwina e alguns aspectos da história das mulheres nos esportes. Embora a história seja sempre marcada por indícios do que se passou, sabemos que, quando se trata da história das mulheres, muitas vezes, os acontecimentos são mitificados e transformados em lendas, causos e ficção. 

Independente de você ser contra ou a favor do esporte competitivo ou do esporte espetáculo, é importante observar as marcas de gênero impressas em diferentes modalidades ao longo da história. Portanto, convido você a ler sobre a história das mulheres nos esportes e tenho certeza de que perceberá surpreendente pluralidade e diversidade de lutas que as mulheres enfrentaram em diferentes temporalidades e geografias. Contornando as marcações de gênero, as atletas imprimiram uma marca de força e de resiliência em todas as modalidades desportivas.   

As imagens de Sandwina foram retiradas do livro de Josef Švub, Historie síly, publicado na República Tcheca pela editora Svet Kulturistiky em 1997.

Outras histórias de mulheres nos esportes de força podem ser encontradas em meu artigo, escrito junto com Iasmim Santos, publicado em: http://www.crc.uem.br/departamento-de-pedagogia-dpd/koan-revista-de-educacao-e-complexidade/edicao-n-5-dez-2017/edicao-n-5-dez-2017/as-strongwomen-da-belle-epoque-e-a-quebra-do-mito-da-fragilidade-inata.


Patrícia Lessa Feminista ecovegana, agricultora, mãe de pessoas não humanas, pesquisadora, educadora e escritora.

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O resgate histórico de obras escritas por mulheres e a importância do movimento feminista – Entrevista com Constância Lima Duarte

(Elaboração e realização: Patrícia Lessa e Andrea Conceição – entrevista realizada ao vivo via meet e transcrita depois.)

Nossa entrevistada do mês é a professora e pesquisadora Constância Lima Duarte. Ela possui graduação em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (1973), mestrado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1980), e doutorado em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (1991). Cumpriu programas de Pós-Doutorado na UFRJ e UFSC (2002-2003). Aposentada pela UFRN em 1996, ingressou como professora de Literatura Brasileira na Faculdade de Letras da UFMG em 1998, aposentando-se em 2005. Atualmente, é professora voluntária junto ao Programa de Pós-Graduação em Letras – Estudos Literários, da UFMG. Tem experiência na área de Literatura Brasileira, com ênfase nos seguintes temas: literatura de autoria feminina e crítica literária feminista. Dentre as publicações, destacam-se Nísia Floresta: vida e obra; Mulheres em Letras – Antologia; A escritura no feminino; Mulheres de Minas: lutas e conquistas; Dicionário de Escritoras Portuguesas; Dicionário de escritores mineiros; Escritoras do Rio Grande do Norte – Antologia; Imprensa feminina e feminista no Brasil, século XIX, entre outros. Atua como pesquisadora junto ao NEIA – Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Alteridade, ao Centro de Estudos Literários e Culturais, da UFMG, e coordena o Grupo de Pesquisa Letras de Minas, cadastrado no Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq. Atualmente, compõe o Conselho Editorial da Editora Luas e é uma das curadoras da nossa Coleção Precursoras (Conheça a Coleção aqui).

 

1 – Constância, em sua trajetória, vemos que exerceu trabalhos e pesquisas em diferentes regiões do Brasil e em diferentes universidades, tais como Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Universidade Católica do Rio de Janeiro, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade Federal de Santa Catarina e Universidade de São Paulo. De que forma estas experiências contribuíram para a sua formação? Os cursos de pós-doutorado na UFRJ e na UFSC trouxeram quais novidades para as suas pesquisas?

