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No altar do Santo Pênis: fuzis, caças e armas químicas

3 de março de 2022 Posted by admin In Colunas

No altar do Santo Pênis: fuzis, caças e armas químicas

Em resposta aos ataques antifeministas que nós, feministas, estamos sofrendo nas redes sociais, por termos divulgado a imagem acima, que contém uma vagina e um pênis associados à origem da vida e à origem da guerra, respectivamente, é que escrevo este manifesto feminista. Começo perguntando: por que somos acusadas de transfobia ao defendermos as nossas vaginas e sermos opostas às guerras? Qual a relação dos ataques virtuais e das calúnias com relação à nova onda antifeminista? Devemos aceitar caladas, enquanto nossas corpas seguem sendo açoitadas?

Querem nos fazer acreditar que a continuidade da exploração da vagina e do útero como depósito de sêmen para gerar o filho do Homem não é um problema de gênero (homem em maiúsculo serve para identificar o homem como humanidade. O Homem da Revolução Francesa, que via razão e pretendeu substituir Deus. Ele é o filho daqueles que nos queimaram em piras, enquanto gritavam histéricos: “queimem no inferno, bruxas!” Indico o livro Ronda das Feiticeiras, da Norma Telles, publicado pela Editora Luas, para o estudo sobre o maior extermínio de mulheres na história).

O contrato sexual moderno (Carole Pateman) garantiu ao patriarca a posse das corpas das mulheres e das suas filha/e/o/s. Foi um negócio lucrativo para o patricapitalismo moderno a criação da família burguesa tradicional, garantindo ao patriarca uma mulher para copular, para trabalhar gratuitamente para ele dentro do lar sagrado e, ainda, gerar os filhos “dele” para ele usar a seu serviço.

Enquanto a mãe ficava circunscrita ao reduto do lar, as prostitutas eram usadas por ele, que pagava por mais sexo. As solteironas eram encarceradas para todo o sempre nos hospitais psiquiátricos com aval da indústria médica e farmacoquímica, então nascente. Suas corpas serviram como cobaias para o patriarca brincar de cientista e inventar modos de gerar mais lucro, fundamentados na teoria de Hipócrates, que pensava existir uma suposta perturbação no útero que criaria um distúrbio cerebral.

No final do século XIX e início do XX, foi inventada a histeria, que seria um suposto distúrbio mental das mulheres causado pelo útero. O médico francês Jean-Martin Charcot transformou o Hospital Psiquiátrico Pitié-Salpêtrière no seu laboratório, as cobaias eram as mulheres que não obedeciam ao patriarca. Elas eram transformadas em histéricas e, portanto, justificava o sequestro, a tortura, a prisão perpétua, os assassinatos em massa e a medicalização forçada, para servir ao nascente mercado da indústria farmacoquímica.

Como as solteironas, as lésbicas foram catalogadas como doentes e, também, foram usadas como cobaias da ciência moderna. As lésbicas foram classificadas pelos juristas como criminosas. Afinal é uma “aberração da natureza” não se curvar diante do altar do Santo Pênis. Por isso, o patriarca criou o estupro corretivo: o problema é que as lesbianas nunca foram comidas por um macho de verdade. O destino das lésbicas era o estupro seguido do encarceramento na cadeia ou no hospício.

A imagem divulgada é bem clara, mas já que o desenho não foi compreendido pelas pessoas que defendem o Santo Pênis, pergunto: o pênis, simbolicamente, não é uma arma de guerra? Não é com ele que os homens estupram crianças, mulheres, pessoas não humanas (termo criado por Barbara Smuts)? Explico um pouco mais: o pênis como arma de guerra é uma metáfora que indica os usos para todos os tipos de violação às corpas das mulheres com útero. Falo aqui do pênis e não do dildo ou dos similares criados pela indústria do sexo ou pela indústria médica.

A exploração patricapitalista da indústria médica e farmacoquímica das barrigas de aluguel, que rendem bilhões, é outra criação do patriarca para serem os donos das crianças que foram geradas nos úteros. Teriam úteros e vaginas as pessoas que lucram nestes vários mercados de carnes e de corpos? É importante acompanhar o caso das mulheres da Ucrânia, que agora estão aparecendo na mídia internacional por conta do início da guerra contra a Rússia. No livro da escritora mexicana Patrícia Karina Vergara Sánchez Siwapajti (Medicina de mulher): Memória e teoria de mulheres, que está em processo de produção e será lançado no Brasil pela editora Luas, a autora aborda a questão. A medicina viu nas corpas com útero mais um mercado fértil e transformou o processo de gestação num negócio lucrativo, que rende milhões aos doutores e empresários.