Constância Lima Duarte: Essas universidades representam, cada uma, diferentes momentos da minha vida. Como já estava dentro de mim, entranhado em mim o desejo de investigar a história das mulheres, de conhecer as pioneiras da nossa literatura e de compreender essas nuances do movimento feminista, em todas essas instituições eu desenvolvi pesquisas sobre essas temáticas. Por exemplo: sobre Nísia Floresta, no Rio Grande do Norte, comecei lá e terminei na USP. À Nísia Floresta, nossa primeira feminista, dediquei anos de pesquisa, e continuo dedicando, e também às antigas escritoras da literatura nordestina. Sobre as antigas escritoras da literatura mineira, me dedico desde quando cheguei aqui na UFMG, enfim, tenho alguns livros sobre elas. Por fim, a história do feminismo, que também sempre me interessou. Eu adoro conhecer, saber histórias daquelas loucas, utópicas mulheres antigas que enfrentaram os preconceitos de seu tempo de peito aberto, destemidas. Eu fico pensando assim, onde é que elas encontraram tanta coragem? Porque as histórias que a gente vê da Maria Lacerda de Moura, Ercilia Nogueira Cobra, anarquistas, eu estou citando anarquistas. Naquele momento escrever “Virgindade Inútil e Anti-Higiênica”. Imagina uma novela com esse nome nos anos 20? “Virgindade inútil”! É louca! É de uma utopia inimaginável. Então eu adoro saber histórias dessas mulheres. Maria Lacerda de Moura tem um livro, ela é de Barbacena, ela é mineira, ela teve jornais e tudo, ela tem um livro “Amai e… Não Vos Multipliqueis”. Imagine falar isso nos anos 20? “A mulher é uma degenerada?”, ela põe uma pergunta. O mundo cientista tinha falado que a mulher era louca e degenerada, aí ela faz uma pergunta “a mulher é uma degenerada?”, e então ela vai responder nesse livro. Então são personalidades que nós tivemos na nossa história que são incríveis, eu fico então pesquisando.

 

2 – O seu livro: Nísia Floresta: vida e obra é uma importante contribuição para o campo dos estudos feministas, das biografias e o campo da literatura de autoria feminina, como foi a recepção dele no meio acadêmico?  

Constância Lima Duarte: Nísia Floresta é uma querida, foi meu tema de tese de doutorado que defendi na USP, em 1991. Na época, eu morava em Natal e me incomodava muito ver o pouco ou nada que sabiam sobre ela. A verdade era essa. Foi isso! Eu botei na cabeça que ia pesquisar Nísia Floresta. Não havia nada em Natal, no Rio Grande do Norte, nenhum livro dela.

Na época dessa tese, nos anos de 1980, quando comecei a pesquisar a Nísia, em 1984, eu viajava e procurava sobre a Nísia Floresta. E não havia nada sobre ela. Quer dizer, havia histórias: “Dizem que publicou muitos livros”… Outro falava assim: “será que foi ela que escreveu?”, “Será que é dela?”, “Dizem que ela teve muitos amantes na Europa”. Então aquelas histórias desencontradas. É como se naquele tempo tivesse um mito em torno de Nísia, a mulher mais brilhante das nossas letras, as pessoas falavam assim. Outros diziam assim “Era uma puta erudita”. Então havia um estigma também. Porque não conheciam nada. E quando se quer ofender uma mulher, vai pela moral, né? Para pesquisar sua obra, ninguém nem sabia quantos livros ela tinha publicado. Eu fui visitando bibliotecas e acervos por todo o país. Aproveitava minhas férias e ia para Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, onde ela morou, em várias cidades e estados do país, eu fui atrás das principais bibliotecas. Encontrava o mesmo livro. Não encontrava nada mais. Depois fui à Europa, porque ela viveu a metade da sua vida na Europa. Inclusive ela morreu e foi enterrada em Rouen, no interior da França. Lá nas bibliotecas da França, em Paris, em Florença, de Roma, eu encontrei edições de Nísia Floresta escritas em inglês, em francês, em italiano, que ainda não tinham sido nem citadas nos dicionários bibliográficos brasileiros. Ninguém sabia desses livros. Então, eu fui recolhendo livros dela e sobre ela, informações sobre ela nos jornais, nas notícias, encontrei o passaporte dela em um arquivo nacional da França. Foi assim que fiquei sabendo das viagens, das datas das viagens etc. E com essas informações valiosas, eu fui escrevendo a sua biografia. Há grandes lacunas, ainda assim. Há anos em que não sei onde ela estava nem o que ela fez. Alguém vai descobrir, eu espero que descubra. E, desde então, eu me dedico a reeditar. Já reeditei alguns livros dela. E me dedico a falar dela para quem quiser ouvir. Sempre que me chamam, sempre que querem, eu vou falar de Nísia Floresta.