O serviço doméstico não remunerado ainda é uma realidade para a massa das mulheres com útero e vagina. A diferença de salários entre pessoas com vagina e pessoas com pênis ainda é discrepante, muito embora a luta feminista anarquista, libertária, marxista, sufragista tenha começado a denunciar a desigualdade entre homens e mulheres no século XIX. Explico: não se usava o termo gênero naquele momento histórico.

Os postos de decisão, os cargos políticos, no judiciário e nas várias instituições ainda são ocupados majoritariamente por pessoas com pênis. Os corpos com pênis, ao serem quem comanda a política, a polícia e o judiciário, aceitam com naturalidade que os corpos matáveis sejam majoritariamente os das mulheres negras e indígenas no Brasil. Então, não entendi as calúnias de crime de transfobia por falarmos das diferenças anatomofisiológicas que determinaram, na modernidade, que as pessoas nascidas com vagina deveriam servir ao Santo Pênis em silêncio, pois, caso haja revolta, poderão ser silenciadas, torturadas ou exterminadas. Como foi Marielle Franco no dia 18 de março de 2018. O caso não se resolve, embora tenha revelado que a execução foi encomendada pelo Escritório do Crime. Estes grupos de extermínio são todos comandados por homens com pênis.

Os ataques aéreos, realizados pelas pessoas do agronegócio, que jogam veneno nas aldeias indígenas, nos povos quilombolas e ribeirinhos, são realizados por pessoas com vagina pilotando os aviões? Quem realiza às queimadas criminosas, o desmatamento das florestas brasileiras? De quem são as megafazendas que estão invadindo outras terras para ampliar seu capital? São de pessoas com vagina ou pênis? Muitas mortes estão sendo invisibilizadas neste discurso antifeminista de luta pelo pênis. Não foi o Francis Bacon quem disse que a natureza e as mulheres deveriam ser dominadas, exploradas e torturadas? A modernidade foi construída reproduzindo o discurso de que as mulheres, as pessoas não europeias, não brancas e a natureza são selvagens que seriam controladas à luz da racionalidade do homem.

Após a Revolução Francesa, em 1789, a elaboração da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão era uma forma de garantir direitos aos homens brancos europeus heterossexuais. Mulheres, pessoas não brancas e que não nasciam com pênis não eram consideradas cidadãs dignas de terem direitos. Foi por entender que as mulheres deveriam ter direitos e serem consideradas cidadãs que Marie Gouze escreveu A Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã. A ousadia custou-lhe a vida, ela foi guilhotinada na praça da Concórdia, em Paris, no dia 3 de novembro de 1793. Mesmo usando o pseudônimo de Olympe de Gouges, ela não escapou ao destino de nascer em um corpo matável.

A palavra feminicídio foi uma longa batalha feminista para ser dicionarizada no mundo afora, e mais ainda no Brasil. Para ser contemplada pela legislação e o assassinato ser classificado como feminicídio ainda estamos na luta, pois não basta a lei estar escrita se não for efetivada. Os números apontam o aumento de mortes, mas poucas vezes o crime é classificado como feminicídio.

Quando uma mulher estuprada é humilhada pelos doutores diante do tribunal e os criminosos são blindados por pertencerem a famílias de classe privilegiada e de pele branca e são transformados em vítimas, todas as pessoas que nasceram com útero e vagina são reafirmadas como corpos estupráveis. Muitos ainda insistem em dizer que homem equivale à humanidade. E, assim, a voz das mulheres segue silenciada.

Quem criou o termo Queer foi uma feminista norte-americana. Teresa de Lauretis, nos anos 1990, ampliou o campo da Epistemologia Feminista para explicar o estranhamento e o impacto causado pela multiplicação de gênero favorecida pelos movimentos sociais na segunda década do século XX. Feministas como Oyèrónke Oyěwùmí e María Lugones escrevem que o binarismo de gênero é uma construção moderna criada para justificar o controle sobre as corpas das mulheres. Em algumas comunidades no continente Africano e em algumas tribos indígenas no continente Americano havia outros gêneros para além daqueles criados pelo homem heterossexual, branco e europeu antes das invasões dos colonizadores. Eles aqui vieram com a missão de roubar terras, dizimar povos e, como consequência, estupravam e escravizavam as mulheres não europeias que aqui viviam e as que foram sequestradas da África.