Nísia nasceu em 1810 e morreu em 1885. Seu primeiro livro é uma tradução de um livro inglês que estava traduzido para o francês, que ela traduz do francês para o português, chamado “Direitos das mulheres e injustiça dos homens”. É o primeiro livro em língua portuguesa que chega aqui para nós que fala em direitos das mulheres. Adoro esse título! Você pergunta como foi a recepção dele no meio acadêmico. Havia uma curiosidade, um interesse. Eu costumo dizer que é como se Nísia estivesse no inconsciente coletivo de toda a feminista. Todo mundo parece que já ouviu esse nome, a impressão que eu tenho é essa. Então há muito interesse. E hoje, o feminismo que estamos vivendo, há uma nova onda, uma grande e forte onda. Podemos falar disso depois, e é nascente, é muito grande este interesse em saber sobre Nísia Floresta, por exemplo, sobre as primeiras feministas, as primeiras que tiveram ideias feministas.

 

3 – O livro: Imprensa feminina e feminista no Brasil: século XIX nos leva a pensar muitas questões, dentre elas: no século XIX quais eram as reivindicações das mulheres na imprensa? Quais as diferentes pautas das mulheres e daquelas que se declaravam feministas?

Constância Lima Duarte: Ótima pergunta, ótima questão. Eu costumo dizer que cheguei nos periódicos da imprensa pela literatura, porque, quando eu procurava as antigas escritoras, eu encontrava os títulos dos jornais em que elas tinham publicado, pois os jornais foram o primeiro veículo de divulgação do trabalho intelectual feminino. O primeiro não foi o livro, primeiro elas publicavam nos jornais, depois aparecia o livro. Às vezes ele nem aparecia… Obras inteiras eram publicadas nos jornais ao longo de anos. Então, foi a literatura que me levou aos periódicos. Nesse sentido, eu penso que as primeiras escritoras eram todas feministas, compreende? Porque eu sempre enxerguei no gesto de uma mulher publicar, tornar público um pensamento, uma opinião sobre qualquer coisa nos séculos XVIII e XIX, quando isso não era permitido, um gesto feminista. Achar: eu posso! Eu quero! Ir contra todos e tudo. Eu já parto por aí. As primeiras escritoras, só por terem sido escritoras, eram feministas, porque eu gosto de pensar no feminismo sempre no sentido bem amplo. Antes de ser um movimento organizado, articulado em grupos, visando à construção de um mundo que a igualdade de gênero seja uma realidade. Antes disso, o feminismo surgiu através de iniciativas individuais. E era um projeto feminista. Junta duas mocinhas, duas amigas, duas irmãs e vão formar um jornal para defender as mulheres, isso é feminismo, não é? Isso é feminismo. Então, eu cheguei nos jornais procurando as mulheres. Quer ver um exemplo de escritora, no século XIX, Emília Freitas. É uma cearense, bárbara, gosto muito dela. Ela tem um romance chamado A Rainha do Ignoto. Ignoto é o desconhecido. A rainha do desconhecido. O enredo é a história de uma sociedade de mulheres, e essa rainha traz as mulheres espancadas, sofridas, maltratadas para sua terra, é uma terra que ninguém vê, é uma sociedade escondida, desenvolta, e a função dessas mulheres é resgatar outras mulheres que estão em situação de opressão. Quer mais feminismo que isso? Não existe a palavra feminista, mas o romance é isso. A Emília Freitas, no livro, retrata as mulheres, aquela sociedade – uma era general, a outra era advogada, a outra era engenheira, a outra era médica, estavam em todas as funções – em que elas podiam tudo. Tudo que não existia no mundo real ela constrói no mundo ficcional, fictício.

Você pergunta quais eram as reivindicações das mulheres na imprensa. A primeira bandeira que está desde Nísia Floresta, em 1830, até no final do século XIX, é a educação. A luta pela educação feminina, para abrir escolas de meninas, para mudar e melhorar o ensino delas. Primeiro para abrir escolas primárias. Conseguem escolas primárias, em 1827, por meio da lei que autoriza a abertura de escolas para meninas nas vilas mais populosas: Salvador, Vila Rica, Recife, Olinda, Rio de Janeiro e outras. E essas escritoras, essas jornalistas, elas pleiteavam, elas ficavam em cima, querendo o melhor ensino, porque as escolas, quando foi permitido o ensino e a abertura de escolas para meninas, eram escolas que privilegiavam o ensino doméstico, a função doméstica; o futuro da menina era para ser dona de casa. Era um verniz de cultura que as meninas tinham: bordar, algumas palavrinhas de francês, para falar nos salões, pois eram meninas da elite, tocar piano para agradar, cantar, desenhar e ler, soletrar alguma coisa. Então, é engraçado isso, você observa, nas décadas de jornais, primeiro: abrir escolas para meninas, permitir que as meninas estudassem o primário. Logo começam a pleitear o ensino secundário. E muitas dessas jornalistas tinham escolas. Nísia Floresta teve uma escola em sua casa e depois um colégio, o colégio Augusto, no Rio de Janeiro, que tinha o primário e o secundário. Ensinavam línguas estrangeiras. Então foi assim: primário, secundário e universidade. Nos anos 70, 80, começam as mulheres a falar em permitir que as moças, as jovens, fossem para as universidades, as faculdades, porque isso não podia, na verdade.

 

4 – Você possui trabalhos e pesquisas dedicadas à emancipação feminina. Sobre isso, gostaríamos de perguntar: De que forma você acredita que a autoria feminina confere legitimidade frente ao processo de emancipação feminina?

Constância Lima Duarte: Eu penso que a autoria feminina é um dos mais importantes passos para dar legitimidade à emancipação. As mulheres podem escrever, concorrer a prêmios, pleitear reconhecimento nas academias literárias, e por aí vai. Então, eu considero a autoria feminina absolutamente necessária, fundamental para legitimar essa emancipação.

 

5 – Você acredita que as mulheres continuam sendo invisibilizadas na historiografia? Caso afirmativo, o que atribui a isso?

Constância Lima Duarte: Veja, se pensarmos em termos acadêmicos, eu estou pensando na minha área, a literatura, até bem pouco tempo, as disciplinas dos cursos de Letras estavam pautadas pelo cânone, que é majoritariamente masculino e branco. As poucas escritoras que estudadas, eram sempre as mesmas, que de certa forma também já estavam canonizadas – Clarice Lispector, Cecília Meireles, Lygia Fagundes Teles, e só. Raramente incluíam em disciplinas outros nomes como Raquel de Queiroz, Gilka Machado (uma anarquista), Hilda Hilst (outra anarquista). Porém, nos últimos anos, houve uma renovação do corpo docente da universidade. Todo curso é se renovou! Saíram os antigos e chegaram novas cabeças, jovens professores. E acredito que aconteceu em todas as áreas. A partir daí temos notícias de que muitas escritoras contemporâneas se tornaram objetos de cursos, de disciplinas, porque começaram a entrar nas aulas. Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus, Maria Firmina dos Reis estão em alta nesse momento, e todas as três são negras, o que significa uma abertura inédita aos estudos literários, entende? É uma renovação revolucionária. O feminismo negro, por exemplo, tem suas pautas específicas. A mulher negra mais que nunca, porque está correndo atrás de um prejuízo. Ficou sem voz por muito tempo e de repente tem que falar tudo, fazer tudo. Veja, é esta questão: esse novo feminismo também entrou na universidade e provocou mudanças, virou tema de teses, dissertações, monografias. Conceição Evaristo está em alta, Carolina Maria de Jesus também. Maria Firmina, a primeira escritora brasileira, ficou absolutamente esquecida por décadas, muitas décadas, e de repente descobrem que foi a primeira mulher escritora negra a falar em abolição em nosso país. Poxa, não existe nenhuma história literária falando disso. Agora, isso está sendo dito em sala, compreende?

 

6 – Em 2020 vimos muitas iniciativas voltadas para a visibilidade da voz das mulheres nas artes. Como a criação de editoras e de livrarias voltadas para a escrita das mulheres pode contribuir para a valorização de suas vozes?