Estamos com a possibilidade de vivenciar a Terceira Guerra Mundial. As experiências do fascismo, do nazismo, do franquismo, das ditaduras impostas na América Latina não foram suficientes. Os donos do poder e os magnatas da indústria bélica querem mais sangue para aumentar o lucro. Mas, o perigo somos nós, as feministas. Novamente somos o alvo, e os nossos discursos continuam sendo distorcidos para justificar o antifeminismo, a misoginia e a continuidade da exploração de nossas corpas.

A imagem que circula nas redes sociais e pela qual nos acusam de transfobia, injustamente, é a ilustração da diferença que se faz entre nascer com um pênis ou uma vagina. Na explosão feminista, termo criado por Heloísa Buarque de Hollanda, muitas discussões sobre a questão biológica apontam para os vários sexos, para a intersexualidade, para a crítica ao binarismo de gênero e para a complexidade do corpo biológico. Na imagem, ilustra-se a ideia de que é do útero que nascemos e que os confrontos bélicos, a indústria de armas e a matança em escala mundializada são invenções do patricapitalismo, criadas por pessoas nascidas com pênis. O pênis garante um certo status social.

É por não cultuarmos o Santo Pênis Patricapitalista que somos transfóbicas? Escrevo para entender por onde vai o debate e qual é a lógica usada para nos acusarem de crime de transfobia. Sou lesbiana, se preferirem, lésbica ou sapatão, mas já me identificava como mulher muito antes de tornar-me, tal como nos explica Sam Bourcier no livro Compreender o Feminismo, publicado pela Editora Devires, que traduzimos para o brasileiro (uso aqui a perspectiva feminista decolonial para me referir à língua que foi imposta aos povos que aqui viviam antes da colonização. Se somos do Brasil e não mais de Pindorama, falamos a língua brasileira e não a portuguesa, já que não vivemos no continente Europeu).

Como dizia, os bombardeios começaram e não sabemos quando uma guerra termina e qual será o saldo de mortes humanas e não humanas. Quantos corpos ficarão mutilados e não irão receber nenhum auxílio dos poderosos que mandaram bombardear? Protegidos por sua guarda pessoal, sob o escudo de outros homens dispostos a morrer pelo chefe, os mandantes saem ilesos na maioria dos casos. Serão necessárias quantas mortes, dois anos após a Pandemia ter levado milhões de vidas humanas? Enquanto as pessoas não negacionistas esperavam por uma vacina, a distância entre os poucos bilionários e a multidão faminta aumentou. Com a guerra, quantas pessoas irão viver na miséria e buscar refúgio nos outros países já devastados pela pandemia e pela exploração realizada pelos poucos bilionários, que aumentaram suas fortunas nestes dois anos? 

O bilionário Jeff Bezos, norte-americano, e o britânico Richard Branson aproveitaram a pandemia e a facilitação do financiamento estatal para promover uma disputa, para brincarem de astronauta e ver quem iria percorrer o espaço sideral primeiro. Enquanto isso, o povo morria doente, à mingua, pela fome ou sendo massacrado e expulso de suas terras para o agronegócio expandir seus lucros e ajudar a pagar as pesquisas sobre a invasão de outros planetas para roubar os seus recursos naturais.

Em tempos de guerra, mirar na cabeça das mulheres, que se orgulham e aprenderam a amar as suas corpas violadas ao longo dos séculos, é mais uma violência. Sou uma feminista pacifista ecovegana, me tornei vegana por empatia às outras espécies, sou contra todo o tipo de violência, seja ela física, psicológica, moral ou sexual. Portanto, nesta pequena reflexão sobre a imagem, quero dizer que a vagina e o útero nos permitiram estarmos aqui, independente do gênero, etnia ou classe social.