Constância Lima Duarte: Eu penso que a criação de tantas editoras de mulheres voltadas especialmente para esse nicho da literatura de autoria feminina é da maior importância, porque vai ampliar, de forma inédita, a produção das mulheres. Vai permitir um alcance, uma distribuição que ainda não temos como avaliar, mas eu acredito no potencial dessas “pequenas”, entre aspas, “pequenas editoras”, porque elas se somam. A Luas publica aqui, mas, agora com a internet, vende para qualquer lugar, outra em São Paulo. E assim elas vão se somando. Eessas editoras, no momento pequenas, vão se tornar gigantes, porque o nicho, o tema com que elas trabalham, a produção de autoria feminina, é tudo muito amplo e está absolutamente em alta. Eu acho que é excelente.

 

7 – A Editora Luas está anunciando o primeiro volume do livro: Memorial do Memoricídio, organizado por você e que sairá ainda em 2022, nos parece uma iniciativa bastante ousada. Poderia falar um pouco do projeto?

 Constância Lima Duarte: Claro! É um projeto que nasce do coração. É um projeto que pretende contribuir para divulgar escritoras que são pouco conhecidas, apesar das contribuições que deram em vida, apesar da produção intelectual que tiveram. É aquele conceito do memoricídio, porque (estou falando na minha área, da literatura), se você pega qualquer grande história da literatura brasileira, parece que não existe mulheres no século XVII, XVIII e XIX, só homens. Só os homens escreveram. Sim, era outra vida que as mulheres levavam, claro, mas, existiram as escritoras. Algumas, apesar de tudo e todos, apesar das limitações, do preconceito, algumas romperam esse preconceito, esse círculo vicioso em que estavam. “Mulher só tem que casar”, “mulher não tem que aprender a ler e escrever” etc. etc., e publicaram. Publicaram romances, contos, novelas, peças de teatro. Só que suas obras desapareceram, e quando eu falo de memoricídio, quer dizer, as mulheres sofreram, essas primeiras escritoras foram apagadas da história, foram apagadas da memória oficial, não entraram em livros nenhum, em dicionário nenhum. Se você olha nos grandes historiadores, parece que a  participação da mulher na literatura começou nos anos 1930. Os primeiros nomes que aparecem, em todos os livros, é Raquel de Queiroz, na ficção, e Cecília Meirelles, na poesia. De repente, eles não tinham mais como não ver, sabe? Estavam ali. As mulheres estavam publicando. Então, a partir dali começam a falar em mulheres. Poucas. Bem poucas. Mas começam ali.

Então, essa ideia do memorial, assim como o nome quer dizer, que é um monumento, é fazer um monumento. Eu acho que para quem é escritor/a, o melhor monumento é um livro. Foi isso que eu pensei com a Cecília, da Luas. Então, o Memorial do Memoricídio. O título é meu, eu gostei, porque a ideia é esta: eu convidei algumas colegas, fiz uma seleção de escritoras, de nomes de escritoras bárbaras, todas elas ótimas. Então, cada pesquisadora fez pequenas biografias de escritoras brasileiras, completamente, ou praticamente, desconhecidas da historiografia literária. Eu estou feliz com essa publicação. Eu acho que vai ser uma contribuição. Vão aparecer nomes ali que muita gente nunca ouviu falar e vai ficar surpreso/a. Como o exemplo que eu citei, da Emília Freitas, escritora fantástica, uma obra incrível que ninguém fala, que ninguém estuda. Então é isso, a ideia desse livro é ousada, eu concordo, eu acho também. Vai sair o primeiro volume do Memorial do Memoricídio, com quarenta escritoras, todas do século XIX para trás, e o volume dois está já sendo produzido também.

Então é isso, a ideia do projeto é contribuir para divulgar escritoras que não são conhecidas, ou praticamente desconhecidas, mas que merecem estar na história, porque também produziram. Também deram uma contribuição intelectual. Eu costumo falar com meus alunos e alunas que parece que a literatura brasileira só tem um lado. E é o lado que só homens escreveram, só homens brancos, sabe? Mas e as mulheres? Que história da literatura é essa? Cadê essas mulheres? Então, é o outro lado da literatura que a gente tenta mostrar.

                                                           Obrigada, Constância!

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Selo infantil: Lunitas

No ano de 2021, apesar de um contexto difícil para todo o mundo, e com constante aumento da gravidade das consequências da pandemia no Brasil, com esse governo atual genocida, seguimos com flor e garra nossos projetos e sonhos, com cuidado, zelo e apoio de muitas mulheres. Fomos gestando a ideia de trazer um selo infantil, afinal, uma editora preocupada com as mulheres se preocupa também com as crianças.

A Lunitas é um selo infantil feminista, que vai trazer livros com temáticas de valorização das diferenças, da diversidade, do feminino e do masculino, sob a perspectiva da empatia, do cuidado, do amor, da responsabilidade, do afeto; da valorização das emoções e de todos os sentires, da vida de todos os seres da natureza (humanos e não humanos), sob uma perspectiva matrística e ecofeminista.

São muitos os desafios de trazer a diversidade das temáticas necessárias para mudarmos as relações em nossa sociedade, mas acreditamos no fazer coletivo, encontrando e unindo as mulheres, acreditamos na potência transmutadora das experiências com a arte e os livros, nas transformações em nós, pessoas adultas, para mudar as relações com nossas crianças, estabelecermos outro tipo de relação e promover momentos especiais diversos, principalmente de boas leituras, e, assim, seguirmos trilhando caminhos para um mundo diferente: em que as mulheres e as crianças são respeitadas, amadas e não violentadas.

O livro que inaugura a Lunitas é o “Sua primeira casa”*, da Rafaela Kalaffa,  que aborda sobre um lugar comum a todas/os nós, um lugar escuro e quentinho, de onde todas/os viemos, onde foi a nossa primeira casa: o útero! A autora nos embala num canto de retorno, nos permitindo um olhar natural para o nosso corpo, com toda a sua sabedoria e força de se transformar para gerar outra(s) vida(s). É uma viagem para o lugar que primeiro nos nutriu.

Acesse o livro aqui.

Para conhecer todos os livros do selo Lunitas, clique aqui.

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Resenha do livro “Não escrevo poemas de amor” – por Maria do Rosário A. Pereira

DIÓ, Camila. Não escrevo poemas de amor. Guaratinguetá: Penalux, 2020.

Não escrevo poemas de amor (2020) é o primeiro livro da poeta mineira Camila Dió – que, a propósito, acaba de publicar seu segundo título, Quando versos gotejo (2021), ambos pela Penalux. O modo como seu primeiro livro foi organizado lembrou-me A vida submarina, de Ana Martins Marques, primeira obra de uma hoje renomada poeta mineira: muitos livros estavam contidos neste livro, isto é, cada bloco poderia ser, por si só, uma obra à parte – ao menos foi a impressão que tive na época. A mesma impressão tive na leitura dessa estreia promissora de Camila Dió: ainda que o livro não seja dividido em partes, é possível visualizar conjuntos de poemas que poderiam formar obras à parte, o que aponta para a diversidade do trabalho dessa poeta.

É assim que há poemas metalinguísticos como o de abertura, “A poesia é”: neste poema, Camila trabalha belas imagens e metáforas para mostrar ao leitor que a poesia encontra-se nos pequenos elementos ou gestos do cotidiano, que ela não é algo hermético, destinada a uns poucos “sábios”. Vejamos algumas dessas definições: “Um suspiro de alívio ante uma solução importante,/O Zéfiro que ergue pipas e balões ao céu distante,/O vento que provoca as ondas agitando as tempestades, /Uma lufada longa e fresca num dia quente na cidade (…).” Também a natureza comparece em peso para definir e aproximar a poesia do homem comum, da vida cotidiana e simples, como se a poesia fosse um respiro em dias e momentos tão tumultuados – nada mais contemporâneo, diga-se de passagem. A preocupação com a palavra reverbera em outros poemas como “O surgimento de tudo”, que traz versos emblemáticos a exemplo deste: “A palavra pode ser eterna dentro de um segundo.” Como praticamente todo bom poeta, Camila Dió não se furta a perscrutar os meandros da linguagem, uma vez que por ela somos constituídos e com ela nos presentificamos no mundo.