O pênis, no patricapitalismo, é usado como arma de guerra, tendo em vista que a indústria bélica e farmacoquímica foi uma invenção moderna, mesma época em que criaram o binarismo de gênero, hierarquizaram os gêneros, em masculino racional versus feminino sentimental. Todos os outros gêneros foram classificados como aberração. Esta foi uma invenção da ciência feita pelo homem heretossexual, branco, burguês e europeu. A Epistemologia Feminista se empenhou, desde o fim do século XIX e início do XX, na elaboração de uma crítica ao modelo científico moderno, comprometido com o capitalismo e com o industrialismo. As feministas criaram os Estudos de Gênero e a Teoria Queer para explicar que somos uma multidão complexa e não binária, que a questão política deve ser sempre pensada na interseccionalidade de gênero, etnia-raça, classe e espécie.

Não foram as pessoas com vagina que inventaram a pólvora, a bomba atômica, os gazes asfixiantes, o canhão, os caças de guerra! Não foram as pessoas com vagina que jogaram duas bombas atômicas no Japão! Não são as pessoas com vagina que lideram o ranking de estupros de crianças, mulheres e pessoas não humanas! Não são as mulheres com vagina que lideram o ranking do extermínio de mulheres (feminicídio), o extermínio de pessoas não brancas (racismo) e o extermínio de LGBTQIA+!

Já tivemos duas Guerras Mundiais, duas pandemias, estamos vivendo o problema climático e vendo-o se agravar sobre os nossos lombos marcados pelo chicote do opressor. Mas, como dizia Paulo Freire, “o sonho do oprimido é virar opressor”. No altar do Santo Pênis, as armas de destruição em massa estão novamente nas telinhas, nas telonas e nas redes sociais para divertir as mentes sádicas e doutrinadas para se contentarem em confundir conhecimento com informação. As fake news usadas pela elite brasileira para destituir a Presidenta Dilma Rouseff ajudaram a aumentar o abismo entre quem vive da informação virtual e não adentra no complexo campo do estudo e da pesquisa e quem procura fontes seguras.

Enquanto isso, a indústria bélica e a indústria farmacoquímica avança sem parar, dizimando as florestas na África, na América Latina, na Ásia, promovendo guerrilhas e extermínios em massa para que a elite empresarial gere mais lucro para os poucos bilionários. Eles sobrevoam alegremente em suas naves almejando a invasão de outros planetas para esgotarem outras fontes naturais e transformarem em royalties. Eles se escondem, covardemente, nas costas de sua guarda pretoriana contemporânea, vestida de robocop-militar, ou se acovardam escondidos em seus bunkers particulares.

Sou pacifista e não me curvo ao altar bélico do Santo Pênis! Como Ecofeminista luto para a cura planetária, independente da etnia-raça, classe, gênero ou espécie, sou contra o extermínio de pessoas promovido pelos homens brancos, héteros, europeus privilegiados. Pachamama está em chamas, queimando, fruto da ganancia promovida pelo patricapitalismo. Deveríamos nos preocupar coletivamente e trabalhar pelas soluções para a redução dos danos do aquecimento global (indico o livro de Maria Mies e Vandana Shiva, Ecofeminismo, publicado pela Editora Luas).

A imagem é um desenho que está circulando entre feministas e não feministas, entre pessoas que são contra a guerra.  A imagem não foi criada para atacar ninguém, pelo contrário, expõe um dos problemas da binarização de gênero, que é a guerra, a venda de armas a serviço dos narcogovernos, da disputa de territórios promovida pelos homens com pênis. Não sou defensora do patriotismo e nem abordo aqui qual dos lados está certou ou errado, minha pátria é o Universo, assim aprendi com Maria Lacerda de Moura e com o anarquismo pacifista.

Dadas as disputas de gênero criadas por pessoas oportunistas para nos classificar como criminosas transfóbicas, decido por mudar a minha identidade de gênero. Como a Epistemologia Feminista colaborou para a luta LGBTQIA+, para a criação das Teorias de Gênero e Queer, e para a crítica da invenção moderna da divisão social binarizada – mas isso não bastou, as mulheres seguem sendo o alvo, mesmo diante da ameaça de uma Terceira Guerra Mundial –, decido que a partir de hoje a minha identidade de gênero é FEMINISTA.


Patrícia Lessa – Feminista ecovegana, agricultora, mãe de pessoas não humanas, pesquisadora, educadora e escritora.

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