Digno de nota é o título da obra: a poeta posiciona-se claramente em favor de um modus operandi poético, por assim dizer, que não confere exatamente com certas expectativas sociais. “Versinhos de amor”, ainda hoje, parecem constituir o imaginário associado à poeta mulher – se não por um leitor mais atento e familiarizado com poesia, ao menos pelo senso comum. Já pelo título percebemos que a proposta poética de Camila Dió é mais reflexiva e ancorada numa atitude mais dinâmica – uma janela para o mundo subjetivo da poeta, conforme poderíamos pensar pela imagem apresentada na capa, mas ao mesmo tempo uma janela para as inquietações contemporâneas do próprio ser humano.

A memória e os objetos que a representam também comparecem nessa figuração poética, a exemplo do poema “Dentro de um baú”, no qual o eu lírico retira flores mortas de um baú e cada uma delas simboliza um momento, uma lembrança e, assim como a própria memória, desconfiguram-se com o passar do tempo, desmaterializando-se, perecendo, enfim: “pego docemente cada flor/ – que não tem mais cor/ – que não tem mais cheiro/ que se desintegram em minhas mãos,/ que escapam por entre meus dedos (…)”. Tais flores vão sendo substituídas por outras, num trabalho semelhante à recolha das próprias lembranças, que assim também se encadeiam, umas dando lugar às outras, as mais significativas substituindo as transitórias. Assim, nos versos que se seguem, o baú que é de memórias é também de recomeços, como a própria vida, em que uma fase dá lugar a outra, em que a um momento de tristeza se segue um de felicidade, e vice-versa. A fugacidade da vida e o modo como a passagem do tempo é registrada pelo ser humano parece ser uma temática cara a essa jovem poeta, que demonstra uma especial maturidade no manejo da linguagem justamente nos versos em que trabalha essa questão.

Para além de poemas extremamente expressivos no que se refere ao trato com a linguagem há poemas de cunho social, como se lê em “Quem compra?”, no qual o eu lírico “vende” uma série de agruras sociais, em um claro propósito de denúncia: o abandono, a violência e o descaso a que a parcela pobre da população se vê submetida são vendidos, na última estrofe, “aos políticos/ com seus olhares livres de empatia”. Ou seja, o poema não é só uma denúncia a uma situação social calamitosa, mas também ao modo como tal situação vem sendo tratada historicamente pelos detentores do poder em nossa nação.

Há, ainda, poemas que problematizam a relação do homem com o mundo digital, a relação do homem com o capitalismo, a situação dos detentos, a infância, a velhice…. O último poema do livro traz um cenário rural como pano de fundo, numa perspectiva distinta do que fora apresentado até então mas, ao mesmo tempo, novamente dando destaque aos elementos da natureza. Como se nota, é bem diversificado o escopo do livro. Talvez, nesse sentido, um recorte mais direcionado poderia ser mais certeiro; ao mesmo tempo, esse amplo leque dá mostras ao leitor do potencial dessa jovem autora, que, certamente, ainda tem muito a oferecer aos leitores. Que a vivacidade da autora possa contaminar cada vez mais leitores.

Maria do Rosário A. Pereira*

*Doutora em Letras – Estudos Literários (2014), área de concentração Literatura Brasileira, pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais. Mestre em Letras: Estudos Literários, área de concentração Literatura Brasileira (2008), e bacharel em Letras (2004) pela mesma instituição. Integra o Grupo de Pesquisa Letras de Minas (UFMG), o Atlas (CEFET-MG), o Mulheres na Edição CEFET-MG) e o Mulheres e Ficção (UFV). É professora efetiva de Língua Portuguesa, Literatura Brasileira e Editoração nos cursos técnicos e de graduação em Letras do CEFET-MG.

Você pode adquirir o livro aqui.

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Elas dão a letra – matéria de Mariana Payno sobre obras feministas

Resgatar obras fundamentais do passado também está entre as missões da editora mineira Luas (veja mais abaixo), que criou uma coleção dedicada a autoras brasileiras do século 19, como Nísia Floresta e Ercília Nogueira Cobra. “Eu sou da área de Letras e sempre me questionei: cadê as mulheres? Existe uma trajetória, apesar de invisibilizada, de uma escrita muito subversiva”, diz a fundadora Cecília Castro. “Acho que nós, mulheres contemporâneas, estamos desejando esses resgates ancestrais. Queremos preencher essas lacunas.”

Leia a matéria completa aqui.

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